Fui criado em Copacabana. Nasci ali, cresci ali e aprendi ali. Menino, eu ouvia os mais velhos contando, em voz baixa e sorriso largo, as maravilhas que o bairro guardava depois que o sol resolvia sumir do mapa. Falavam das ruas. Falavam das boates. Falavam, sobretudo, das moças. Eu não entendia tanto, mas entendia o essencial: havia uma festa acontecendo e eu ainda não tinha idade para o convite.
Passei a infância torcendo pelo relógio como quem torce pro jogo acabar em final de campeonato. O relógio andou. Dei minhas cacetadas, como diria Didi Mocó, e não me arrependo de nenhuma. Vivi boas e loucas experiências, dessas que a gente recomenda para as próximas gerações e esconde da atual.
Mas é justamente por isso que este colunista levanta hoje uma questão de ordem: cadê a velha noite de Copacabana?
O editor deste caderno, meu amigo Affonso Nunes, é testemunha de que continuo notívago. Com outros hábitos, é verdade. Troquei a farra juvenil pelo sanduíche de pernil e a boate pelo balcão. Volta e meia saio de madrugada para comer no Parada de Copa, que herdou do velho Cervantes a receita, os garçons e a alma, enquanto o endereço original ficou com a placa. Dia desses, de barriga cheia, resolvi caminhar pelo quadrado que vai da Prado Júnior à Duvivier, o pedaço que um dia foi o mais quente da cidade. Um marasmo.
Os bares que não fechavam nunca hoje nem existem. As boates que restaram não completam os dedos de uma mão. As moças solícitas, aquelas do sorriso convidativo, sumiram sem deixar bilhete. Nem a Help sobrou: virou terreno de museu. Copacabana trocou a pista de dança por acervo.
Sei que os tempos mudaram. Os costumes também. Mas toda grande cidade tem seu pedaço onde boemia e sexualidade se misturam. Paris tem Pigalle, Amsterdã tem o bairro vermelho, e o Rio tinha Copacabana. Alguém vai me dizer que a Lapa ocupou esse espaço.
Será? Fui lá conferir. Encontrei muito jovem, muita cerveja na rua, muita fila de banheiro. A Lapa é uma mesa de bar do tamanho de um bairro. Copacabana era outra coisa. Era uma promessa.
Nasci num Rio em que Copacabana, além de Princesinha do Mar, era o bairro onde o couro comia. Praia de dia, bar no fim da tarde, boate na madrugada, e o carioca inteiro sonhando com esse roteiro. Nunca esqueço minha primeira vez numa boate da Ministro Viveiros de Castro, quando uma morena digna de Hollywood se aproximou e disse: "Oi, lindão. Vamos tomar um drink?" Eu tinha tudo para ser ignorado numa fila de ônibus. Naquela noite, era
Don Juan. Copacabana tinha esse poder. Não fazia do sujeito um rei, mas fazia ele se sentir um. Que, convenhamos, sai mais barato e dá menos trabalho.
Tudo isso se apagou. A Copacabana noturna de hoje é um bairro quase silencioso, estéril, uma senhora bem-comportada que dorme cedo e reclama do barulho. Dizem que Copacabana não é um bairro, é um estado de espírito. Pode ser. O problema é que o espírito foi pra cama. E eu continuo aqui, na calçada, esperando o relógio andar.
De novo. Será?
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