Correio da Manhã
SÓ CARIOQUICES

História e tradição da cidade resumidas num sorriso

História e tradição da cidade resumidas num sorriso

Seu Danilo vende acarajé na calçada da Rua Riachuelo, ali perto do Bairro de Fátima. Não é ponto turístico. É calçada do Centro, com o barulho de sempre, o ônibus passando, a cidade fazendo o que a cidade faz.

Mas quem passa por ele sai melhor do que chegou. Ele tem um sorriso que não cobra nada. Serve o bolinho do mesmo jeito que se recebe uma notícia boa.

Demorei para entender o que me emocionava naquilo. Não era o dendê. Era perceber que o tabuleiro dele carregava a cultura de uma cidade que insiste em não abandonar as suas tradições.

A Riachuelo não se chamava Riachuelo. Era a Rua de Matacavalos, nome que vinha dos atoleiros que arrebentavam com os animais na travessia. Foi ali que Machado de Assis instalou a casa de Bentinho e de Capitu. Só depois da batalha naval de 1865, contra o Paraguai, é que a rua trocou de nome e ganhou ares de vitória.

Era rua de gente rica do Império. E na frente dessas casas passavam os tabuleiros. As chamadas negras de tabuleiro aparecem em documentos brasileiros desde 1591: a referência é do historiador Luiz Mott. No fim do século XVIII, o Rio de Janeiro tinha 322 registros de barracas e vendas de quitandeiras, contra 196 tavernas e 140 mercadores de fazendas, panos e sedas. O levantamento é do antropólogo Fernando Vieira de Freitas. Ou seja: enquanto a Corte se ocupava de seda, a cidade comia da mão de mulheres negras.

Muitas eram escravizadas de ganho. Entregavam aos proprietários quase tudo o que faturavam, e ficavam com o restante. Com esse resto, compraram alforrias. A própria, a dos filhos, a de quem estivesse por perto. É possivelmente a coisa mais bonita que alguém já fez com um troco.

Nunca foi em paz. As quitandeiras eram acusadas de sujeira, de desordem, de atravancar a passagem. As palavras eram exatamente essas. Atravessaram a Colônia, o Império, a República e as sucessivas ondas de modernização da cidade na sua busca incessante de sepultar as tradições da cidade.

Uma dessas mulheres chegou ao Rio em 1876, vinda de Santo Amaro da Purificação, com 22 anos e uma filha. Hilária Batista de Almeida. Montou tabuleiro no Centro, vestida de baiana, filha de Oxum, num tempo em que candomblé era caso de polícia. O Brasil viria a conhecê-la como Tia Ciata.

Da casa dela, na Visconde de Itaúna, ao lado da Praça Onze, saiu "Pelo Telefone", de Donga, registrado em 1916 como o primeiro samba. Ciata sempre disse que aquilo não tinha dono, que era criação coletiva. Tinha razão, e ninguém ouviu. Repare no detalhe: o samba nasceu do lado de um tabuleiro.

Em 2023, o Rio sancionou a Lei 10.157, que declara a produção e a venda de acarajé patrimônio de valor histórico e cultural do estado. Teve baiano enciumado com a Lei. Acusaram-nos de apropriação cultural. Mas a lei não estava tomando nada de ninguém. Estava reconhecendo, com uns quatro séculos de atraso, uma coisa que já estava na calçada, à vista de todos.

Porque é isso que o Rio faz. Perde tudo, mas insiste em guardar algo de valor. Derrubaram o Morro do Castelo inteiro. Derrubaram a Praça Onze para abrir uma avenida. E mesmo assim, numa calçada da Riachuelo, existe um homem fritando feijão-fradinho no dendê, a receita que atravessou o Atlântico no pior navio do mundo e chegou aqui inteira. Não sobrou muito do Rio antigo. Sobrou o suficiente.

Da próxima vez que você descer a Riachuelo, para. Come um. Dê boa noite ao seu Danilo. Você vai estar cumprimentando muito mais gente do que imagina.