Cristovam sobre impeachment de Dilma: "Foi uma pisada na bola"
03 de agosto de 202600:03POR
rudolfo lago
Cristovam se arrepende de ter votado contra DilmaCrédito: Reprodução/Vídeo
Desde 2019, quando deixou o Senado, Cristovam Buarque não tem um cargo eletivo. Em 2018, pelo Cidadania, ele tentou se eleger senador, mas perdeu. As duas vagas ficaram para Leila do Vôlei (PDT) e Izalci Lucas (à época no PSDB, hoje no PL). A derrota em 2018 era um sinal. Cristovam tinha perdido suas bases originais de esquerda. As bases conservadoras também desconfiavam dele. Tentava se mostrar como um político independente, mas o espaço para isso num país polarizado é cada vez menor. Toda essa trajetória de Cristovam está diretamente relacionada ao seu comportamento de afastamento do PT, do qual foi filiado, especialmente no governo Dilma Rousseff. Cristovam votou a favor do impeachment de Dilma, e a esquerda do DF não parece perdoá-lo por isso. Dez anos depois do impeachment, Cristovam comete um sincericídio em entrevista exclusiva ao Correio Político.
"Me afastei de todas as bases"
Outros aliados de hoje também votaram pelo impeachmentCrédito: Marcos Oliveira/Agência Senado
"Foi uma pisada na bola", confessou Cristovam sobre seu voto a favor do impeachment de Dilma Rousseff. "Hoje, eu não faria isso", continua. "Me afastei de todas as bases que eu tinha. Eu perdi eleitores. Eu perdi leitores". Cristovam é escritor e colunista. "Muita gente me escreveu dizendo: 'Jamais volto a ler uma linha do que você escreve!" O ex-senador diz que suas netas, de cinco e nove anos, chegaram a ser perseguidas. Filiado agora ao PSB, Cristovam, aos 82 anos, é candidato a deputado federal.
De volta ao caminho
Cristovam busca reconquistar o antigo caminho. Diga-se que, após o impeachment, ele ainda senador deu votos favoráveis a projetos do governo Michel Temer, que sucedeu Dilma, que sua antiga base de esquerda também consideraria controversos, como a reforma trabalhista. Após a eleição de Jair Bolsonaro, o ex-senador tenta fazer o caminho de volta. No Cidadania, tentou levar o partido ao apoio da reeleição de Lula. Esbarrou na brigalhada ali com Roberto Freire. Migrou para o PSB.
Como será reação
Ex-senador, ex-governador do DF e ex-ministro da Educação, Cristovam parece curioso quanto a como agora a esquerda brasiliense e o eleitorado de modo geral irá considerá-lo. É o que pareceu revelar ao Correio Político diante de reações ainda agressivas a ele no campo petista. Ele busca se socorrer no "perdão" que parece ter sido dado a outros aliados de Lula que votaram pelo impeachment de Dilma Rousseff.
E os outros?
"Será que dizem isso de Alckmin, Simone Tebet, Marina, Renan?", provoca Cristovam Buarque. O hoje vice-presidente de Lula, Geraldo Alckmin, era à época governador de São Paulo pelo PSDB. E apoiou o afastamento da então presidente. Marina Silva recomendou que a Rede também votasse a favor do impeachment.
Lula
Então senadores como Cristovam, Simone Tebet (à época no MDB) e Renan Calheiros (MDB) também votaram "sim" no julgamento de Dilma. É possível que o alvo maior em Cristovam esteja relacionado à sua complicada relação com Lula durante o tempo em que foi ministro da Educação, razão talvez do início do seu afastamento do PT.
Pelo telefone
Cristovam foi demitido do Ministério da Educação pelo telefone. Estava em Portugal, onde participaria de um seminário. Estava sentado numa mesa do famoso Café A Brasileira, dando uma entrevista a uma jornalista portuguesa, quando tocou o seu celular. "Cristovam, vou precisar do seu cargo", dizia do outro lado da linha o presidente Lula.
"São giros"
Quando desligou o celular, Cristovam deu um sorriso constrangido e disse à jornalista: "Acabei de ser demitido". Ela achou que era uma piada. "São giros esses brasileiros", comentou ela. Giro é uma gíria portuguesa usada para designar alguém que seja engraçado. Cristovam não estava sendo "giro". Ele tinha sido realmente demitido.
"Progressista"
A partir de então, iniciou-se seu afastamento de Lula, do PT e dos petistas do Distrito Federal. Mas Cristovam avalia que o PT e a esquerda de um modo geral não têm o que dizer sobre suas "posições progressistas". Ele faz uma ressalva às questões fiscais. "Eu sou muito conservador quando à necessidade de responsabilidade fiscal".
As urnas dirão
Mas ele considera que pontos do seu governo no DF são base das atuais políticas de Lula. O principal a Bolsa-Escola, base da atual Bolsa-Família. Presente na quarta-feira (29) à convenção do PSB que formalizou o apoio a Lula, com Alckmin de vice, Cristovam coloca-se ao escrutínio da esquerda do DF. As urnas dirão se tomará o caminho de volta.
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