Entre o mar e a montanha, Paraty permanece com aquela atsmosfera do século XVIII: ruas de pedra irregular, casarões caiados, igrejas brancas recortadas contra a Serra da Bocaina. É neste cenário congelado no tempo que a literatura descortina, todo mês de julho, suas tendas e palcos com a Festa Literária Internacional de Paraty. Pelo segundo ano consecutivo, a Flip escolhe uma poeta como autora homenageada. Depois de Paulo Leminski (1944-1989), em 2025, chega a vez de Orides Fontela (1940-1998), voz singular da literatura brasileira que Antonio Candido chamava de "nosso Rimbaud". A 24ª edição acontece de 22 a 26 de julho, no Centro Histórico da cidade, com curadoria literária de Rita Palmeira e 21 mesas de debate cujos nomes são trechos de poemas de Orides.
Nascida na pequena São João da Boa Vista (SP), filha de um marceneiro e de uma dona de casa, Orides Fontela viveu entre o reconhecimento da crítica e a pobreza extrema. Venceu o Prêmio Jabuti de Poesia em 1983 com Alba — livro prefaciado por Antonio Candido — e o Prêmio APCA em 1996, com "Teia". Sua obra, que inclui ainda "Transposição" (1969), "Helianto" (1973) e "Rosácea" (1986), é marcada por poemas curtos, despojados de ornamento, influenciados pelo zen-budismo e pela filosofia. Os poemas foram traduzidos para o inglês, o francês e o catalão. A editora Hedra relançou suas obras completas.
Rita Palmeira considera Orides "uma das maiores poetas brasileiras da segunda metade do século 20", o que diz ser a principal de "inúmeras" razões para a escolha. A intenção, segundo ela, foi propor um enfoque na produção poética de Orides — ofuscada no passado por aspectos biográficos, como a pobreza, e a precária condição social, mesmo após ser laureada com prêmios importantes. "Homenageá-la é um movimento oposto a esse, é tentar fazer com que a sua obra apareça e seja o centro das discussões quando se fala na Orides Fontela", afirmou em entrevista à CBN.
Rita chega à curadoria após atuar como mediadora de mesas do Programa Principal desde 2017. Doutora em Literatura Brasileira pela USP e mestre em Teoria Literária pela Unicamp, foi editora-executiva da revista Novos Estudos Cebrap e editora-assistente do selo Três Estrelas. Criou a Livraria Megafauna, em São Paulo, e apresenta o podcast Livros no Centro. "Foi uma alegria e uma honra, mas não exatamente uma surpresa, porque tenho uma relação longa com a Flip", disse ao PublishNews ao ser anunciada, em setembro de 2025. "A curadoria deve ser feita escutando muita gente — a equipe da Flip, o conselho, antigas curadoras e curadores, as editoras e os leitores, e sempre com atenção ao que vem sendo produzido aqui e fora daqui", defende.
Para Mauro Munhoz, diretor artístico e um dos criadores da Flip, o convite a Rita "consolida sua parceria profissional com a Flip, que começou por meio de mediações instigantes e inspiradoras entre alguns dos nomes mais relevantes da literatura contemporânea".
Uma parte significativa dos autores da programação convida seus leitores a pensar a casa — metáfora que se estende à família ou à nação — como um território instável. Vários convidados mantêm relação ambígua com seus lares: ora estão, ora não estão em seus países de origem; não vivem com segurança em suas casas e se afastam, por coerção ou por escolha, em decorrência de deslocamentos internos ou externos. O conceito se estende à homenageada: Orides enfrentou precariedade material tão intensa que chegou a ficar sem moradia, no sentido literal. "Reunir autores que escrevem a partir da instabilidade, em suas diferentes dimensões, é certamente honrar a memória de Fontela e de sua poesia", reforça a curadora.
A programação principal, realizada no Auditório da Matriz, reflete esse eixo. Guerras, migrações forçadas, conflitos geracionais e identitários e a crise das democracias atravessam as conversas — sem abandonar a dimensão pessoal dos autores. A literatura brasileira de autoria feminina, tanto em prosa quanto em poesia, também tem lugar de destaque, com escritoras como Andréa del Fuego, Paulliny Tort, Bethânia Pires Amaro, Mateus Baldi e Paloma Vidal. Cada uma das 21 mesas recebe o nome de um verso de Orides, costurando a homenageada ao tecido dos debates. Uma novidade estrutural: em 2026, há três mesas no domingo (10h, 12h e 15h30), enquanto sexta e sábado terminam às 19h.
Entre os internacionais, destaque para a britânica Zadie Smith, que sobe ao palco no sábado (25), às 19h, para discutir colonialismo, imigração e racismo em sua obra. O franco-argelino Kamel Daoud, vencedor do Goncourt 2024, divide mesa com a luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida para falar sobre luto, esquecimento e dever de memória. O ucraniano Andrei Kurkov e a canadense de origem ucraniana Maria Reva abordam a guerra a partir da ficção — ele em diários, ela em romance engenhoso e bem-humorado. O líbio-britânico Hisham Matar, cujo pai foi sequestrado pelo regime de Gaddafi quando ele tinha 19 anos, encontra o brasileiro Milton Hatoum, que em sua recente trilogia narra o desaparecimento de uma mãe durante a ditadura militar brasileira. Uma conversa entre dois escritores premiados sobre memória e literatura, política e ficção, escrita e liberdade.
O debate político também entra pela programação. A ministra do STF Cármen Lúcia apresenta o livro "Pela Mão do Povo — Democracia e Voto no Brasil" e discute os ataques recentes à democracia brasileira na sexta (24), às 13h30.
No mesmo dia, às 12h, o crítico João Cezar de Castro Rocha e o psicanalista Paulo Schiller debatem autoritarismo e ascensão da extrema direita. O médico e escritor Drauzio Varella conversa com a alemã Carmen Stephan — que escreveu um romance sobre a malária narrado pelo mosquito transmissor — sobre doenças tropicais, medicina, vida e morte. Varella é autor de "O Médico Doente", relato de quando contraiu febre amarela e esteve à beira da morte.
Eventos paralelos
A Casa Sesc, programa paralelo no centro histórico de 23 a 26 de julho, traz um nome de peso: a filósofa e ativista norte-americana Angela Davis, de 82 anos, na FLIP pela primeira vez. Sua mesa, "América e África: uma conversa Atlântica", reunirá Davis e o Nobel nigeriano Wole Soyinka, com mediação da jornalista Flávia Oliveira, no sábado (25), às 18h. A procura foi tão alta que a conversa, antes prevista para a Casa Sesc, foi transferida para uma tenda montada no Sesc Caboré, com capacidade para 700 pessoas. O encontro propõe reflexões sobre liberdade, literatura, pensamento crítico e as conexões históricas e culturais entre África e Américas.
A Casa Sesc, guiada pelo conceito "Veredas" — em alusão aos 80 anos do Sesc e aos 70 anos de publicação de "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa —, ocupa três espaços no Centro Histórico (Sesc Santa Rita, Casa Sesc e Casa Edições Sesc) com programação gratuita que inclui mesas, shows, exposição, performances poéticas e oficinas. Entre os convidados estão Ana Maria Gonçalves, Socorro Acioli, Cidinha da Silva, Muniz Sodré e Itamar Vieira Junior, além de shows de Chico César e Anelis Assumpção e performance poética de Arnaldo Antunes. A exposição "Há 80 anos, somos feitos de Histórias" ocupa o Sesc Santa Rita com fotografias históricas e registros contemporâneos da trajetória da instituição.
No campo literário, a angolana Ana Paula Tavares, vencedora do Prêmio Camões 2025, ocupa mesa no sábado para falar de sua trajetória poética marcada pela história de Angola e pela emancipação feminina. A franco-mauriciana Nathacha Appanah, vencedora do Femina 2025, e a brasileira Bethânia Pires Amaro, Jabuti de Contos 2024, conversam sobre protagonistas mulheres e as violências a que são submetidas. A catalã Eva Baltasar, autora de uma vertiginosa trilogia sobre a maternidade, encontra a amazonense Susy Freitas, autora do romance No baile do juízo final. A italiana Andrea Bajani, as estadunidenses Katie Kitamura e Marta Pérez-Carbonell e o guatemalteco Eduardo Halfon compõem um elenco internacional que dialoga com autores brasileiros como Andréa del Fuego e Paloma Vidal. A atriz Denise Stoklos fecha a quinta-feira com a estreia de espetáculo inspirado em Dalton Trevisan, com direção de Alessandra Maestrini.
Além das 21 mesas do Programa Principal, mais de 600 atividades se espalham pelas ruas de Paraty, reunindo 35 parceiros. A Praça Aberta, na margem do rio Perequê-açu, recebe 202 autores independentes e coletivos locais e 22 mesas no Auditório do Areal. O Programa de Casas Parceiras, com mais de uma década, abre ao público residências privadas do Centro Histórico que normalmente permanecem fechadas. Há ainda a Flip Cinema da Praça, com sessões gratuitas diárias; a Flip Motiva, que em 2025 levou transporte gratuito a moradores de 23 comunidades e neste ano traz nove mesas literárias; a Leitura na Praça, no gramado da Igreja de Santa Rita, com troca de livros entre o público; e a Flip Casa da Arquitetura, parceria com Matosinhos (Portugal). Na noite de sexta, o Palco da Praça recebe o Foro de Teresina, com os jornalistas Fernando de Barros e Silva e Ana Clara Costa e o sociólogo Celso Rocha de Barros, em parceria com a revista Piauí. A 20ª Regata INP, com embarcações de crianças pela baía de Paraty, celebra a cultura náutica local. A Casa da Cultura, em casarão de 1754, abriga programação especial em homenagem a Orides Fontela, desenvolvida em parceria com a Hedra.
O eixo curatorial também perpassa as mesas paralelas. Na Casa Urutau, espaço parceiro da Flip no Centro Histórico, a mesa "Estado de criação: autoria, deslocamento e alteridade" reúne, na sexta (24), às 14h30, Jessica Paola, Ana Helena Amarante, Fernanda Hamann e Lua Negrão. "A alteridade na minha obra aparece principalmente na forma como as vozes dos contos nunca são totalmente fixas ou centradas em um único ponto de vista", define Jessica Paola, autora de "Meu Nome é um Lugar Longe (Editora Urutau, selo Hecatombe). "As personagens são atravessadas por deslocamentos, de linguagem, de território e de identidade, e muitas vezes só conseguem se reconhecer a partir do olhar do outro
A relevância desta edição está no equilíbrio entre o gesto poético e o diagnóstico do presente. Ao eleger Orides Fontela — uma autora que viveu à margem do sistema literário apesar do reconhecimento da crítica —, a FLIP 2026 faz um contraponto ao barulho do mercado e reafirma a palavra como espaço de resistência.
Reconhecida como Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial da cidade de Paraty e do Estado do Rio de Janeiro, a FLIP teve em 2024 seu plano plurianual aprovado pelo Ministério da Cultura, garantindo captação via Lei de Incentivo à Cultura até 2027. Todas as mesas do Programa Principal contam com interpretação em Libras, audiodescrição e tradução simultânea.
Dez por cento dos ingressos de cada mesa são distribuídos gratuitamente e outros 20% vendidos a preços populares para a comunidade paratiense. Pelo segundo ano, a Festa neutraliza sua pegada de carbono em parceria com o conglomerado Tereos. A linha ReCria Flip transforma peças de arquitetura de edições anteriores em anéis de leitura e porta-livros impermeáveis.
SERVIÇO
24ª FLIP — FESTA LITERÁRIA DE PARATY | De 22 a 26/7
Auditório da Matriz, Centro Histórico de Paraty (RJ)
Transmissão gratuita: Palco da Praça (Praça Aberta), Casa Patrimônio (Largo da Santa Rita), site e YouTube da Flip, canal Arte1
Ingressos: Lote 1 — R$ 50 e R$ 25 (meia); Lote 2 — R$ 140 e R$ 70 (meia)
Vendas em flip.fcticket.com.br
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