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Cuidado! Um robô pode decidir o seu voto nas eleições deste ano

Cuidado! Um robô pode decidir o seu voto nas eleições deste ano
Avatar de Bolsonaro: há questões mais profundas Crédito: Reprodução/PL YouTube

Estará nas mãos do próprio presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kássio Nunes Marques, se é legal o uso do avatar em Inteligência Artificial do ex-presidente Jair Bolsonaro que apareceu no sábado (25) na convenção do PL. Se ele considerar legal, o PL já prepara outros momentos de utilização da imagem virtual. E será, então, o liberou geral. O PSD, por exemplo, poderá apresentar um vídeo, digamos, de Juscelino Kubitschek apoiando a candidatura de Ronaldo Caiado. O PT poderá mostrar Getúlio Vargas pedindo que os trabalhadores se unam em torno da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Haverá uma discussão sobre se JK ou Vargas autorizariam esse uso. Mas ela também ocorre no caso da IA de Bolsonaro. Se ele disser que autorizou, confessará que incorreu numa ilegalidade para burlar as restrições a ele. Se nada disser e nada for proibido, o ceu da IA será o limite.

 

IA preparada para convencer o eleitor

IA preparada para convencer o eleitor
Robôs são programados para agir como humanos nas redes Crédito: Marcello Casal JrAgência Brasil

Essa discussão a respeito dos limites do deep fake é de suma importância. Mas está longe de ser o maior risco que o eleitor brasileiro corre quanto à utilização de Inteligência Artificial na campanha. Esse risco maior, aponta o Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial (IRIA), estará nas redes sociais. Há um batalhão de robôs prontos para interagir com as pessoas de modo a tentar convencê-las a levar o seu voto nas eleições para uma determinada direção. São os "neurobots".

Programados para agir como humanos

Qualquer um que tenha feito alguma pesquisa usando alguma forma de Inteligência Artificial já percebeu como ela se esforça para agir como humana. "Excelente pergunta", diz ela. É esse o tipo de programação usada nos "neurobots". Eles são programados, segundo o IRIA, "para conversar como seres humanos, adaptar argumentos em tempo real, participar de debates, construir relações de confiança e criar falsas percepções de consenso". Tal realidade "já está presente nos principais ecossistemas políticos digitais do Brasil".

Redes de Flávio e Lula estão usando

O Relatório Nacional sobre a Integridade Cognitiva das Eleições Brasileiras, elaborado pelo IRIA e ao qual o Correio Político teve acesso, mostra que tanto a campanha de Flávio Bolsonaro quanto a de Lula têm "neurobots" atuando em suas redes. O estudo estimou que 7,6% das contas com maior probabilidade de comportamento artificial estão presentes no ecossistema digital de Flávio. E 5,5% no de Lula.

Influência

No passado, os robôs apenas repetiam de maneira massiva palavras de ordem. Agora, eles conversam de fato. Se a pessoa retruca, ele responde com outro argumento. São capazes de "alterar aquilo que a psicologia social denomina sinais sociais. que orientam, de forma às vezes inconsciente, a interpretação do pensamento coletivo".

Virar consenso

"A maior ameaça dos neurobots não é convencer diretamente um eleitor. É fazê-lo acreditar que toda a sociedade já pensa daquela maneira", explica o presidente do IRIA, Marcelo Senise. De acordo com Senise, esse é o grande perigo. "Poucas forças influenciam tanto o comportamento humano quanto a percepção de consenso".

Fake News

Voltamos, então, à discussão sobre o avatar de Jair Bolsonaro ou sobre a disseminação de fake News. "Limitar o debate sobre Inteligência Artificial ao combate às fake News tornou-se insuficiente", sustenta Senise. "O verdadeiro desafio passou a ser a manipulação do ambiente cognitivo". O ambiente digital provoca uma confusão.

Ação silenciosa

A pessoa não sabe se interage com um humano ou um robô. Nesse ambiente, determinados conteúdos passam a ser amplificados. Os robôs agem, então, para simular que tal ideia tem apoio popular. Constroem, então, consensos que, na verdade, são artificiais. Agem para "modificar silenciosamente o ambiente das convicções políticas".

Integridade

A partir dessas constatações, o estudo do IRIA propõe um novo conceito que chama de "integridade cognitiva". O instituto propõe que a Justiça eleitoral tem de se preparar não apenas mais para garantir urnas seguras e conter conteúdos fraudulentos. Mas para preservar o ambiente no qual os debates políticos irão acontecer.

Como foi feito

A pesquisa analisou 10,3 mil comentaristas únicos , distribuídos nos dois maiores ecossistemas políticos digitais brasileiros, o de Flávio Bolsonaro e o de Lula. Constatou que, 5,6 mil associados ao ecossistema de Flávio Bolsonaro e 5 mil de Lula tinham comportamento de neurobots. O estudo não aponta responsáveis. Só emite o alerta.