Um relatório divulgado pelo comitê da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos dedicado ao monitoramento da China acusa Pequim de utilizar projetos espaciais instalados no Brasil para ampliar capacidades de espionagem e vigilância militar. O documento elaborado pelo parlamento cita estruturas no país e afirma que elas podem auxiliar o governo chinês no monitoramento de satélites, comunicações e ativos militares.
O relatório aponta duas iniciativas em território brasileiro: a estação terrestre de Tucano, na Bahia, desenvolvida em parceria entre a brasileira Ayla Nanosatellites e a chinesa Beijing Tianlian Space Technology, e o laboratório sino-brasileiro de radioastronomia em Serra do Urubu, na Paraíba.
Segundo o relatório, a infraestrutura espacial chinesa na região "ilustra como instalações operadas sob aparência civil podem funcionar como estruturas militares de uso dual", ampliando "a capacidade do PLA [Exército de Libertação Popular da China] de atingir e interromper sistemas espaciais adversários ao redor do globo".
No caso da estação de Tucano, formalizada em 2020, o comitê afirma que o acordo prevê armazenamento e troca de dados operacionais entre as redes de antenas das empresas envolvidas. O documento diz que esse arranjo "poderia, na prática, aprimorar precisão de rastreamento, consciência situacional espacial e resiliência de comando em ativos espaciais civis e militares".
O relatório também menciona um memorando firmado entre a Ayla Nanosatellites e o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da Força Aérea Brasileira. Segundo o texto, o acordo inclui treinamento de militares em simulação orbital e uso de antenas da FAB como estrutura de backup da estação.
"Essa integração fornece à República Popular da China um canal para observar e influenciar a doutrina espacial militar brasileira, enquanto estabelece uma presença permanente em uma região vital para a segurança nacional dos Estados Unidos".
O comitê americano também sustenta que a combinação de dados da constelação de satélites Alya com redes chinesas "poderia desenvolver uma capacidade de vigilância de alta recorrência capaz de identificar ativos militares camuflados e rastrear objetos espaciais estrangeiros em tempo real".
Outro projeto citado é o laboratório conjunto de radioastronomia criado em 2025 entre instituições brasileiras e o instituto chinês China Electric Science and Technology Network Communication Research Institute (CESTNCRI). O relatório afirma que, embora o projeto seja apresentado como iniciativa científica, as tecnologias envolvidas possuem potencial de uso militar.
"O instituto está profundamente integrado à base industrial de defesa da China" e "as aplicações tecnológicas mais amplas desses sistemas de observação do espaço profundo podem ter capacidades de uso dual para inteligência militar, consciência situacional espacial e rastreamento de alvos não cooperativos", diz o texto.
Telescópio em São Paulo
O documento dedica atenção especial ao telescópio BINGO, atualmente em construção em São Paulo e destinado à Serra do Urubu. Segundo os parlamentares americanos, os algoritmos usados para filtrar interferências de rádio "poderiam ser capazes de interceptar, classificar e isolar pulsos de radares militares, telemetria de satélites e atividades de guerra eletrônica com extrema sensibilidade".
A investigação afirma ainda que estações chinesas instaladas na América Latina podem ajudar Pequim a monitorar comunicações militares americanas em frequências privadas, além de auxiliar no rastreamento de navios e aeronaves.
"Essa rede permite ao PLA localizar e rastrear atividades de adversários escolhidos mesmo do outro lado do globo, expandindo sua rede de vigilância e suas capacidades de ataque", aponta o documento.
Ao final, o comitê recomenda que os EUA ampliem restrições à cooperação espacial envolvendo países que hospedam infraestrutura chinesa, revisem acordos multilaterais e trabalhem para conter a expansão de estruturas espaciais ligadas à China no hemisfério ocidental.
O relatório é um documento produzido pelo comitê especial da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos voltado ao acompanhamento da atuação da China no cenário internacional. O grupo, chamado "Comitê Especial da Câmara dos Representantes sobre o Partido Comunista Chinês", realiza análises periódicas sobre segurança nacional, tecnologia, influência geopolítica e possíveis riscos ligados ao governo chinês.
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