cORREIO político

Lula manda recado ao mercado de que não aceita ser comandado

Lula manda recado ao mercado de que não aceita ser comandado
Lula comandando greve dos metalúrgicos em 1979 Crédito: Instituto Lula

Se tem uma coisa que o presidente Lula não aceita, como ex-sindicalista, é parecer uma marionete da turma do andar de cima. Em outras palavras: da Faria Lima e do mercado.

Sua reunião desta quinta-feira (5), com integrantes da área econômica do governo e conselheiros sobre temas econômicos deixou a turma do andar de cima de orelha em pé.

Estavam presentes o vice-presidente Geraldo Alckmin, quatro ministros e o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante. De fora do governo, O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, o ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho, a economista Laura Carvalho e o ex-sócio do Banco Pactual Eduardo Moreira, apresentador do programa jornalístico independente ICL Notícias.

Desse grupo todo, Fernando Haddad e Alckmin são considerados os menos heterodoxos. Para desespero da Faria Lima.


Recados até nas ausências

Recados até nas ausências
André Lara Resende elaborou proposta que divide opiniões Crédito: Antonio Scarpinetti/Divulgação/Unicamp

Também foram entendidos como recados do presidente os nomes que não participaram da reunião.

O primeiro deles, o economista e banqueiro André Lara Resende, um dos pais do Plano Real. Ele está com uma proposta apoiada por nomes de peso no governo.

Os outros dois são apoiados pela Faria Lima: o governador do Piauí, Rafael Fonteles, e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Lula estaria dizendo que não aceita lobbies, nem de dentro, nem de fora do governo.


Plano Lara Resende é o pomo da discórdia

Em 25 de setembro Lara Resende publicou um artigo intitulado "Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos" que causou alvoroço entre os ortodoxos do mercado. O Banco Central anunciaria a redução gradual da Selic por 12 meses até 7,5%, e um Conselho Fiscal e Monetário fixaria metas de quatro ou cinco anos para a inflação e para um crescimento da economia de cerca de 5,5%. O apoio de governistas deixou o mercado em pânico.

Galípolo traidor

O presidente do Banco Central é considerado por Lula como a sua grande decepção. Ele era uma espécie de menino de ouro indicado pessoalmente pelo presidente para a equipe do então ministro Fernando Haddad. Também foi levado por Lula para o Banco Central com a missão de baixar a taxa de juros. Dizia até apoiar as ideias de Lara Resende. Hoje, segundo Lula, se bandeou para o outro lado da trincheira.

Chefe dos heterodoxos

Presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante é considerado o principal adversário dentro do governo das teses ortodoxas na economia.

Lula o tem em alta conta e avalia que o BNDES cumpre com maestria o papel de incentivar a produção no país.

Guido Mantega

Foi assessor de Lula durante a campanha eleitoral para o primeiro governo do petista. Assumiu como ministro da Fazenda no lugar de Antônio Palocci, no primeiro mandato de Lula e continuou no governo Dilma. Adotou um conjunto de medidas chamadas de Nova matriz econômica e apontadas depois como causa da crise de 2014.

Guru de Lula

Luciano Coutinho foi também presidente do BNDES entre 2007 e 2016. PhD em Economia pela Universidade Cornell (EUA), assim como Mercadante é considerado um dos principais adversários dentro do governo das teses ortodoxas na economia. Economista bastante respeitado, é um dos conselheiros mais próximos do presidente Lula.

Banqueiro de esquerda

Eduardo Moreira é uma figura eclética. Empresário, engenheiro, palestrante, escritor, dramaturgo, apresentador de programa de notícias na internet e ex-banqueiro de investimentos, foi sócio responsável pela área de Tesouraria para América Latina do Banco Pactual. É também um defensor do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.

Formuladora para o PSol

Ex-colunista do jornal Folha de S.Paulo e do Nexo, Laura Carvalho é outra heterodoxa. Livre-docente da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), ela participou em 2018 da formulação inicial das propostas econômicas de Guilherme Boulos, então pré-candidato a presidente pelo PSOL.

Alckmin deslocado

Geraldo Alckmin foi parar num partido de esquerda, o PSB, por descaminhos do destino. Ele não é de esquerda, não é petista, não é economista, não é heterodoxo, nem nada disso. Estava deslocado numa reunião repleta de economistas heterodoxos esquerdistas. Talvez por issso seja um nome bem aceito no mercado para ministro da Economia.