Carnaval

A pajelança incorporada que vem de Marajó

Escola de Nilópolis levará para a avenida vida da autora do livro que inspirou o enredo campeão de 1989

A pajelança incorporada que vem de Marajó

Fred Soares

Especial para o Correio da Manhã

Vinte e nove anos depois de um livro lhe render o título de 1998, a escola de Nilópolis faz da autora o enredo: Zeneida Lima, a última pajé marajoara. O mundo dá voltas. Em 1998, Zeneida Lima saiu do Marajó, bateu na quadra de Nilópolis e deixou na Beija-Flor um título. Agora é a escola quem retribui: foi a Soure dar a notícia à própria autora, que aos 92 anos deixa de ser fonte para ser tema e pretende estar na Avenida.

A azul e branco será a segunda a desfilar no domingo, 7 de fevereiro, com "Zeneida: O Sopro do Pó de Louro". Do povo Sakaka, neta de pajé, Zeneida herdou do avô o entendimento das coisas da terra e levou tempo até se assentar pajé. Depois do desfile de 1998, em que a Beija-Flor dividiu o título com a Mangueira, fez da floresta a sua causa e abriu em Soure, na costa leste do Marajó, em parceria com Rachel de Queiroz, a Instituição Caruanas do Marajó Cultura e Ecologia, hoje frequentada por cerca de 180 crianças e adolescentes.

Poeta, compositora, escritora, ambientalista: a mesma mulher cabe em todos esses nomes. A sinopse, lida em maio na quadra, numa noite de roda de carimbó, vem em primeira pessoa, como se a própria pajé tomasse a palavra. Começa pelo beija-flor que a leva a conhecer o seu ninho e abre um portal para o mundo dos Caruanas, morada dos seres encantados que, segundo ela, a guiam. O carnavalesco João Vitor Araújo, no quarto carnaval seguido à frente da escola, avisa que não é reedição de 1998. Quer a vida dela inteira na Avenida, da iniciação e da pajelança à educadora de hoje, com pesquisa de Bruno Laurato, Guilherme Niegro e Vivian Pereira. Dela é a frase que dá a medida do enredo: "Esse enredo não é meu, é do nosso Pará, da nossa Ilha do Marajó, da Amazônia e se todos os índios".

A Beija-Flor chega com 15 títulos e a memória de um décimo de diferença. Em 2026, o "Bembé" tirou nota máxima na maioria dos quesitos e perdeu para a Viradouro por 0,1: 269,9 a 270; o décimo que escapou estava em Alegorias e Adereços. Foram cinco carnavais, cinco colocações diversas: o vice de 2022, o quarto lugar de 2023, o oitavo de 2024, o título de 2025, com 270 pontos e uma homenagem a Laíla, e o vice por um fio de 2026.

O carro de som já é outro. Em 2026, a escola desfilou pela primeira vez em cinquenta anos sem Neguinho da Beija-Flor como intérprete principal: ele se despediu do microfone no título de 2025 e passou a baluarte. Quem herdou o posto saiu de um reality, "A Voz do Carnaval": Nino do Milênio, que cantou na escola de 2012 a 2017 e voltou em 2025, e Jéssica Martin, que chegou à quadra aos 10 anos, foi a revelação. Seguem Claudinho e Selminha Sorriso, o casal que Laíla pôs logo atrás da comissão de frente em 2002, ideia que as outras escolas acabaram copiando. A bateria é dos mestres Rodney e Plínio, Lorena Raissa é a rainha, Jorge Teixeira e Saulo Finelon assinam a comissão de frente e Almir Reis preside a escola desde 2021.

O samba nasceu na madrugada de 11 de setembro, de uma final com quatro parcerias, entre inscritos de Nilópolis e do Pará. Venceram Marquinhos Beija-Flor, Claudio Russo, Chacal do Sax, Rômulo Massacesi, Júlio Alves e Léo Freire, com versos sobre o ativismo de Zeneida pelo Marajó. Num vídeo exibido antes do anúncio, a homenageada disse ter certeza de que escolheriam o melhor.

Da primeira vez, a Beija-Flor levou um livro à Sapucaí; agora leva a dona dele. E quem perdeu um título por um décimo sabe quanto pode pesar um sopro. Que desta vez, seja um sopro de louro.