Correio da Manhã
Cultura

Jongo, história e ancestralidade riscadas no chão

5º Encontro de Jongos do Vale do Café celebra Mestra Fatinha e a memória que dança deta que é uma das mais longevas tradições quilombolas do RJ

Jongo, história e ancestralidade riscadas no chão
O jongo dançado em chão de terra batida é preservado em sua essência na região do Vale do Café, no Sul Fluminense Crédito: Karen Eppinghaus/Divulgação

Setenta anos da matriarca, 450 lideranças quilombolas, 18 comunidades — e um parque construído sobre ruínas de fazenda escravocrata que hoje abriga a celebração da ancestralidade. O parque das Ruínas de Pinheiral, no Sul Fluminense, é o cenário ideal para celebrar neste sábado (25) o Dia Estadual do Jongo. Esta dança de matriz angolana que o povo bantu trouxe consigo para as senzalas segue viva, pulsante e organizada. O 5º Encontro de Jongos do Vale do Café vai reunir cerca de 450 lideranças quilombolas de 18 comunidades dos estados do Rio e de São Paulo para uma comemoração em dose dupla: a data acima e os 70 anos de Mestra Fatinha, matriarca e gaurdiã do jongo.

O Parque das Ruínas foi um dia a sede de uma fazenda de café que chegou a concentrar mais de 3 mil pessoas escravizadas, uma página infeliz de nossa história. Hoje, o espaço é administrado pelo Jongo de Pinheiral — a mesma comunidade que descende daquelas pessoas. O mesmo chão de terra batida onde a população escravizada era explorada hoje floresce com a força da cultura popular num movimento de memória e reparação ecovada pelos pés descalços de seus descendentes ao ritmo do tambor.

Mestra Fatinha, aos 70 anos, é puro sorriso ao falar do evento. "Estou muito emocionada com essa homenagem! O Encontro de Jongos do Vale do Café foi criado para dar visibilidade ao nosso circuito de comunidades tradicionais negras do Vale do Café e aos projetos sociais e culturais que realizamos durante todo o ano nos nossos territórios", diz. "Eles buscam melhorar a vida dos nossos moradores por meio da cultura, da economia criativa e do turismo étnico", orgulha-se. De fato, os hotéis de Pinheiral e cidades vizinhas lotam durante o encontro, e o evento se consolida como um ativo real de desenvolvimento local.

Macaque in the trees
Mestra Fatinha, uma vida dedicada à preservação do jongo | Foto: Divulgação

Ao longo da vida, dentro e fora da sua comunidade, Mestra Fatinha se dedicou a um trabalho de preservação e difusão do jongo que atravessa fronteiras. Criou o Museu do Jongo — centro cultural dedicado ao ritmo —, levou a tradição para escolas e universidades e articula um movimento de comunidades jongueiras em todo o Sudeste. Em reconhecimento, recebeu da Universidade Federal Fluminense (UFF) o título de Notório Saber, honraria concedida a personalidades cujo conhecimento transcende a formação acadêmica formal. A universidade compreendeu teve a sabedoria de reconhecendo aquilo que as rodas de jongo sabem faz tempo: que o saber é também corpo, memória e tambor.

O jongo, também conhecido como caxambu, é uma dança de roda de matriz bantu, nascida na região do Congo e Angola. Chegou ao Brasil com os povos escravizados e floresceu nas senzalas e cafezais do Vale do Café — região que abrange municípios do interior do Rio e de São Paulo. Os tambores eram muito mais do que música: à noite, quando eram proibidos de conversar entre si, os escravizados utilizavam o jongo para comunicar acontecimentos do dia, planejar ações futuras e manter vivas suas tradições. O ponto cantado era mensagem cifrada, a roda era assembleia, o corpo era arquivo. Essa dupla função — celebração e resistência — fez do jongo uma das expressões mais potentes da cultura afro-brasileira.

Após a abolição, o jongo desceu a serra e chegou aos morros cariocas pelas mãos de famílias que ajudariam a fundar as futuras escolas de samba. No Morro da Serrinha, em Madureira, o Jongo da Serrinha — comandado por três gerações de mulheres negras — manteve acesa a chama. O coletivo tem hoje Deli Monteiro, neta da lendária Vovó Maria Joana, como uma de suas vozes. "No jongo, há muita representatividade feminina. As mulheres negras do Jongo da Serrinha honram sua ancestralidade e transmitem os saberes para as próximas gerações. Desde o tempo de minha avó Maria Joana, somos desbravadoras e tornamos esse grupo um espaço participativo, de fé e muita força", diz Deli. É por isso que o jongo é chamado de "pai do samba": sua estrutura de roda, seus pontos cantados e sua relação com a oralidade estão na raiz do que o samba se tornaria.

Macaque in the trees
Após a abolição, o jongo desceu a serra e chegou aos morros cariocas pelas mãos de famílias que ajudariam a fundar as futuras escolas de samba | Foto: Divulgação

Enquanto essa tradição se espalhava pela capital, outros núcleos familiares permaneceram no Vale do Café e formaram quilombos, onde o jongo se preservou em sua essência mais original. Em 2005, o ritmo foi registrado como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan — reconhecimento que completa 21 anos e que este encontro também celebra.

A programação deste sábdo começa cedo, às 9h30, com um cortejo afro que abre os trabalhos. Às 11h, a mesa de abertura reúne mestres jongueiros e autoridades dos governos federal, estadual e municipais em torno do tema "A Salvaguarda do Jongo e a Sustentabilidade dos Projetos Comunitários" — discussão urgente para comunidades que mantêm viva uma tradição centenária com recursos escassos e muita determinação. Depois da feijoada servida ao meio-dia, a tarde é das rodas: a partir das 15h, 18 comunidades apresentam seus jongos, num desfile de pontos, toques e gingados que segue até as 19h. Às 18h, a Bênção da Fogueira convida o público a entrar na roda — porque jongo não se assiste, se vive. O encerramento, às 19h, fica por conta da sambista carioca Margareth Mendes, a Negona do Axé, numa grande roda de samba.

No domingo (26), é a vez do sagrado. Dia de Sant'Ana e Dia Estadual do Jongo, a programação se desloca para a Casa do Jongo de Pinheiral, onde acontece a tradicional Procissão de Sant'Ana, seguida de ladainhas em homenagem à santa. A procissão é uma tradição local com mais de cem anos. Na Umbanda, Sant'Ana é sincretizada com as pretas-velhas — matriarcas, como Mestra Fatinha. A saída está marcada para as 18h, na Rua Bulhões de Carvalho, nº 5, no bairro Rolamão.

Entre as comunidades confirmadas estão quilombos e grupos de jongo de Pinheiral, Quilombo São José (Valença), Arrozal (Piraí), Barra do Piraí, Morro da Serrinha, Santo Antônio de Pádua, Porciúncula, Volta Redonda, Quissamã, Niterói, Guapimirim, Natividade e Magé, no Rio; e Indaiatuba, São José dos Campos, Campinas, Guaianases, Guaratinguetá, Taubaté e Piquete, em São Paulo. Uma verdadeira carta da geografia jongueira no sudeste.

O encontro é realizado pelo Jongo de Pinheiral, pela Rede de Jongo do Vale do Café, pelo Instituto Floresta, pela Rede de Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro e pelo Centro de Referência Afro do Sul Fluminense (CREASF), em parceria com a Prefeitura de Pinheiral, o Ministério da Igualdade Racial, o Ministério da Justiça (Pronasci) e o Museu Vassouras.

Serviço

5º Encontro de Jongos do Vale do Café
Sábado, 25 de julho, a partir das 9h
Parque das Ruínas de Pinheiral — Rua Francisco de Abreu, Pinheiral (RJ), próximo ao Instituto Federal
Entrada gratuita

Dia de Sant'Ana e Dia Estadual do Jongo — Procissão de Sant'Ana com ladainhas
Domingo, 26 de julho, às 18h
Casa do Jongo de Pinheiral — Rua Bulhões de Carvalho, nº 5, bairro Rolamão, Pinheiral (RJ)
Entrada gratuita