SÓ CARIOQUICES

SÓ CARIOQUICES: Benito di Paula, o gênio que o Brasilnão quis enxergar

SÓ CARIOQUICES: Benito di Paula, o gênio que o Brasilnão quis enxergar
Benito di Paula enriqueceu a sonoridade do samba através de seu piano e tonou-se um artista de enorme alcance popular nos anos 1970 e 1980 Crédito: Divulgação

Benito di Paula morreu no domingo, e desde então carrego uma pergunta atravessada na garganta: por que foi preciso ele partir para tanta gente lembrar de dizer que ele era bom?

Benito foi um gênio injustiçado. Escrevo assim, sem rodeio, porque rodeio já houve demais. Nos anos 1970, vendeu discos como pouquíssimos neste país. Ronnie Von contou que dividia o mesmo empresário, Marcos Lázaro, com Elis Regina, Roberto Carlos e Benito. O show mais caro da turma era o de Benito. O mais vendido também.

E o Rio tem parte nisso. Antes da fama, Benito morou no Morro da Formiga, na Tijuca, terra de sambista, e foi andarilho de Copacabana, varando madrugadas de boate em boate atrás de um piano e de um cachê. Aprendeu ali o que conservatório nenhum ensina.

Mesmo assim, a crítica sempre o olhou de esguelha. Dizia que ele levava para o samba um piano e umas harmonias sem nada a ver com a essência do gênero. Apelidaram sua música de "samba-joia", com a boca torta. Benito respondeu compondo. "Osso Duro de Roer" é o recado de quem não ia mudar para agradar ninguém.

Mas que essência é essa que o samba teria de guardar intocada? O samba é o gênero mais generoso que o Brasil inventou. Virou samba-canção nas boates, samba-enredo na avenida, samba de breque na voz de Moreira da Silva, partido-alto nos quintais, samba-rock com Jorge Ben, pagode debaixo da tamarineira do Cacique de Ramos. E virou bossa nova, quando Tom Jobim e João Gilberto encheram o samba de acordes vindos do jazz. A bossa foi chamada de revolução. Benito, que fez algo da mesma família a partir da noite e do povão, foi chamado de cafona.

O problema nunca foi o piano. Era o público.

A crítica brasileira, de música, de literatura, de cinema, tem o velho cacoete de desconfiar do que é popular. Trata o sucesso de massa como sinônimo de coisa chula. Quase nunca é. Esse olhar é o reflexo de uma elite que sempre trabalhou para rebaixar o que vem de baixo, mesmo quando o que vem de baixo tem qualidade de sobra. Benito sentiu isso na carne.

E qualidade não faltava. Era afinadíssimo. Fazia melodias que grudam na memória, como "Retalhos de Cetim" e "Charlie Brown". Era uma fera ao piano, um pianeiro - como ele mesmo se definia - que botou sétimas e nonas para sambar. Sua obra trazia a malandragem, a malícia e a ginga típicas do samba carioca, só que de terno, anel e piano de cauda. Acima de tudo, tinha o que faz de um artista um artista: tocava o coração das pessoas. De milhões delas.

A prova da injustiça está nas estantes. Benito quase não aparece nas pesquisas acadêmicas sobre a música popular brasileira. Eu, sinceramente, desconheço um livro que conte a vida dele. Um homem que cantou para o país inteiro, e o país letrado não se deu ao trabalho de escrevê-lo.

Que a morte, que nunca chega na hora certa, sirva ao menos para reparar. Antes tarde do que nunca.

Benito ergueu a "Bandeira do Samba". Este colunista, daqui, levanta outra: a da justiça a um gigante da música popular brasileira. E não pretende baixá-la tão cedo. Aprendi com o próprio Benito que certas causas, como certos homens, são osso duro de roer.