Provocada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) enviou a seguinte explicação sobre o fato de a polícia ter encontrado uma arma sua no carro de um militar do Gabinete de Segurança Institucional (GSI):
"As medicações psiquiátricas que vinham sendo ministradas ao peticionário [Jair Bolsonaro], capazes de afetar sua cognição — e que, inclusive, foram determinantes no episódio do rompimento da tornozeleira eletrônica —, levaram sua equipe de segurança, sem seu conhecimento prévio, a retirar o percussor da arma, tornando-a inoperante."
É uma explicação no mínimo estranha. Se Bolsonaro está sob efeito de medicações psiquiátricas "capazes de afetar sua cognição". Ele não devia estar mexendo numa arma de fogo. Os próprios advogados dão a entender que foi por estar sob efeito de medicamentos assim que ele resolveu adulterar a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda.
Então fizeram bem os seguranças em retirar a tal peça da arma. Para quem não sabe, um percussor (também chamado de percutor ou agulha) é uma peça mecânica essencial abrigada pelo ferrolho móvel na parte superior da pistola Glock 9 mm, que é puxado para causar a detonação.
Segundo a defesa, o ex-presidente não sabia da retirada da peça e, por isso, o sargento do Exército Estácio Leite da Silva Filho, que atua na sua segurança pessoal (ex-chefes de stado têm direito a quatro seguranças pessoais}, estava levando a pistola para o conserto quando foi detido numa blitz.
Bolsonaro, ainda segundo a defesa, notou que a arma não funcionava "pelo simples acionamento do ferrolho e sem qualquer necessidade de disparo".
Aqui vale perguntar novamente: por que Bolsonaro acionou o ferrolho? Um argumento usado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro para convencer Alexandre de Moraes a permitir a prisão domiciliar foi o de que, em casa, ele teria sempre alguém a vigiá-lo.
Digamos que os tais medicamentos tivessem causando algum distúrbio – como, segundo os advogados, pode ter ocorrido no caso da tornozeleira –, então era o caso de ter alguém ao lado do ex-presidente, vigiando-o.
Mas digamos que os medicamentos não causaram qualquer distúrbio. Vale, então, perguntar novamente: por que ele puxou o ferrolho?
Os advogados argumentaram ao STF que a manipulação da arma não teve "qualquer relação com a proximidade do término do período de prisão domiciliar humanitária".
Aí eles tentam responder a uma pergunta explicitada por Alexandre de Moraes: há relação entre o conserto da arma e a proximidade do fim do período de prisão domiciliar, nesta quinta-feira, 25? É uma pergunta interessante, essa deixada no ar pelo relator do processo que condenou Bolsonaro: o que ele queria fazer fazer com a pistola?
Tudo indica que ficaremos sem resposta. Mas há uma pergunta que Moraes terá que, ele próprio, responder: pode Bolsonaro manipular armas estando sob risco de "confusão cognitiva"?
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