Correio da Manhã
Paulo Cappelli

Angra 3: Brasil não pode adiar decisão indefinidamente

Angra 3: Brasil não pode adiar decisão indefinidamente

O futuro da usina nuclear Angra 3, com as obras paradas atualmente, volta ao centro das atenções nesta terça-feira, dia 24, quando o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) se reúne para discutir temas estratégicos do setor elétrico nacional. Entre os assuntos da pauta está justamente o andamento da terceira usina nuclear brasileira, um empreendimento que há décadas alterna avanços, paralisações e incertezas.

A reunião ocorre em um momento decisivo. Depois de bilhões de reais já investidos e de anos de debates técnicos, econômicos e políticos, o país continua sem uma definição clara sobre o destino da obra. A morosidade do governo federal em tomar uma decisão definitiva tem gerado insegurança não apenas para o setor nuclear, mas também para investidores, trabalhadores e para toda a cadeia produtiva envolvida no projeto.

O Brasil possui condições para desenvolver a energia nuclear. Além de deter uma das maiores reservas de urânio do planeta, domina praticamente todas as etapas do ciclo do combustível nuclear, algo restrito a um grupo seleto de nações. Trata-se de um ativo estratégico que fortalece a soberania nacional, reduz a dependência externa e amplia a capacidade do país de planejar seu futuro energético.

Em um mundo que busca fontes de energia confiáveis e com baixa emissão de carbono, a geração nuclear ganha cada vez mais relevância. Diferentemente das hidrelétricas, não depende do regime de chuvas. Também oferece geração contínua e previsível, característica fundamental para sustentar o crescimento econômico e atender à demanda crescente por eletricidade.

Nesse cenário, a indefinição sobre Angra 3 é injusto. A usina já consumiu vultosos investimentos públicos e privados, possui equipamentos adquiridos e instalados e apresenta um estágio avançado de execução. Cada ano de paralisação representa custos adicionais de manutenção, deterioração de estruturas e perda de eficiência econômica. Em outras palavras, a conta continua chegando mesmo com a obra parada.

A retomada do empreendimento também representa uma oportunidade para a geração de empregos e o fortalecimento da economia regional. A Costa Verde e todo o Sul Fluminense, ambas as regiões no Estado do Rio de Janeiro, poderiam ser beneficiados com a criação de milhares de postos de trabalho diretos e indiretos, além do aumento da atividade econômica em diversos setores. O cálculo é de que se a obra sair do papel serão gerados em torno de sete mil empregos, em uma ocasião de grave crise econômica para os trabalhadores. Isso no pico da obra.

É evidente que uma decisão dessa magnitude exige responsabilidade, transparência e rigor técnico. Mas o que se observa nos últimos anos é uma sucessão de estudos do BNDES e do TCU, análises e discussões que pouco avançam para uma conclusão efetiva. O país parece preso a um ciclo permanente de avaliações, enquanto os custos da indecisão se acumulam.

A reunião do CNPE no próximo dia 24 oferece uma oportunidade para que o governo federal demonstre disposição de enfrentar o tema com objetividade. Mais do que decidir sobre uma usina, trata-se de definir qual será o papel da energia nuclear na matriz energética brasileira e qual estratégia o país pretende adotar para garantir segurança energética nas próximas décadas.

O que não parece mais razoável é prolongar indefinidamente uma situação de incerteza. O Brasil precisa escolher entre concluir Angra 3, aproveitando os investimentos já realizados e os benefícios que ela pode proporcionar, ou encerrar de vez o projeto. Permanecer no meio do caminho é a pior alternativa. A energia nuclear é estratégica demais para o país, e Angra 3 é importante demais para continuar refém da lentidão das decisões governamentais.

Mais do que uma obra de infraestrutura, a usina representa uma aposta no desenvolvimento tecnológico e na capacidade do Brasil de planejar seu futuro. O que falta agora é a decisão política para transformar esse potencial em realidade. Mas, infelizmente, o encontro do CNPE - que tem o colegiado composto por inúmeros ministros. Se a novela sobre Angra 3 continuar, o país continuará gastando em torno de R$ 1 bilhão por ano. Tem que ser levado em consideração que a Eletronuclear, que opera as usinas, está com o caixa quase colapsando e vem pedindo sucessivos socorros financeiros ao governo federal, que não decide o que fazer com o abacaxi que precisa descascar. Ou não. Pode deixar a decisão para o próximo governante do país. E, mais uma vez, a população brasileira paga a conta.

Sônia Paes é editora do Correio Sul Fluminense, do Grupo Correio da Manhã.