"O Centrão sabe para onde sopra o vento", diz cientista político
14 de agosto de 202600:01POR
rudolfo lago
Lula e Alcolumbre se reaproximamCrédito: José Cruz/Agência Brasil
No início da semana, o presidente da Câmara, Hugo Motta, declara seu apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como presidente regional do Republicanos, também leva o partido a declarar esse apoio na Paraíba. No dia seguinte, Lula reúne-se com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, do União Brasil do Amapá. No mesmo dia, como num passe de mágica a pauta do Congresso, que estava travada desde antes do recesso de meio de ano, começa a andar e projetos já são aprovados. Não está ainda resolvida a pauta de maior interesse do governo: o fim da escala 6x1. Mas no mesmo dia o MDB declarou seu apoio a ela. Impossível não perceber uma conexão entre esses fatos. Os partidos do Centrão declararam neutralidade quanto à eleição presidencial. E, tirante a posição do Republicanos na Paraíba, mantêm o mesmo quanto à maioria das alianças estaduais.
"Indefinição que define tudo"
Motta declara apoio a LulaCrédito: Pedro Ladeira/Folhapress
Para o cientista político Isaac Jordão, a "indefinição" adotada pelos partidos do Centrão nas eleições presidenciais deste ano, na verdade, "define tudo". Por um lado, mais conservadores, tenderiam a ficar mais próximos da candidatura de Flávio Bolsonaro, do PL. Por outro, integram o governo Lula. Neutros parecem esperar o andar da carruagem para verem como se posicionar. Mas Jordão desconfiam , pelas últimas atitudes, que já sentiram para onde o vento vai soprar.
Questões regionais que extrapolam
Nos casos de Motta e Alcolumbre, questões regionais interferem nos comportamentos adotados. Mas, se em seguida a pauta do Congresso destrava, é sinal de que a coisa extrapola os interesses somente dos dois nos seus estados. Explica que situações semelhantes estejam também nos cálculos dos demais políticos do Centrão. Tanto no caso da Paraíba de Hugo Motta como no Amapá de Alcolumbre, o desenrolar do ambiente político e as situações de Lula e Flávio explicam as atitudes.
Mesmo sem apoio ao pai
Hugo Motta moveu o apoio do Republicanos para Lula mesmo sem obter do presidente o apoio ao nome do seu pai, Nabor Wanderley para o Senado. O PT lá apoiará para o Senado o ex-governador João Azevêdo (PSB) e Veneziano Vital do Rêgo. Mas Wanderley apoiará Lula. Curioso é que mais do Centrão se integra: o candidato que o PT apoiará ao governo é o governador Lucas Ribeiro (PP).
Liderança
Deve pesar nisso tudo a vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro entre os eleitores e a situação política. Apesar de toda essa convergência partidária em favor do presidente na Paraíba, há outros estados do Nordeste onde o favoritismo do petista é maior. A pesquisa mais recente, da Alfa Inteligência, mostrava Lula com 48% e Flávio com 41%.
Amapá
O Amapá de Alcolumbre, porém, mostra hoje uma situação de empate entre Lula e Flávio, com leve vantagem para Flávio. Segundo a última Real Time Big Data, Flávio tem 42% e Lula 40%. Tal situação deve ter feito Alcolumbre ensaiar o seu oposicionismo desde a derrota do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo.
Dr. Furlan
Há, no caso, porém, um fenômeno regional que converge os interesses de Alcolumbre e do líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), que tenta a reeleição. O nome desse fenômeno é Dr. Furlan (MDB), que venceu as eleições para prefeito de Macapá no primeiro turno e agora lidera as pesquisas para governador.
Alvo
Com problemas na Justiça, Furlan é o nome a ser batido. Alvo de investigações na Polícia Federal, Furlan é acusado de desvios na área da Saúde. Chegou a responder a processo na Justiça Eleitoral, mas tanto o TRE do Amapá quando o TSE mantiveram o seu mandato de prefeito, ao qual renunciou para concorrer ao governo.
Senado
Nos planos de Alcolumbre, está ainda a continuidade na presidência do Senado. Se Alcolumbre pensava, com seu ensaio oposicionista obter apoio para se reeleger no comando do Congresso no ano que vem, percebeu que por esse lado suas chances são bem remotas. A direita prefere ter outros nomes disputando o cargo com ele.
Teresa e Marinho
No anúncio do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como o vice de Flávio Bolsonaro, estavam lado a lado os dois nomes que a direita prefere: o coordenador da campanha do PL, Rogério Marinho (RN), e a senadora Teresa Crstina (PP-MS). Por esse lado, portanto, as chances de Alcolumbre são poucas. O que pode fazê-lo correr para os braços de Lula.
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