No próximo dia 24 de agosto, a Riotur abre as inscrições para os blocos que quiserem desfilar no carnaval de 2027. O prazo vai até 24 de setembro. Em 2026 foram cerca de 460 desfiles liberados e seis milhões de foliões na rua. E nada disso funcionaria no improviso: cidade grande precisa de ambulância, de banheiro químico, de guarda no cruzamento. Organizar também é cuidar.
Mas ficou girando na minha cabeça uma frase do presidente da Riotur. Ele disse que o objetivo é uma festa mais organizada e estruturada, "preservando a espontaneidade". Li três vezes. Preservar espontaneidade com formulário e cronograma é como engarrafar vento.
Esta cidade já brincou de tantos jeitos. Teve entrudo, rancho, cordão, Zé Pereira, corso de automóvel na Beira-Mar. Teve banho de mar à fantasia, gente entrando na água vestida de pierrô. Quase tudo isso morreu.
E o que sobreviveu quase sempre sobreviveu contra alguma coisa. Em 1943, no Engenho de Dentro, nasceu o Chave de Ouro. Os foliões presos durante a folia só eram soltos na quarta-feira de cinzas, quando qualquer desfile estava proibido. Saíam da cadeia e iam para a rua fechar o carnaval com chave de ouro. Foi assim por décadas, apanhando. Nos anos 1970 a polícia liberou o bloco e passou a proteger o desfile. Há quem diga que foi aí que ele perdeu a graça.
A Banda de Ipanema saiu em 1965, criada por gente que depois faria O Pasquim, no primeiro ano da ditadura. O Suvaco do Cristo, em 1985, foi proibido de usar o próprio nome, acusado de ofender símbolo religioso. Virou "ex-Suvaco do Cristo" no papel e seguiu Suvaco do Cristo na boca do povo, que é onde essas coisas se decidem. No mesmo ano estreou o Simpatia É Quase Amor, fundado por gente das Diretas Já, muita dela vinda da Fladiretas.
Nenhum deles pediu licença. Nenhum deles tinha patrocinador.
A prefeitura calcula que o carnaval de 2026 movimentou 5,9 bilhões de reais na economia da cidade e rendeu 240 milhões em ISS. E em 2027 a rua começa a brincar já em 16 de janeiro, um mês antes do carnaval. Ninguém antecipa a data de uma coisa espontânea.
Muitos dos grandes blocos de hoje são empresas. Têm CNPJ, planilha, meta, patrocinador. Não vou fingir escândalo: vivemos no capitalismo, e essa cadeia sustenta gente, principalmente músicos, que passaram boa parte da vida tocando de graça. É legítimo. O problema não é esse.
O problema é que a mercantilização não anda de braços dados com a espontaneidade e a capacidade criativa do povo carioca quando o assunto é carnaval.
Observo a festa desde 1982 e trabalho nele como jornalista desde 1990. Já vi esse filme com as escolas de samba. Quando a festa vira produto, a criação vira briefing. Onde há patrocínio, há contrato. Onde há contrato, há cláusula. E ninguém nunca produziu uma festa verdadeira na sua essência lendo ou cumprindo cláusula.
A prova estará na mesma rua. Ao lado dos autorizados, sairão dezenas de blocos sem carimbo nenhum, ilegais, de bateria improvisada e fantasia feita em casa. E é ali, quase sempre, que o carnaval acontece.
Digo isso com tristeza, não com desesperança. O Chave de Ouro e o Simpatia nasceram do nada, por pura vontade de brincar. O povo daqui tem a mania de reinventar a festa quando ela começa a ficar sem graça. Vai acontecer de novo. Não sei em que formato nem quando. Mas vai.
Como bom folião que sou, confio. A criatividade do carioca é a única coisa por aqui que nunca precisou de autorização.
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