54° Festival de Gramado

'Justino': Gramado diz Amém à homilia autoral de José Eduardo Belmonte

'Justino': Gramado diz Amém à homilia autoral de José Eduardo Belmonte
Um clérigo cheio das falcatruas (Bruno Garcia) tenta abusar da fé do aspirante a pregador religioso Justino (Christian Malheiros) no novo longa-metragem do diretor de "Gorila" Crédito: Divulgação

Após publicar “Temor e Tremor” (1843), o maior tratado sobre provações já escrito, o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855) pôs em palavras um imperativo categórico dos afetos que pavimenta o febril “Justino – Nos Bastidores do Reino”, em concurso em Gramado: “Com efeito, a fé tem duas tarefas: vigiar e descobrir a cada momento a improbabilidade, o paradoxo, para então, com a paixão da interioridade, permanecer firme. Onde o entendimento desespera, lá está a fé”. A pertinência dessa fala, no contexto de um longa-metragem capaz de aliar arrojo técnico (para além da média de seus concorrentes) com frontalidade discursiva no trato (à moda “papo reto”) com a plateia, decorre de sua reflexão sobre o ônus - e também o bônus - inerente ao verbo crer. Desde “Se Nada Mais Der Certo” (troféu Redentor de Melhor Filme no Festival do Rio de 2008), José Eduardo Belmonte vem conjugando crenças, diversas (embora sem nunca esquecer do Cristo bíblico), num cinema de calvários, aparentado ao de Rossellini, só que mais rascante do que o do mestre italiano. No neorrealismo rosselliniano, os adjetivos são raros e ralos; em Belmonte, não: muita coisa é doída, esbaforida, niilista, embora existam zonas de exceção, onde a esperança sobrevive. Nesse seu novo trabalho, o realizador de “A Concepção” (2005), um dos artistas dos mais prolíficos do país, dá nome à redenção, e não é um nome das Sagradas Escrituras: Danuza (Onna Silva). Seu corpo trans (descrito como travesti no eixo da trama que se passa nos anos 1990) é o Cordeiro que tira os pecados da antipatia ao imolar seu tempo e seu esforço em prol da empatia.

Danuza, batizada em tributo à modelo e colunista Danuza Leão (1933-2022), é “A” personagem deste Festival de Gramado, sem ter rival alguma(e) que chegue a seus pés. Custa a entrar, mas, ao aparecer, Onna tomou o Palácio dos Festivais para si, modulando a história real do escritor e evangelizador Mario Justino (interpretado com tripas à mostra por Christian Malheiros) sob os vetores do alumbramento. Tem uma sequência de stand-up com ela, em Nova York, de lavar a alma, numa performance que só uma diva como Suzy Brasil faria igual.
Danuza é um sopro do Altíssimo na trama decalcada do livro de memórias (muito censurado) do próprio Justino, comprovando um outro aforisma de Kierkegaard: “?Deus não pensa; ele cria. Ele não existe; ele é eterno.” Sua chegada se dá num eixo decisivo do biopic dramático estruturado por Belmonte como se fosse um thriller. Em sua genealogia, formalmente, ele parece o sucesso de bilheteria “Rheingold: O Roubo do Sucesso” (2012), de Fatih Akin, embora evoca um pouco de “Il Divo”, de Paolo Sorrentino (Prêmio do Júri em Cannes, em 2008), com seu frenesi. Tem ainda algo do Antes do Anoitecer” (2000), de Julian Schnabel, sobretudo no plano sanguíneo de um homem que pactuou com uma seita metida a ser Igreja a fim de transcender os grilhões do determinismo. A referência das referências em jogo é “Entre Deus E O Pecado (“Elmer Gantry”, 1960), de Richard Brooks (1912-1992). A partir da prosa de Sinclair Lewis (o primeiro Prêmio Nobel de Literatura dos EUA), Burt Lancaster construiu uma interpretação genial, laureada com o Oscar, no papel de um caixeiro viajante que se torna pregador a partir de sua retórica sedutora, capaz de cativar até a reticente irmã Sharon (Jean Simmons). Garcia Neto dublou Lancaster genialmente entre nós, numa versão que entrou até na Prime Video da Amazon. O Justino de Malheiros fala como Gantry em seus sermões. É um Silvio Santos da eucaristia.
Na periferia do Rio de Janeiro no início da década de 1980, Justino encontra em uma poderosa Igreja neopentecostal a chance de sair da pobreza e mudar de vida. Em sua rápida ascensão, no êxito como pastor, os desejos reprimidos serão âncoras em sua andança, antes de tropeçar nu torvelinho de segredos em volta de seus clérigos. Um Caio Blat assustador (parecido com o General Zod, de Terence Stamp) é o mais perigoso desses pregadores, numa mistura de Jimmy Swaggart com Edir Macedo. Cercam-no pastores de índoles diferentes, vividos por Bruno Garcia e (pelo sempre infalível) Gustavo Vaz.
Quinze anos depois de passar do Céu ao Umbral, na Fogueira Santa de Israel às ruas mais miseráveis dos EUA, numa cruzada pelo mundo, Justino se arrisca a acertar as contas com o seu passado, numa linha revanchista comum a vários longas de Belmonte. “Meu Mundo Em Perigo” (2007) é a raia de largada dessa sua análise de revanches possíveis, debruçado sobre pessoas (quase sempre homens alquebrados) em busca de um meio de fugir de suas bolhas existenciais (ou geográficas). A bolha de Justino é o ódio.
Belmonte é um cineasta que já filmou de tudo, do thriller de ação (“Carcereiros”) à love story (“Entre Idas e Vindas”), com direito a uma comédia noir — o genial “Gorila” (2012). Toda a sua obra em longas-metragens, erigida a partir de “Subterrâneos” (2003), assenta-se em almas no purgatório de si próprias, sedentas de reinvenção. O diretor afirma-se autoral nesse interesse continuado por subjetividades alquebradas. Faz filmes sobre gente de espírito fraturado que, em situações de risco, encontra uma felicidade provisória… ou clandestina. E há ainda a assinatura própria nos seus enquadramentos, sobretudo nos planos mais fechados, bem delineados em “Justino” à luz da direção de fotografia de Leslie Monteiro.

Reiterando seus engramas de autor, ele galga mais maturidade estilística filme após filme e entrega a Gramado o que talvez seja sua artesania mais bem lapidada, na condução de elencos e na investigação das vulnerabilidades nossas de cada dia. Divide a montagem com André Finotti (o diabrete por trás da edição de “Honestino”), demarcando sua voz num Ctrl c + Ctrl V de planos que jamais se rende a burocracias e a algoritmos. É um filme que voa livre; por vezes, voa triste, mas inventaria as chagas sociais especialmente mais cruéis com o povo preto desta nação. Não por acaso, a cúpula de seu Vaticano postiço só tem brancos. É um culto sectário e corrupto. Culto para o qual nem o Elmer Gantry de Lancaster bateria cabeça. Assim é o nosso país. Que Deus nos proteja... E que um outro deus, o deus-sol dos Pampas, o Kikito, não se esqueça de Belmonte -e, em especial, de Onna. Destaque extra: a trilha sonora de Flávia Tygel, imune a lamúrias, sempre na clave que nos toca.