Multiartista pode ser uma definição desgastada e usada à exaustão, mas não para explicar quem foi Juarez Machado, que morreu no fim da tarde desta terça-feira (6), no Hospital Universitário de Vassouras RJ). Ele estava internado havia cerca de um mês para tratar uma pneumonia e, segundo a família, dava sinais de melhora — foi quando o coração parou. Ele tinha 85 anos e convivia, nos últimos anos, com um quadro de Alzheimer. A parada cardíaca por complicações da pneumonia é a causa oficial, confirmada pelo Instituto Internacional Juarez Machado, o IIJM, entidade que o próprio artista fundou para cuidar do próprio legado.
"Joinvilense de nascimento e cidadão do mundo por vocação, Juarez Machado construiu uma trajetória singular nas artes, reconhecida no Brasil e no exterior", disse a nota do instituto.
Com ele se fecha um dos raríssimos dossiês da arte brasileira em que a pergunta "o que você faz?" exigia um parágrafo de resposta. Pintor, desenhista, gravador, escultor, cartunista, ilustrador, mímico, ator, cenógrafo e escritor — a lista, que em qualquer outro soaria currículo inflacionado. "Eu não sou mímico, eu sou um desenhista, um desenhista do gesto. E o gesto é, na verdade, o pensamento em imagem", definia ele próprio. O crítico Jacob Klintowitz foi na mesma linha: Juarez era "um narrador e não um juiz", encenava situações em vez de explicá-las.
Nasceu em 16 de março de 1941, numa casa onde a imagem fazia parte da rotina. O pai, João de Oliveira Machado, era caixeiro viajante, colecionador de antiguidades, restaurador de relógios e fotógrafo amador. A mãe, Leonora Busch Machado, pintava leques numa fábrica local. Aos 14 anos, o menino já desenhava rótulos e embalagens de remédios numa gráfica. Curitiba veio depois, com a Escola de Música e Belas Artes do Paraná e a primeira individual. E o Rio, em seguida, com a projeção nacional como chargista e desenhista de humor para "O Cruzeiro", "Jornal do Brasil" e "O Pasquim".
Foi no Rio que Juarez invadiu a sala de estar do país. Cenógrafo da TV Globo, estreou em 1974 um quadro no "Fantástico" em que, com o rosto pintado de branco, dava vida aos próprios desenhos — tornou-se o pioneiro do desenho de humor na televisão brasileira. No mesmo ano, assinou a cenografia e os figurinos do primeiro especial de Roberto Carlos, e depois trabalhou em projetos de Elis Regina, Raul Seixas e Emílio Santiago. "Eu fiz essa bicicleta de rodas quadradas, e eu brinco, para andar nesta cidade de buracos redondos", explicava, sobre a obsessão com bicicletas impossíveis.
No fim dos anos 1970, a pressa da televisão deu lugar à lentidão da pintura — mas a mímica, a cenografia e a caricatura reapareceram nas telas, onde objetos banais viravam atores de pequenas cenas. Em 2022 recebeu importante retrospectiva no Museu Oscar Niemeyer, com 166 obras.
Nos anos 1980 estabeleceu ateliê em Montmartre, reduto parisiense de boemia e artes. Lá na França recebeu a Ordem das Artes e das Letras, a maior condecoração cultural do país. A memória, porém, nunca emigrou: Joinville, Copacabana, Veneza e o circo seguiam povoando as telas. A cidade natal devolveu a gentileza em pedra e cimento. O mural cerâmico "O Grande Circo" estampa desde 1998 a fachada do Centreventos Cau Hansen, onde funciona o Teatro Juarez Machado, inaugurado em sua homenagem. Em 2014, o instituto que leva seu nome ocupou a antiga casa dos pais — lá, em 2020, ele velou a esposa, Melina Mosimann, diretora do instituto, morta aos 53 anos por câncer.
A repercussão correu a noite e a manhã. "Hoje, ainda, eu estava me lembrando de Curitiba, onde tudo entre nós começou, uma amizade muito grande que perdurou até agora. O Brasil perde um artista múltiplo. Juarez Machado, uma grande pessoa, um grande amigo", disse o ator Ary Fontoura, parceiro de juventude. A Prefeitura de Joinville decretou três dias de luto oficial. "Juarez será sempre lembrado pelas suas obras, personalidade marcante e irreverência", diz a nota. A Associação de Artistas Plásticos de Joinville pediu "que sua obra continue falando por ele", a Fundação Catarinense de Cultura publicou nota de pesar, o Hospital Dona Helena destacou o homem "apaixonado pela vida" e a Artestil Galeria, de Curitiba, registrou que "parte essencial da história da arte brasileira se despede hoje".
A única frase que ele deixou pronta para a ocasião, porém, já existia: "Pena eu morrer um dia. Ainda teria tantas coisas para viver. E é a chance da gente entrar para a eternidade. Só a arte é eterna."
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