Aríete político dos mais espinhosos, "Fjord" ("Fiorde", em tradução literal) conquistou a Palma de Ouro de Cannes, em 2026, momentos depois de abocanhar o Prêmio da Crítica, votado pela Fipresci, entidade conhecida como Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica, e o Prêmio do Júri Ecumênico. Seu diretor foi o responsável pela chamada Primavera Romena, a onda de produções idealizadas a partir de Bucareste, quase sempre em câmera digital, com ranço das corrupções estatais. Seu nome: Cristian Mungiu. Em 2007, ele recebeu de um júri presidido pelo inglês Stephen Frears a única Palma que sua pátria havia recebido até ali e fez uma leva de compatriotas filmar. Agora leva para seu país uma segunda dose do mimo mais cobiçado da Croisette, confiado a ele no sábado por uma esquadra de artistas presidida pelo cineasta sul-coreano Park Chan-wook ("OldBoy").
Seu novo sucesso bate na intolerância religiosa, na cultura woke (pesadamente) e no ódio que a imigração gera. Sebastian Stan, o Soldado Invernal da Marvel, é seu protagonista, em duo com Renate Reinsve, a estrela de "Valor Sentimental" (que, com méritos, tirou o Oscar de "O Agente Secreto"). Ele vive um romeno radicado na Escandinávia e ela é sua companheira. Eles têm uma filharada, mas podem perder a guarda das crianças depois que se espalha um boato (falso) de que eles agridem sua prole. Uma guerra judicial se forma e a xenofonia vem à tona.
"Eu trabalho com a mesma equipe, quase sempre, e fui parar na Noruega, onde há uma luz natural incrível, com meu diretor de fotografia, Tudo Vladimir Panduru, com quem tenho uma dinâmica de confiança, e de poucas palavras, na construção de uma coreografia de planos longos. Neles eu exploro como o mundo normatiza exclusões, em parte porque parece ser mais fácil agirmos como se fôssemos mais uma porção de gado num rebanho", respondeu Mungiu ao Correio da Manhã, na coletiva de "Fjord" em Cannes.
A partir de agora, Mungiu se junta a um seleto time de realizadores com duas Palmas. São onze ao todo. Ao lado dele estão: Ruben Östlund (por "The Square" e "Triângulo da Tristeza"); Ken Loach (por "Eu, Daniel Blake", em 2016; e "Ventos da Liberdade", em 2006); Francis Ford Coppola (por "A Conversação", em 1974; e por "Apocalypse Now", em 1979); Shoei Imamura (por "A Balada de Narayama", em 1983; e por "A Enguia", em 1997); Bille August (por "Pelle, o Conquistador", em 1988, por " As Melhores Intenções", em 1992), Emir Kusturica (por "Quando Papai Saiu Em Viagem De Negócios", em 1985; e por "Underground - Mentiras de Guerra", em 1995); os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne (por "Rosetta", em 1999; e por "A Criança", em 2005); Michael Haneke (por "A Fita Branca", em 2009; e por "Amor", em 2012); e Alf Sjöberg (por "Tortura de um Desejo", em 1946; e por "Senhorita Julia" em 1951).
O colegiado de juradas e jurados desta Palma de Ouro teve, além de Park, a presença do cineasta chileno Diego Céspedes, do ator marfinense Isaach de Bankolé, do roteirista irlandês-escocês Paul Laverty, da atriz americana Demi Moore, da atriz etíope-irlandesa Ruth Negga, do ator sueco Stellan Skarsgård, da cineasta belga Laura Wandel e da diretora chinesa Chloé Zhao. Antes de cada escolha dessa turma ser revelada, Cannes premiou Barbra Streisand com a terceira Palma Honorária de 2026, que, ao longo dos últimos dez dias, foi confiada também a John Travolta e a Peter Jackson.
Park & cia. abriram suas atribuições anunciado o prêmio de Interpretação masculina, que foi dada à dupla Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, por "Coward". Eles vivem soldados das trincheiras da I Guerra que se apaixonam enquanto encenam pequenos espetáculos de teatro para levantar o ânimo das tropas. Não demorou a sair a ganhadora do troféu de Atuação Feminina: ganharam Tao Okamoto e Virginie Efira, por "Soudain". O novo longa de Ryûsuke Hamaguchi acompanha a conexão entre a chefe de uma clínica de tratamentos paliativos e uma encenadora, no coração da Ásia.
"O que Hamaguchi consegue dizer sobre a sociedade e a intimidade é impressionante. A maneira como ele reúne uma equipe e cria uma espécie de mundo paralelo, próprio, é singular", disse Virginie ao Correio, ciente de ser uma das intérpretes mais concorrida do continente europeu na atualidade.
Na escala de relevância das distinções de Cannes, o terceiro troféu mais cobiçado é o Prêmio do Júri, foi parar na Bulgária, por vias alemãs, com "The Dreamed Adventure", de Valeska Grisebach, que subverte as estratégias dos filmes de máfia ao falar de uma comunidade búlgara assolada pelo crime. "Narrativas de gênero são estruturadas sobre perdas, ganhos e duelos. Eu fujo dos duelos e foco na complexidade das pessoas", disse Valeska ao Correio.
O delirante épico queer "La Bola Negra", que passa em revista a História da Espanha, dos anos 1930 até 2017, garantiu a Javier Calvo e Javier Ambrossi o prêmio de Melhor Direção, ainda que merecesse BEM mais. Penélope Cruz e Glenn Close têm participações pequenas, mas possantes nessa costura de três dramas com homens torturados pela homofobia.
"Este filme se esforça para ser imenso ao dizer algo bem pequeno: aquilo que cada um de nós é", disse Calvo em Cannes. Ao cravar qual foi o Melhor Roteiro do evento, Park e sua turma chamou Emmanuel Marre, que escreveu e dirigiu "Notre Salut". É uma recriação da França ocupada durante o avanço de Hitler pela Europa, em 1940. Sua dramaturgia se desenha como um drama sobre estratégias de resistência.
Na sexta, Cannes foi apresentada à expressão poética coroada com a Palma Documental, o troféu L'Oeil d'Or: "Rehearsals for a Revolution", de Pegah Ahangarani. Por meio de cinco retratos de seus entes queridos, todas figuras de resistência no Irã, Pegah traça o relato íntimo da sua vida, percorrendo 40 anos de conflitos em sua nação. Também foi conhecido o vencedor da Queer Palm, a láurea LGBTQIAP : o thriller de terror americano "Teenage Sex and Death at Camp Miasma", de Jane Schoenbrun, com Gillian Anderson ("Arquivo X") sob a lâmina de um assassino e das patrulhas homofóbicas.
Mesmo sem cineastas de nossa pátria concorrendo na disputa principal, o audiovisual do Brasil mordiscou o chamado "palmarês" (a premiação) de Cannes, em âmbitos paralelos. Lucas Acher ganhou a competição La Cinef, de curtas universitários, com "Laser-Gato", de raízes paulistas. O chileno "La Perra", que tinha Selton Mello no elenco e o produtor Rodrigo Teixeira na linha de frente, rendeu a Palm Dog à sua estrela canina, a cadelinha Yuri. Na seção Um Certain Regard, "Elefantes na Névoa", trama do Nepal coproduzida por Tatiana Leite e Leonardo Mecchi, rendeu uma láurea à sua equipe de som, de SP, e ganhou o Prêmio do Júri de sua competição.
Com o término de Cannes, as atenções da indústria cinematográfica se voltam para o Festival de Locarno, na Suíça, que agendou suas atividades de 5 a 15 de agosto. É um dos pontos do circuito cinéfilo que aquecem as expectativas para o Oscar.