Chama-se "fiorde" o golfo de mar estreito e profundo, cercado por altas montanhas rochosas, formado pelo recuo de antigas geleiras, comum em países como a Noruega, o ganhador do Oscar de Melhor Filme Internacional, em março, por "Valor Sentimental". Embora se passe lá, na região de Alesund, com coprodução da França, da Dinamarca, da Finlândia e da Suécia, o longa-metragem que venceu a Palma de Ouro de 2026, no sábado passado, batizado com o nome do acidente geográfico acima descrito ("Fjord" é o título original), tem raízes profundas na Romênia. É de lá, da cidade Iasi (na região da Moldávia), que vem Cristian Mungiu, diretor desse misto de drama e thriller de tribunal, transformado por Cannes numa das produções mais esperadas do ano.
Não se trata de um ensaio ecológico, mas, sim, de um estudo sobre o que reside de perigoso nas boas intenções. Temos um casal cheio de filhas e filhos, que pode perder a guarda de sua criançada depois de o Estado norueguês interpretar (erradamente) as manchas no corpo da primogênita como um sinal de violência doméstica. A intervenção do Conselho Tutelar numa Escandinávia, que apregoa evolução civilizatória plena, beira a barbárie. Defensores da cultura woke tomaram uma palmada de Mungiu, que bate sem dó na hipocrisia do cancelamento. Uma marola acusatória de "conservadorismo" tentou enuviar a passagem dessa trama - que esculacha a esquerda, a direita e o centro - pela Croisette, mas os sagrados poderes da dialética falaram mais alto e o júri, presidido pelo cineasta sul-coreano Park Chan-wook, achou por bem regar as mudas do mais longevo ciclo geopolítico do cinema mundial no século XXI: a Primavera Romena.
"Embora eu não creia na ideia de 'cinemas nacionais', pois as grandes narrativas são universais, fico feliz em perceber o respeito em torno de um cinema feito com ousadia na Romênia, há muito referendado por Cannes, que aposta na originalidade e celebra a vida", disse Mungiu ao Correio da Manhã, no desfecho do festival francês. "Este objeto aqui (referência à Palma) vai fazer as pessoas de diferentes lugares do mundo descobrirem a nossa história".
Não foi a primeira vez que Mungiu segurou o tal objeto. Em 2007, ele deu a seu país a sua primeira Palma de Ouro com "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", ao narrar a saga de uma jovem estudante para ajudar uma amiga a abortar num momento opressivo do comunismo romeno, em 1987, sob a mão de ferro do governante da época, Nicolae Ceausescu (1918-1989). Há como vê-lo, na íntegra, no YouTube. Dois anos antes de sua estreia, em 2005, Cannes recebeu um óvni também de CEP romeno, chamado "A Morte do Sr. Lazarescu", de Cristi Puiu, hoje disponível no streaming Reserva Imovision.
Foi o cult de Puiu que abriu os olhos do mundo para a realidade da Romênia, que começou o século XXI filmando num sistema simbólico muito peculiar, compartilhado por outras vozes autorais de prestígio, como Mungiu, ao revelar, numa abordagem quase naturalista, com câmera digital e orçamento mirrado, o garrote de um estado corrupto no pescoço de toda uma geração. Este método supõe o uso de uma estética desdramatizada (com poucas ações), em locações reais, filmadas com um olhar próximo do documentário, onde as tramas são sempre mote para que se aborde a decadência política (e moral) daquela nação a partir dos escombros sociais deixados como herança pelo Comunismo. Essa aproximação estética quase sempre é arejado por um humor dos mais cáusticos. Desse projeto arftístico nasceram joias como "California Dreamin'" (2007), de Cristian Nemescu; "Instinto Materno" (Urso de Ouro de 2013) e "Ana, Mon Amour" (2017), de Cãlin Peter Netzer; "O Tesouro" (2015), de Corneliu Porumboiu; "Pororoca" (2017), de Constantin Popescu; "Limonada" (2018), de Iona Uricaru; "Não Me Toque" (Urso de Ouro de 2018), de Adina Pintilie; e a trinca "Sieranevada" (2017), "Malmkrog" (2020) e "MMXX" (2023) de Puiu.
O Brasil se meteu a produzir um dos grandes gênios romenos em atividade, Radu Jude, que levou o Urso de Ouro para Bucareste ao vencer a Berlinale de 2021, com "Má Sorte No Sexo ou Pornô Acidental". Ele contou com o apoio da RT Features, de Rodrigo Teixeira em "Kontinental '25" (Prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Berlim de 2025) e no ainda inédito "Drácula". O próximo longa de Radu, "Frankenstein in Romania", terá como protagonista um compatriota do diretor, hoje aclamado por Hollywood, com indicações ao Oscar: Sebastian Stan, o Soldado Invernal da Marvel.
Stan divide com a norueguesa Renate Reinsve o protagonismo de "Fjord", de Mungiu. Formam em cena o casal Gheorghiu: ela, Lisbet, é escandinava; e ele, Mihai, é romeno. Os dois se mudam com os filhos para uma vila da Noruega situada no fundo de um fiorde. Essa família muito religiosa rapidamente faz amizade com seus vizinhos, os Halberg. Apesar de seus diferentes estilos de educação, as crianças dos dois clãs criam laços estreitos. Um dia, quando os professores notam sinais de maus-tratos físicos em Elia, a filha mais velha dos Gheorghiu, a suspeita se instala na comunidade. Será que as práticas educacionais convencionais de Lisbet e de Mihai teriam ultrapassado o limite da violência? A investigação que se segue mergulha toda a vizinhança no caos, num ranço de xenofobia no ar.
"Eu não julgo as personagens, mas há um debate no centro de tudo: se você olhar para as diferenças, atrás só das estranhezas, verá apenas inimigos", disse Mungiu a Cannes. "É mais fácil se unir ao gado e pastar na relva dos algoritmos. Mas o cinema no qual eu acredito prefere tirar a plateia da condição de rebanho e deixar ela pensar".
Laureado ainda com o Prêmio do Júri Ecumênico e o Prêmio da Crítica, em Cannes, "Fjord" estreia na França em agosto e chega ao Brasil só para os festivais do segundo semestre.
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