Carnaval

A casa onde o samba aprendeu a entrar

Com Renato Lage no comando e Tia Ciata de enredo, o Tuiuti vai à Sapucaí contar a história da mulher precursora do samba carioca

A casa onde o samba aprendeu a entrar
Tuiuti será a terceira escola a desfilar no domingo de Carnaval Crédito: Tata Barreto | Riotur

Na casa da Tia Ciata, a música mudava de sala. Na da frente, a das visitas de cerimônia, tocavam valsa e choro. Nos fundos, o samba de partido corria solto. No quintal, o candomblé tinha o seu tempo e o seu respeito. Conta a tradição que foi entre aquelas paredes, perto da Praça Onze, que "Pelo Telefone" ganhou corpo antes de virar o primeiro grande sucesso do gênero. Uma casa, três mundos, e uma dona que sabia onde cada um devia sentar.

Hilária Batista de Almeida nasceu em 1854, em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano. Ajudou a fundar a Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira, foi iniciada no candomblé e, aos 22 anos, veio para o Rio. Casou com João Baptista da Silva, teve 14 filhos e se instalou na zona portuária, a vizinhança que Heitor dos Prazeres chamaria de Pequena África. Fazia doces de tabuleiro, vestida de baiana, e era mãe-pequena na casa de João Alabá. Respeitada nos terreiros e disputada nos salões, virou Tia Ciata sem pedir licença a ninguém.

A cidade, claro, não retribuiu a hospitalidade. O Bota-Abaixo de Pereira Passos empurrou os pretos para os morros e para a periferia, e a Pequena África foi encolhendo até caber só na memória. Ciata morreu em 1924. O samba, que ela havia ajudado a abrigar quando ninguém o queria na sala, sobreviveu à demolição e, oito anos depois, desfilava na própria Praça Onze, já com nome de escola de samba.

É essa história que o Paraíso do Tuiuti leva em 2027, com o enredo "Ciata: a mãe preta do samba". A escola de São Cristóvão foi a primeira do Grupo Especial a revelar o tema, em março de 2026, e a justificativa do presidente Renato Thor tem a simplicidade das coisas verdadeiras: "A Tia Ciata sempre foi citada em desfiles, mas ainda não teve a sua história contada." A pesquisa é de Luiz Antonio Simas e Claudio Russo, a mesma dupla que, com Gustavo Clarão, assina o samba, apresentado em 31 de julho na Cidade do Samba.

Quem vai transformar tudo isso em fantasias e alegorias é Renato Lage, dono de quatro títulos do Grupo Especial (três pela Mocidade e um pelo Salgueiro) e nome de peso da estética futurista que mudou a Avenida nos anos 1990. Dele é o "Criador e criatura", de 1996, que ainda se cita quando alguém quer provar que alegoria também sabe pensar. Estreia no Tuiuti. A aposta é curiosa e promissora: um artista da luz, do metal e do movimento diante de uma matéria-prima de tabuleiro, de terreiro e de gente.

A bisneta de Ciata, Gracy Mary Moreira, que esteve na festa do samba, resumiu o espírito: "Foi bem pensado, de explorar o quanto a Tia Ciata fez pelo nosso povo."

O Tuiuti se apresenta como o "Quilombo do Samba", e tem currículo para sustentar o apelido. Em 2018, com "Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão?", foi vice-campeão por um décimo e fez do desfile um dos mais comentados da década. De lá para cá, manteve o rumo: pôs no centro da pista o Almirante Negro, João Cândido, depois Xica Manicongo e, em 2026, a espiritualidade cubana de "Lonã Ifá Lukumi". Título do Especial, porém, nunca veio, e a escola terminou o último desfile em nono lugar. Agora chega com samba novo, mestre-sala e porta-bandeira novos (Vinicius Antunes e Rebeca Tito), comissão de frente de Marlon Cruz e Pixulé no microfone.

O Tuiuti entra na Sapucaí como terceira escola do domingo, 7 de fevereiro, com a casa de Ciata inteira nas costas: a sala, os fundos e o quintal. Quem cruzava o portão dela não saía igual, e o samba é a prova. Que a Avenida se prepare para ser visita.


FICHA TÉCNICA

FICHA TÉCNICA
Paraíso do Tuiuti Crédito: Divulgação

Escola: G.R.E.S. Paraíso do Tuiuti

Fundação: 5 de abril de 1952

Presidente: Renato Thor (Renato Ribeiro Marins)

presidente de honra: Jorge Honorato

Enredo: "Ciata: a mãe preta do samba"

Desfile: domingo, 7 de fevereiro de 2027 (3ª escola da noite) Carnavalesco: Renato Lage

Enredistas: Luiz Antonio Simas e Claudio Russo

DIRETORES DE CARNAVAL: Ronnan Marins e Júlio César Garcia

Intérprete: Pixulé

Mestre-sala e porta-bandeira: Vinicius Antunes e Rebeca Tito

Bateria: Mestre Marcão

Rainha de bateria: Mayara Lima

Comissão de frente: Marlon Cruz

SAMBA-ENREDO

Compositores: Claudio Russo, Gustavo Clarão e Luiz Antonio Simas

Brilhou no meu olhar o espelho de Oxum

Cantou o primeiro galo na tez da manhã

Rezei pro infinito Olorum

Ao sabor do Omolokum

Na batida do Ogã

Sou mandingueira da velha Bahia

Da Gamboa à Saúde rodei no terreiro

Saberes que não vão pra academia

Meu filho, sobram no meu tabuleiro

Poeira sobe, o cenário muda

Deus nos acuda, do Bota-Abaixo

Que esta cidade não se meta à francesa

Ela é preta na beleza até a raspa do tacho

Bota dendê, bota dendê, camará

No caruru do erê

No acarajé de Oyá

Quem vai querer? Quem vai querer? Camará

Um mugunzá de colher

Doce de coco e manjar

Na esquina do Ouvidor

Um apontador vai rabiscar

A justa enquadrou uma yaô do Alabá

Pro Chefe da folia e do choro

Carnaval é Rei de Ouros

Candomblé é resistência

O batente acabou eu vou

Tentar salvar a Excelência

Nesse terreiro de macumbeiros, artistas

Poetas e jornalistas, ó gente bamba

Sou de massemba, Yabassê

Tia Ciata

Mãe baiana do Tuiuti e do samba

Sou Yalodê, Yalodê Orô

Sou Yalodê, Yalodê Orô

Firmo ponto riscado

Meu quilombo chegou

Firmo ponto riscado

O Quilombo do Samba chegou