Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Nenhuma ficção sobre bola rolando nos gramados, nem mesmo "Os Trapalhões e o Rei do Futebol" (1986), com Pelé, converteu-se num fenômeno à altura do que o esporte mais amado deste país representa para o nosso povo, embora haja um par de longas-metragens centrado no tema com status de cult: "Boleiros" (1998) e sua sequência, de 2006. Essa dobradinha é uma parte das mais líricas (e, numa certa altura, das mais marxistas, mesmo sem clamar pelo barbudo alemão) da obra de Ugo Giorgetti. Obra que fez toda uma geração de brasileiros olhar para São Paulo com mais encantamento... e doçura.
Em fricção total, aos 84 anos, o diretor ganhou uma retrospectiva na Pauliceia, no Espaço Petrobras de Cinema, que se encerra nesta quarta, com filme inédito. "Alberto Dines - Vínculos de Liberdade" (2026), retrato de um pilar da imprensa, vai ganhar sessão no evento, esta noite, às 19h10, seguida de debate entre o seu realizador e o crítico Inácio Araújo. O que a gente vê nesse repertório de longas são banhos de descarrego capazes de curar a ressaca dos desenganos morais e políticos sofridos por sua nação dos anos 1960 (em meio a uma ditadura) pra cá.
Num artigo recente em seu blog no Instituto Moreira Salles, o crítico José Geraldo Couto cravou: em seus retratos sociais, Giorgetti faz "o trânsito entre amargura e riso" e vai "do elevado ao banal". Gol! É isso: é um criador de imagens, com um pé na melancolia e outro no deboche, que tem alquimia singular com a tradição neorrealista do cinema brasileiro, ao unir denúncia e ternura, trançando zoação e saudosismo. É um iluminista sentimental. Às vezes ele é mais ácido, como em "Festa", ganhador do Kikito de melhor filme no Festival de Gramado de 1989, e às vezes, combina sociologia com poesia, como "Quebrando a Cara" (1986).
A viagem da sala de projeção da Rua Augusta (o Espaço Petrobrás) a seu currículo de delícias é uma iniciativa integrada ao Festival Folha de Cineastas de São Paulo, que, do dia 26 até hoje, enfileirou achados de Giorgetti. Tem um dos mais inspirados dele nesta quarta, antes do .doc sobre Dines: "Solo" (2009). Ali, um homem já entrado em seus 70 anos (Antonio Abujamra) recapitula para a câmera episódios de uma vida da qual não entende mais nada e constata que nada pode defendê-lo da avalanche de pequenos e grandes entraves em seu cotidiano.
"Gosto muito de filmar. Por mim filmaria todos os dias, não importa que filmes e em que condições. O que mais mudou na minha maneira de filmar foi eu mesmo. Não sou mais aquele jovem cineasta que esperava tanto do cinema", confessa Giorgetti ao Correio da Manhã, com toda a sinceridade que alimenta sua dramaturgia filmada.
Há, em sua trajetória, um tratado sobre as alianças que a amizade fabrica: "O Príncipe", que foi lançado no Rio bem timidamente em 2002. Nele, um intelectual há muito radicado em Paris (Eduardo Tornaghi) regressa ao país e encontra sua rede de amigos em frangalhos afetivos (até os que prosperaram financeiramente). Um deles, cadeirante, é encarnado pelo reator nuclear de ironia Otávio Augusto, espécie de muso de Giorgetti.
Para o diretor, Otávio "representa o papel de um grande ator sempre disponível a quem recorro frequentemente".
Quem sabe uma alma boa não trás ao circuito carioca as delícias que o Espaço Petrobrás hoje confere na revisão de Giorgetti, além de "Boleiros - Era Uma Vez o Futebol" e "Boleiros 2 - Vencedores e Vencidos".
"O sucesso do filme levou a um convite do jornal 'O Estado de S. Paulo', onde escrevi por 16 anos sobre futebol", conta o artista, referindo-se a um material que ele reuniu, faz pouco, num livro de crônicas e contos de escrita saborosa e faro finíssimo para dribles e pênaltis.
Dele, lá no Espaço, teve "Sábado" (1994), (o excelente) "Cara ou Coroa" (2012), "A Cidade Imaginária" (2014), "Uma Noite em Sampa" (2016) e "Dora e Gabriel" (2020). Tem um pedaço da vida paulistana em cada narrativa dessa.
"São Paulo é apenas o lugar onde nasci e por isso me oferece locações sempre muito apropriadas e conheço bem", explica Giorgetti, que em plena pandemia, em 2021, levou ao É Tudo Verdade o documentário "Paul Singer, Uma Utopia Militante", uma delicada investigação sobre o autor de "Ensaios sobre Economia Solidária".
Uma vez mais com as ferramentas documentais em punho, ele esquadrinha os feitos do jornalista Alberto Dines (1932-2018). Seu novo longa, ainda desconhecido no RJ, parte de imagens de arquivo e depoimentos que revisitam a ética (e a estética) investigativa de Dines.
Perguntado pelo Correio sobre que novos projetos estão em seu forno, Giorgetti... dá uma de Giorgetti, ou seja, faz o sincerão: "É o que sempre me pergunto...".
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