Carnaval

Os 100 anos do acadêmico da avenida

Do rigor da galeria para a avenida, Fernando Pamplona foi o carnavalesco que liderou a revolução estética da maior festa popular do Brasil

Os 100 anos do acadêmico da avenida
Pamplona levou seu conhecimento artístico para o universo das escolas de samva, criando novas e sofisticadas linguagens formação para as artes populares Crédito: Divulgação

Havia um jurado incomodado na cabine em 1959. O Salgueiro tinha resolvido desfilar sobre Debret, o pintor francês que registrou o Brasil escravocrata do século XIX, e fez aquilo com um cuidado plástico que ninguém esperava de uma escola de morro. O jurado se chamava Fernando Pamplona, dava aula na Escola Nacional de Belas Artes e assinava cenários no Theatro Municipal. Saiu da cabine convertido. Nunca mais julgou um desfile. No ano seguinte já estava do outro lado, no barracão, e o carnaval carioca nunca mais foi o mesmo.

Pamplona nasceu no Rio em setembro de 1926. Os registros divergem entre os dias 26 e 28, e a família sempre contou que ele morreu em 29 de setembro de 2013, um dia depois de completar 87 anos. Seja qual for a data exata, é certo que neste mês esta cidade que tanto o amou comemorará o seu centenário.

E cai num ano de simetria quase literária: o Salgueiro anunciou para 2027 o enredo "Laroyê Xica da Silva", um remake ao tema que a escola levou à avenida em 1963, no auge da revolução que Pamplona liderou.

A biografia começa longe das avenidas do carnaval. Depois da Revolução de 1930, o pai promotor levou a família para Xapuri, no Acre. Foi ali que o menino fez o curso primário e viu de perto as festas populares do Norte, o boi-bumbá, os folguedos que não entravam em nenhum programa de arte da época. A família voltou ao Rio em 1935 e foi morar no Flamengo. Ele estudou no Colégio Pedro II e entrou na Escola Nacional de Belas Artes, onde participou do teatro universitário e conheceu Zeni, bailarina do Municipal, com quem se casou em 1952 e viveu até o fim.

Essa costura entre a formação clássica e a memória do interior explica quase tudo o que ele fez depois. Pamplona tinha o repertório da academia, ganhou prêmio do Salão do Museu Nacional de Belas Artes que lhe rendeu uma temporada na Alemanha, e mesmo assim insistia que a matéria-prima do artista brasileiro estava na rua. Não era discurso. Era método.

Macaque in the trees
Fotógrafo na juventude, o aluno da Escola de Belas Artes atuou em montagens de ópera e teatro antes de se dedicar aos defiles carnavalescos | Foto: Reprodução

Antes de virar o nome que virou, Pamplona já era um profissional respeitado do teatro. Trabalhou em cinema nos anos 50, foi assistente de cenografia e fotógrafo de set, participou da primeira Bienal de Teatro, em 1957, no Ibirapuera. No Municipal, assinou montagens de ópera e balé.

Carlos Heitor Cony, que era amigo dele, lembrava dois trabalhos em especial: os cenários de "Madame Butterfly" e a recriação, no Brasil, dos cenários que Picasso desenhou para "O Chapéu de Três Bicos", balé de Leonide Massine sobre música de Manuel de Falla. A recriação foi aprovada pelo próprio Picasso e por Massine. Cony também tinha uma implicância carinhosa com a maneira como o país arquivou o amigo. Achava redutor chamá-lo de carnavalesco. Preferia dizer que ele era, acima de tudo, "um artista e um caráter".

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Cenógrafo respeitado, Fernando Pamplona era jurada dos desfiles de escola de samba até 1959, quando se encantou pela plasticidade de um um desfile do Salgueiro, escola onde hes história | Foto: Reprodução

Nelson de Andrade, então presidente do Salgueiro, foi quem chamou Pamplona para o barracão. A escola já tinha o lema que carrega até hoje, o de não ser nem melhor nem pior, apenas diferente. Pamplona montou uma equipe com o casal Dirceu e Marie Louise Nery, Arlindo Rodrigues e Nilton Sá, e estreou com "Quilombo dos Palmares".

O carnaval da época vivia de enredo de capa e espada, de exaltação de vultos oficiais e de índio genérico. Pôr Zumbi na avenida, em 1960, com samba de Anescarzinho, Noel Rosa de Oliveira e Walter Moreira, era outra conversa. Era dizer que a história do Brasil tinha um lado que a escola pública não ensinava e que esse lado podia virar espetáculo de primeira grandeza. O Salgueiro foi campeão na estreia.

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Xica da Silva, do caranaval de 1963, ressurgirá no Salgueiro de 2027 em homanagem a Ferenando Pamplona | Foto: Repdodução

Veio "Vida e obra de Aleijadinho" em 1961. Veio "Xica da Silva" em 1963, assinado por Arlindo Rodrigues enquanto Pamplona estava na Europa, mas nascido inteiro da matriz que ele criara: a personagem negra como protagonista heroica, a pesquisa histórica levada a sério, a ala do minueto coreografada por Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Municipal. O desfile de 1963 fez mais pela memória de Chica da Silva do que um século de historiografia. Antes dele, a personagem era nota de rodapé. Depois, virou peça de teatro, virou filme de Cacá Diegues, virou novela.

Depois vieram "Chico Rei", em 1964, e "História do Carnaval Carioca", em 1965, escolhido para o IV Centenário da cidade e campeão. Nesse ano, um jovem bailarino do Municipal apareceu no barracão para ajudar: Joãosinho Trinta. Ainda houve "Bahia de Todos os Deuses", em 1969, e "Festa para um Rei Negro", em 1971, feito a oito mãos com Arlindo, Joãosinho e Maria Augusta. Quatro títulos, três vices, doze enredos assinados. Pamplona pendurou as chuteiras depois do desfile de 1978, magoado com o que considerou uma sabotagem contra o Salgueiro, e prometeu à mulher que não voltaria. Cumpriu.

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Fernando Pamplona diante de um carro alegórico do Salgueiro em desfile nos anos 1970 | Foto: Widger Frota

Enquanto revolucionava a avenida, Pamplona fazia outra coisa que a cidade esqueceu com uma facilidade injusta: era ele quem vestia o Rio para a folia. Entre os anos 50 e 60, assinou a decoração oficial do carnaval de rua, a do Theatro Municipal e a dos grandes bailes da cidade, incluindo os do Copacabana Palace, do Hotel Glória e do Hotel Nacional. Cony, que viu tudo aquilo de perto, dizia sem meio-termo que ele foi o melhor decorador que as ruas do Rio já tiveram.

Quem tem mais de sessenta anos lembra do que era descer o Centro em fevereiro e encontrar a Rio Branco e a Presidente Vargas transformadas em corredor de fantasia, com estruturas que não eram enfeite de vitrine, eram cenografia de verdade, pensada para ser vista de longe e de dentro do bloco. Nos anos 70, o trabalho ganhou passaporte: a Embratur o mandou cuidar da decoração brasileira nos congressos internacionais de agentes de viagens em Acapulco, em 1973, Montreal, em 1974, e no próprio Rio, em 1975.

Era um Rio que ainda tratava o carnaval como obra pública. A prefeitura contratava artista para vestir a cidade, e o artista contratado tinha cenário de ópera no currículo. Essa faixa da obra de Pamplona quase não foi fotografada em cor, sobrou pouca coisa em arquivo, e é por isso que ela some das retrospectivas. Some, mas explica o resto: quem passou anos pensando a rua como palco chegou ao barracão do Salgueiro sabendo exatamente o tamanho do quadro que tinha nas mãos.

Foi aluno da Escola Nacional de Belas Artes, depois professor e diretor da casa. E foi na sala de aula, tanto quanto no barracão, que ele mudou o carnaval.

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O mestre com Rosa Magalhães, uma de suas discípulas | Foto: Reprodução

A lista dos que passaram por ele explica por que o chamam de pai de todos os carnavalescos. Arlindo Rodrigues, parceiro e sucessor. Joãosinho Trinta, que saiu do balé do Municipal para inventar o carnaval dos anos 70 e 80. Maria Augusta, que levou a União da Ilha ao posto de escola-sensação. Rosa Magalhães, que foi aluna dele em Belas Artes antes de trabalhar ao seu lado no Salgueiro e depois virar a carnavalesca mais premiada da história. Renato Lage. Lícia Lacerda. No dia em que o mestre morreu, Rosa disse que ele mudou a estética e a forma de apresentar o carnaval, e fez questão de emendar que fez isso com integridade.

O método era o mesmo que ele usava no barracão. Pesquisa primeiro, desenho depois. Fonte histórica antes da purpurina. Pamplona ensinava que uma alegoria precisa ser lida a cem metros de distância e continuar de pé quando vista de perto, e que fantasia é figurino, com corte, com peso, com lógica de cena. Quem aprendeu isso com ele levou a lição para outros cantos e transformou o que era exceção salgueirense em gramática comum do carnaval carioca.

Não é pouca coisa. Praticamente todo desfile que o Brasil assiste hoje, com pesquisa de enredo, projeto plástico, unidade visual entre alegoria e fantasia, descende de alguma aula que esse homem deu nas salas da Escola Nacional de Belas Artes.

A segunda vida de Pamplona começou onde a primeira parou. Funcionário da TVE do Rio desde o início das operações da emissora, em 1975, ele já tinha produzido para a televisão educativa a novela "João da Silva", experiência que misturava teledramaturgia e curso supletivo e que ganhou o Prêmio Japão de radiodifusão educativa.

Aposentado do barracão, apresentou à direção da TVE um projeto que hoje pareceria delírio de pauta. A Globo anunciava para 1980 o slogan "Programação Normal e o Melhor do Carnaval", o que na prática significava desfile do Grupo Especial carioca e qusee nada mais. Pamplona propôs o oposto: oitenta horas ininterruptas de carnaval brasileiro. Em entrevista a Sérgio Cabral, publicada no livro do jornalista sobre as escolas de samba, ele resumiu o feito com a franqueza de sempre, dizendo que fizeram "aquela loucura de botar a TVE oitenta horas no ar".

Deu certo. A emissora pública transmitiu o Grupo 1-A e o 1-B, reprisou os desfiles, entrou ao vivo no carnaval de Niterói, de São Paulo, de Porto Alegre, e abriu espaço para a folia de todo o país. Segundo o próprio Pamplona, a TVE bateu a Globo no Ibope em determinados momentos. No ano seguinte foram 81 horas. Em 1982, 82 horas, três dias e meio de transmissão sem parar, com equipes divididas entre a Marquês de Sapucaí e a Avenida Rio Branco para cobrir escolas, blocos e ranchos. O time incluía Albino Pinheiro, Sérgio Cabral, José Carlos Rego, Luiz Lobo, Mister Eco, Amaury Monteiro e José Luiz Furtado.

Nenhuma emissora brasileira repetiu a dose depois disso. A cobertura da TVE não tinha efeito especial nem direção de imagem sofisticada. Tinha o que ninguém mais tem: conversa de gente que entende, no ar, sem pressa, enquanto a escola passa.

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Ao deixar os defiles, Pamplona tornou-se um comentarista sem papas na língua nas transmissões de desfile pela extinta TV Manchete | Foto: Reprodução

Nos anos 80 e 90, Pamplona virou a voz mais respeitada das transmissões da Rede Manchete, ao lado de Haroldo Costa, Maria Augusta e Paulo Stein, num período em que a emissora da Glória disputava o carnaval com a Globo e criou linguagens que a televisão usa até hoje, como mostrar o grito de guerra do intérprete antes da escola arrancar. Ele também comentou na Band e na Globo, e foi jurado do Estandarte de Ouro.

Aquela cabine era um lugar perigoso para quem gostava de unanimidade. Como lembrou Cony, ele foi o primeiro a denunciar que o samba-enredo estava virando marchinha, acelerado até perder a melodia. Cobrou publicamente a ausência de negros nos setores nobres dos desfiles. Reclamou da direção de imagem que trocava a análise da alegoria por closes de corpos seminus, e disse isso com todas as letras sobre a emissora em que trabalhava.

O momento mais lembrado veio em 1989, quando Joãosinho Trinta levou à Sapucaí o Cristo mendigo da Beija-Flor e a Justiça mandou cobrir a alegoria. Do microfone da Manchete, o professor gritou para o ex-aluno que evoluísse na avenida: "Evolui na avenida, João!" Era o mestre defendendo o discípulo contra a censura, ao vivo, em rede nacional.

Vale lembrar de que lugar ele falava. A revolução salgueirense começou em 1960 e atravessou inteira o período mais duro da ditadura militar. Pôr Zumbi, Chico Rei e Chica da Silva no centro da maior festa popular do país, num momento em que o regime patrocinava um Brasil oficial de cartão-postal, foi gesto político, mesmo que o público de arquibancada não lesse assim.

Pamplona circulava entre os intelectuais que faziam oposição de dentro da cultura. Era próximo da turma do Pasquim, o tabloide que Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral e Ziraldo criaram em 1969 para debochar do regime e que teve boa parte da redação presa em dezembro de 1970. Com Sérgio Cabral, dividiu cabine de televisão e páginas de livro. Com Cony, que escreveu para o jornal enquanto a turma estava presa, dividiu quatro décadas de amizade. A capa do primeiro livro de Cony foi desenhada por Pamplona, e o escritor dizia, décadas depois, que nenhum outro capista alcançou a força daquele desenho.

A resistência dele nunca foi de palanque. Enquanto a propaganda oficial vendia o Brasil grande, o professor mandava para a avenida um quilombo, um rei negro de Vila Rica e uma ex-escravizada que virou senhora do Arraial do Tijuco, com pesquisa em Cecília Meireles e coreografia de Mercedes Baptista. Fazia isso diante de milhares de pessoas nas arquibancadas e de jurados nomeados por órgão do governo municipal. Um enredo não derruba regime nenhum, mas muda o que um país acha que pode ser contado em público. Foi essa a briga que ele comprou.

Aqui está o ponto que resume o personagem. Pamplona tinha tudo para ser mais um artista de gabinete. Estudou na melhor escola de arte do país, viajou premiado para a Europa, montou ópera no Municipal, recriou Picasso. E passou a vida inteira dizendo que a força do trabalho dele vinha de fora, do morro, do terreiro, da roda de samba, da festa de boi que viu quando era menino no Acre.

Cony traduziu isso melhor do que ninguém no texto que escreveu para a biografia do amigo. Dizia que, enquanto o artista comum se emociona diante de uma catedral gótica, Pamplona descobriu que a catedral dele era feita de gente, de suor, de riso e de lágrima.

Ele frequentava o Salgueiro, sentava na quadra, discutia samba com compositor, ouvia baluarte. Botafoguense de coração e salgueirense por conversão, morou em Copacabana e nunca perdeu o sotaque da rua. Aos 86 anos, dava entrevista dentro de táxi a caminho do Méier para conversar com estudantes. Continuava crítico até o fim, insatisfeito com o rumo dos enredos patrocinados e do samba acelerado, embora reconhecesse talento em quem chegava, como Paulo Barros, sobre quem tinha uma opinião elogiosa e ao mesmo tempo severa, típica dele.

Em janeiro de 2013 lançou a autobiografia "O encarnado e o branco". Morreu em setembro, em casa, em Copacabana, um mês depois de descobrir um câncer raro. Foi enterrado no São João Batista, em Botafogo.

Cem anos depois do nascimento, o Rio tem uma dívida de memória com Fernando Pamplona. Parte do acervo dele segue espalhada entre instituições e arquivos de emissoras, e o público mais jovem conhece o nome de ouvir falar, geralmente pela boca de carnavalesco em entrevistas atuais.

O que sobrou está na avenida, todos os dias de carnaval. Está no enredo que pesquisa antes de fantasiar. Está na alegoria pensada como cenário, não como caminhão enfeitado. Está na presença dos personagens negros do Brasil no lugar mais visível da festa. Está, agora, no Salgueiro de 2027, que decidiu voltar a Chica da Silva e vai desfilar, sem dizer, o legado do professor.

Cony tinha razão na implicância. Chamar Fernando Pamplona de carnavalesco é pouco. Ele foi o sujeito que pegou a arte que aprendeu na academia e devolveu para quem sempre foi dono dela.