SÓ CARIOQUICES

Aldir, o professor que a História não conta

Um filme mostra o letrista que o Brasil cantou. O outro, o marido que escrevia bilhetes. Fiquei pensando em qual dos dois me conheci primeiro. Nenhum, para ser sincero. O Aldir que conheci foi o professor

Aldir, o professor que a História não conta

Aldir Blanc está em cartaz. O Festival do Rio exibe este ano dois documentários sobre ele, ambos na competição da Première Brasil. "Aldir Blanc - Resposta ao Tempo", de Marcus Fernando e Hugo Sukman, parte da definição de Dorival Caymmi: ourives das palavras. "Fui Olhar Você Dormir", de Anna Azevedo, vai pelo lado íntimo, com 35 anos de amor contados em cerca de 2 mil bilhetes que Aldir deixou para Mari Lúcia, e que seguem aparecendo pelo apartamento seis anos depois da morte do compositor e cronista tijucano.

Um filme mostra o letrista que o Brasil cantou. O outro, o marido que escrevia bilhetes. Fiquei pensando em qual dos dois me conheci primeiro. Nenhum, para ser sincero. O Aldir que conheci foi o professor.

Era 1985, eu estava para completar 11 anos e estudava no Colégio Anglo Americano, em Botafogo. Como sempre, nada de caderno aberto antes de acabar o carnaval. Entre tantos desfiles, um ficou na minha cabeça como pulga atrás da orelha: o da União da Ilha do Governador, que homenageava um tal de João Cândido. Eu nunca tinha ouvido falar. A escola já havia sido firme no ensino de História do Brasil nos dois anos anteriores, e nem uma palavra sobre ele.

Sem biblioteca por perto, recorri ao Jornal do Brasil do domingo de carnaval, que eu guardava desde 1983.

Estava lá: o enredo da Ilha, e o samba lindo, nasciam de uma canção de Aldir Blanc e João Bosco, "O Mestre-Sala dos Mares". Cabeça de menino não pega metáfora. Achei que era homenagem a algum baliza antigo que gostava de nadar, sei lá... Fui à Kaele Discos, em Copacabana, comprei o álbum da Elis Regina em que a música estava e me apaixonei de cara. Os versos deixavam claro que se tratava de uma figura histórica. Só não explicavam por que ninguém falava dela na escola.

Esperei que o currículo respondesse. Os meses passaram e nada. Quando a matéria chegou ao século 20, perdi a paciência e fui atrás da professora Anileda, no corredor mesmo. Contei tudo, do desfile à poesia do Aldir. Ela marcou uma aula particular na biblioteca, na hora do recreio.

Foi ali que soube da Revolta da Chibata, em 1910, no Rio: marinheiros exigindo o fim dos castigos físicos, liderados por um militar pobre e negro, João Cândido, que a História empurrou para a margem. Não havia livro nem registro. Era o rastro de duas décadas de repressão e censura. A própria canção apanhou da Censura. Aldir contou anos depois que o censor implicou com a palavra "negro" no título original, e que o censor era negro. Saiu dali, entrou num bar e não conseguia levar o copo à boca de tanto que tremia. Não era medo. Era descobrir que o problema com João Cândido nunca foi só político.

Aprendi tudo isso no recreio, de um jeito quase subversivo, por causa de uma música.

Entendi que a verdade escolar não é a única e que cabe a gente escarafunchar. Por isso sempre chamei Aldir de meu primeiro professor da História que a História não conta. Escrevi isso em maio de 2020, dias depois da morte dele, sabendo que nunca teria a chance de dizer pessoalmente.

Agora o Festival do Rio põe o Aldir em duas telas, e acho que o menino de 1985 gostaria de saber. Um garoto saiu de um desfile de escola de samba e foi parar numa aula de História.

Mais de quarenta anos depois, o cinema vai atrás do homem por trás das canções, e ele aparece inteiro: o cronista do Rio que Caymmi chamou de ourives e o marido que escondia bilhetes de amor pela casa. Imagino que Aldir acharia graça de virar atração de festival. Eu continuo devendo a ele, como escrevi em 2020. E ainda tem muita história nas canções dele esperando um menino curioso.