Fred Soares
Especial para o Correio da Manhã
O primeiro som do domingo de Carnaval de 2027 na Marquês de Sapucaí vai ter sotaque maricaense. Quando as luzes da Avenida mal tiverem acabado de acender, a União de Maricá vai entrar para fazer o que nenhuma escola da cidade fez até hoje: desfilar no Grupo Especial. Será em 7 de fevereiro, abrindo a noite de desfiles com o enredo "Utopia Brasil: Darcy Ribeiro".
Vai cantar a história de um homem que passou a vida sonhando com um país que ainda não existia e que nunca deixou de acreditar nele. A escola tem onze anos e subiu como um foguete. Nasceu em 2015, por iniciativa do prefeito Washington Quaquá, hoje presidente de honra, para devolver o Carnaval a uma cidade que o perdeu em 2008, quando acabaram os desfiles locais. Foram anos de rua sem tamborim, e a União chegou para acabar com esse silêncio. Estreou na quarta divisão em 2016 e ganhou o primeiro título em 2018, com um enredo sobre o centenário do Cordão da Bola Preta. Foi vice-campeã da Série Prata em 2023 e chegou à Sapucaí em 2024, quando terminou em quarto. Em 2025, quinto, para em 2026 levar o título, com "Berenguendéns e Balangandãs", de Leandro Vieira: 269,4 pontos, mesmo depois de perder dois décimos por estourar o tempo e de um acidente com o último carro alegórico. O desfile do título falava de joias que eram também amuletos, e do balangandã como uma poupança de mulher negra, penduricalho que podia comprar alforria. Da quarta divisão ao Especial, a escola trocou de pele a cada degrau.
Pele, aliás, é justamente o assunto. O homenageado, Darcy Ribeiro, dizia que se parecia com as cobras por ter muitas peles. Antropólogo, educador, escritor, indigenista e político, defendeu a escola pública e a causa indígena. Esteve na criação da UnB, na ideia dos Cieps e no projeto do Sambódromo, que leva o seu nome. Ou seja: Maricá vai contar a vida de Darcy na avenida que já é dele. E vai contá-la de casa, porque ele viveu em Cordeirinho, no município, e escreveu ali parte de "O Povo Brasileiro".
Em 2027 completam-se 30 anos da sua morte. O fio condutor é essa imagem das muitas peles. A escola vai atravessar as várias vidas de Darcy atrás de uma utopia só: um Brasil real, ainda inacabado, mais justo, democrático e consciente da própria identidade. Para o diretor de Carnaval Mauro Amorim, essa utopia não ficou no pensamento, virou realização, e é nela que o desfile se apoia. A sinopse é de Mauro Cordeiro, e o desenvolvimento, do carnavalesco Edson Pereira. Edson chega depois de dois carnavais na Unidos da Tijuca e conhece o Especial por dentro: passou também por Salgueiro e Vila Isabel. Tem três títulos da Série Ouro, com Renascer de Jacarepaguá (2011), Viradouro (2018) e Unidos de Padre Miguel (2024, junto com Lucas Milatto). Ocupa a vaga de Leandro Vieira, que ficou na Imperatriz Leopoldinense, já que não pode assinar duas escolas do Grupo Especial.
O elenco ganhou reforços grandes. Julinho Nascimento e Rute Alves dançam juntos desde 2008 e passaram oito carnavais na Viradouro, campeã do Grupo Especial em 2026. Rute soma títulos na elite. Agora, os dois carregam a bandeira de Maricá como novo primeiro casal, no lugar de Fabrício Pires e Giovanna Justo, o casal do acesso.
Na bateria, Paulinho Steves, mestre desde 2022, passa a dividir o comando com Nilo Sérgio, que passou vinte anos à frente da Portela e tem quatro Estandartes de Ouro. Zé Paulo Sierra segue como intérprete, com contrato até 2027. Patrick Carvalho continua na comissão de frente. E Rayane Dumont, que começou como passista, desfila pela sétima vez como rainha e será a primeira a passar pelos três grupos na mesma escola, do chão da Intendente Magalhães ao asfalto da Sapucaí. Mauro Amorim acumula as direções de carnaval e de harmonia, esta ao lado de Helton Dias. O samba foi escolhido em setembro, na quadra, entre três finalistas.
Na madrugada de 19 de setembro, venceu a parceria liderada por Moacyr Luz, nome de peso do samba carioca, com Rafael Gigante, Wanderley Monteiro, Babby do Cavaco, Vinicius Ferreira, Marcelinho Moreira, Jefferson Oliveira e Hélio Porto. Cinco deles já assinavam o samba da escola em 2025. É a trilha de um país por fazer, e vai ter de ser cantada por uma comunidade inteira de olho na permanência entre as grandes Quem abre a noite entra com a arquibancada ainda enchendo.
Maricá já mostrou que sabe ganhar. Em 2026 estourou o tempo em dois minutos, e no Grupo Especial um erro desses custa mais caro na sua luta de permanecer entre as grandes. Mas quem já trocou de pele tantas vezes em onze anos vai saber bem como se adaptar ao novo cenário.
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