Correio da Manhã
SÓ CARIOQUICES

SÓ CARIOQUICES: A louvação ao padim do asfalto (ou a teologia da mão estendida)

SÓ CARIOQUICES: A louvação ao padim do asfalto (ou a teologia da mão estendida)
Imagem do culto a Zé Pelintra na Lapa (gerada por IA) Crédito: Imagem gerada com a IA GPP Image 2

Segunda-feira, 7 de julho, a Lapa atravessou o dia com mais gente do que de costume.

Foi o Dia de Zé Pelintra - sétimo dia do sétimo mês, número que na umbanda não é um mero acaso. Aos pés dos Arcos, no santuário que leva o nome dele, os devotos foram chegando com velas, cerveja, cigarros e aquele cumprimento que só o carioca sabe dar: chapéu de lado, sorriso esperto e uma reverência que vale por uma reza.

Fiquei ali um tempo, olhando. E me veio uma certeza meio teimosa.

Ainda hei de ver, no Rio, uma romaria para Seu Zé do tamanho da que sobe a Colina do Horto atrás do Padre Cícero. Juazeiro do Norte, no Cariri, é hoje o segundo maior destino de romeiros do Brasil - só perde para Aparecida. São mais de dois milhões de pessoas por ano atravessando o sertão para tocar no túmulo de um padre que a própria Igreja passou um século sem querer.

Reparem na simetria. Padre Cícero morreu num vinte de julho e virou santo sem licença de Roma. Zé Pelintra nunca precisou de licença de ninguém. Um é o padim do sertão; o outro, digamos assim, é o padim do asfalto. A mesma fé teimosa, feita pelo povo, à revelia de quem manda.

E não é acaso que os dois venham do mesmo chão. Zé Pelintra nasceu no Catimbó, na Jurema do sertão nordestino, antes de descer para a boemia da Lapa e trocar a caatinga pelo botequim. Padre Cícero fez o caminho de dentro: ficou no Cariri e puxou o sertão inteiro para perto. Um desceu, o outro ficou. Os dois viraram guia de quem não tinha para onde ir.

Só que sobre Seu Zé pesa um mal-entendido antigo.

Durante décadas, empurraram a malandragem para o lado de lá - a da contravenção, do sujeito que leva vantagem. Uma caricatura conveniente. Deu samba, deu novela, deu manchete. Mas não deu conta do essencial.

Porque o malandro de verdade - o que Seu Zé representa - é outro.

É o que empresta o trocado no fim do mês. O que escuta o aflito no balcão do bar às três da manhã. O que arruma um bico pro rapaz que saiu da cadeia e ninguém quis. O que chega de fininho e diz "deixa comigo" quando todo mundo já virou as costas.

Malandragem, no fundo, é uma teologia da mão estendida.

Antonio Candido percebeu isso quando escreveu sobre o malandro como um dos personagens que o Brasil inventou para si - não o herói de espada, mas o que sobrevive pela ginga e, no melhor dos casos, protege os seus. Chico Buarque fez ópera com ele. Itamar Assumpção botou Zé Pelintra pra dançar no meio do povo. Faltou dizer, com todas as letras, a parte religiosa: ser bom malandro é ser solidário. É ser amigo. É não evitar que o outro caia.

Isso quase ninguém conta. E é preciso contar. Ele contou pra mim. E eu divido com vocês

Saí do santuário pensando que talvez a fé mais honesta que restou nesta cidade seja essa - a que não promete o céu, mas garante que, aqui embaixo, você não vai ficar desamparado.

Se um dia a romaria acontecer, e eu ainda hei de ver, não vai ser pela santidade de Seu Zé. Vai ser porque, num país que aprendeu a virar as costas com elegância, sobrou um enridade de terno branco e chapéu panamá disposta a estender a mão a quem tropeça.

E isso, pode acreditar, é o verdadeiro significado do que é sagrado.

Salve a Malandragem!