Pré-candidato ao governo do Paraná com apoio do PT, Requião Filho (PDT) concedeu entrevista exclusiva ao Correio da Manhã e afirmou que o um dos principais erros do presidente Lula foi apoiar as eleições de Hugo Motta (Republicanos) e Davi Alcolumbre (União) para o comando do Congresso Nacional.
Em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, Requião Filho também criticou o senador Sergio Moro (PL), disse que o adversário não apresenta um projeto para o estado e que seu discurso se resume a "falar mal do PT".
A sua candidatura no Paraná é uma missão ainda mais difícil, dado o histórico conservador do eleitorado?
O Paraná não é um estado de extrema direita. Já elegeu o Roberto Requião três vezes pelo MDB. É um dos berços das Diretas Já no Brasil, em prol da democracia. É um estado cooperativista. Então, o que a gente tem neste momento é uma guerra de narrativas. Mas eu não consigo ver como um estado de direita.
Ratinho Júnior no governo, apoiador e simpatizante de Bolsonaro, Sérgio Moro liderando as pesquisas pelo PL. Não é um estado bolsonarista?
Eu acredito que não. Tanto que, pesquisa após pesquisa, o Sérgio Moro vem caindo nas pesquisas e eu venho subindo. O candidato do governador está sofrendo nos 10%.
Então, eu acredito que o Paraná é um estado que, quando a gente fala conservador, é porque ele aceita mudanças, desde que elas sejam bem explicadas, bem planejadas e aconteçam de forma paliativa e justa. Então, é isso que a gente vê.
O senhor acredita que a eleição ao governo do Paraná este ano não será polarizada sob o aspecto nacional?
Tem gente que pretende polarizar. A extrema direita joga nesse negócio de que o Paraná é de direita e tem que ser de direita. Mas, quando você conversa com o cidadão, a diferenciação entre direita e esquerda é algo muito confuso para ele. O que é a direita? O que é a esquerda?
O que tem de gente que fala "eu sou de direita" sem nem saber o porquê. E, quando você traz para eles ideias, programas, o que ele acha do Estado, do papel do Estado, de educação pública, de saúde pública, de imposto, você vê que ele não é de direita. Ele foi enganado a crer que era.
Então, o senhor acredita que a maioria da população está mais interessada em resolver essas questões práticas?
Porque não tem ideologia. Que discurso ideológico tem Flávio Bolsonaro? Como que se junta esse discurso de Flávio Bolsonaro, de "bandido bom é bandido morto", uma vez que ele é ligado diretamente a todos os bandidos do Rio de Janeiro, a todos os bandidos aqui de Brasília, incluindo o Vorcaro? Não é nem discurso, é um falastrão.
Eles fazem uma fala que acreditam que agrade a maioria. E, num país onde a violência que mais incomoda é essa violência que nós sentimos, novamente, no dia a dia, o roubo do Vorcaro é um escândalo, mas incomodou muito pouco o senhor João e a dona Maria.
Quais as principais diferenças do seu projeto para o Paraná em relação ao que Sérgio Moro defende?
O meu projeto existe. O projeto do Sérgio Moro é falar mal do PT. Eu não sei qual é a opinião dele sobre a privatização da Copel, a nossa empresa de energia no Paraná, que era a número um do Brasil, a mais bem avaliada, a com mais prêmios, a que mais investia e com a menor tarifa. Privatizada, hoje ela é a 27ª pior, desaprovada por quase 90% da população, da indústria e do agro, e com uma das maiores tarifas do Brasil. Eu não sei qual é a opinião de Sérgio Moro sobre isso.
Eu sou contra o pedágio implantado no Paraná, a pedido do governador, pelo governo federal. Eu não sei qual é a opinião de Sérgio Moro sobre isso.
Em relação ao atual governador Ratinho Júnior, o índice de aprovação dele é alto, segundo diferentes pesquisas.
Não é necessariamente uma aprovação. Você não viu um escândalo porque a família dele é dona da mídia e esse governo, no momento em que as instituições do Brasil estão fragilizadas, não te atrapalhou naquele momento. Você não precisou da saúde pública, você não precisou da educação pública, você não teve um problema diretamente ligado ao governo.
Então, se não está tendo escândalo, está bom. Mas não é uma aprovação de paixão, de "esse cara é meu governador", "esse é o governo que eu quero", "esse é o meu Paraná". Você não tem esse sentimento de orgulho paranaense que nós já tivemos no passado recente.
Trazendo para a questão nacional, o PDT oficializou o apoio à reeleição do presidente Lula. Como o senhor vê esse movimento?
O partido existe para ter candidato. Todo partido deveria ter um candidato. Porém, a história nos ensina que as circunstâncias, por vezes, nos oferecem determinados caminhos. E, neste momento, retroceder e apoiar o Lula contra Bolsonaro, numa polarização de dois candidatos, onde não há outros candidatos com chance ou se colocando de uma maneira séria, é o caminho necessário para o PDT neste momento.
É um caminho de defesa da democracia, é um caminho de defesa do trabalho social, da conscientização de que um governo existe para atender à população que mais precisa, não aos amigos do presidente.
Para o senhor, a eleição de Flávio Bolsonaro representaria um risco à democracia?
Representa o caos. É um risco ao mercado, é um risco à estabilidade, é um risco à nossa moeda, que é frágil, é um risco às instituições como um todo.
E, olha, nesse momento, em que as nossas instituições estão enfraquecidas por conta da vaidade, nós temos um Congresso Nacional que é um ninho de cobras. Sejamos bem sinceros: é cada um por si.
Por que seria um risco à democracia a eleição de Flávio Bolsonaro?
É um maluco descompensado, com um grupo de descompensados, com o Valdemar Costa Neto e afins, que andam ao seu entorno, coloca em risco a democracia brasileira porque, com um Congresso fraco, com um Congresso que prioriza o seu bolso, o bolso do parlamentar, em vez do bem-estar da nação, fica mais fácil a gente ter um golpe, a gente ter uma mudança de regime, a gente fechar instituições como o Judiciário.
O senhor acha que o Flávio Bolsonaro fecharia o STF?
Eu acho que ele tentaria. Eu acho que ele é um maluco a esse ponto, um irresponsável. Ele é um menino mimado e birrento, querendo brincar. Ele e aquele irmão dele, Eduardo, são do time do "quanto pior, melhor".
Tanto que estão aí advogando um tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil. Então, veja, não há uma visão de nação por parte desta família. Há uma visão miliciana de "o meu primeiro".
Quando o senhor deixou o PT para se filiar ao PDT, fez críticas ao governo federal, dizendo que o Lula esqueceu o Paraná. Qual é o tamanho dele no seu palanque?
Mantenho todas as críticas. Mas quero Lula no meu palanque. Como eu disse, é a minha responsabilidade estar fazendo, neste momento, a defesa da democracia no Brasil. E, nesta eleição, o que representa essa defesa é o Lula. Eu acho o Flávio Bolsonaro um risco ao mercado, ao agro, à nação.
O senhor acredita que o presidente Lula se afastou das bandeiras de campanha?
Eu acredito que ele pode retornar a essas bandeiras de campanha, mas acredito que o seu governo, em certo momento, principalmente no início, nessa ideia de coalizão, se afastou um pouco e perdeu um pouco das rédeas.
Mas eu vejo que isso tem sido uma batalha para retomar as origens e os rumos de um governo que cuida de pessoas. E, afinal de contas, essa é a nossa proposta lá no Paraná: um governo que cuida de pessoas.
Qual o principal acerto do Lula neste atual mandato?
Foi, agora, essa chance de retomar essa defesa do social, essa defesa do trabalhador, esse reconhecimento do pequeno.
Nós desviamos, como Brasil — não no governo do Lula, mas como Brasil ao longo de um tempo —, em que o Estado não foi vendido como Estado mínimo para mim e para você, mas como Estado máximo para grandes financiadores de campanha, para grandes bancos, para grandes industriais, para multinacionais.
E o principal erro?
Governabilidade. Deixar o Congresso na mão de quem deixou, acreditando que estava no governo Lula 1 ou 2.
O senhor se refere ao governo apoiar as eleições de Davi Alcolumbre e Hugo Motta?
Ao Alcolumbre e ao Hugo Motta. Me refiro a vistas grossas às emendas PIX. Me refiro a deixar que o Centrão indicasse ministros com poderes absurdos, que tomaram decisões que iam contra o próprio discurso do presidente.
O presidente fala uma coisa em rede nacional, o seu ministro faz outra. O ministro dos Portos privatizando portos, como o Porto de Paranaguá, autorizando a privatização do Canal da Galheta. Está lá o Lula defendendo soberania nacional, e está o ministro dos Portos entregando nossos portos para empresas privadas e internacionais.
Nessa eleição de 2026, o presidente Lula já tem uma coligação ampla de partidos de esquerda. Isso fará diferença na eleição deste ano?
Se nós conseguirmos eleger um Congresso melhor, fará. Porque, nessa sopinha de letras em que se transformaram essas coligações, essas federações, e pela falta de credibilidade que a política tem perante o brasileiro, o partido, para o cidadão comum, não interessa mais.
Os candidatos são escolhidos praticamente pela sua pessoa, pelo seu discurso, pela sua posição. Não necessariamente pelo partido em que ele está. A não ser alguns partidos extremos, em que é de ódio e amor: o cara vota naquele partido ou não vota de jeito nenhum naquele partido.
O PDT e o PSB estão unidos em torno da reeleição de Lula. No Paraná, apesar da sua candidatura, o PSB, do Geraldo Alckmin, está apoiando o governador Ratinho Júnior (PSD). Como o senhor vê essa aliança?
Eu vejo, dentro daquilo que eu te falei, que, às vezes, os partidos se perdem na ideologia. O plano nacional diz uma coisa e cada estado faz outra.
Mas eu terei uma reunião com o vice-presidente Geraldo Alckmin. Tenho conversado com representantes do PSB nacional, cobrando essa coerência e fazendo esse diálogo sobre a necessidade de essa aliança ser reproduzida Brasil afora, para que a gente mantenha a coerência entre o nosso discurso e a nossa prática.
O presidente Lula fez certo ao indicar novamente Jorge Messias para o STF?
Eu acho que tem que mudar, mais uma vez, quem pode ir para o STF. Eu pergunto: por que o Messias? O Lula não tem obrigação nenhuma de colocar um inimigo. Você não colocaria um inimigo, como presidente da República, numa indicação sua ao STF. Mas, se você vai colocar alguém, esse alguém tem que ter um porquê.
Então, todo advogado-geral da União, desde o Gilmar Mendes, precisa virar ministro do STF? Tem que ter um porquê. Tem que ter um como. Tem que ter um currículo. Tem que ter uma história. Tem que ter a respeitabilidade.
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