Fernando Molica

Flávio: Napoleão de hospício

Ao mentir, Flávio trai a pátria, estimula conflitos entre brasileiros, prega o caos, atiça situações capazes de gerar desatinos como a intentona de 8 de janeiro de 2023 e mortes.

Flávio: Napoleão de hospício
Flávio Bolsonaro, derrotado na disputa pela Presidência da República Crédito: Jefferson Rudy/Agência Senado

A carta divulgada por Flávio Bolsonaro (PL), que fugiu para os Estados Unidos com o objetivo de escapar da Justiça, tira qualquer eventual dúvida sobre suas atitudes golpistas, perigosas, irresponsáveis, impatrióticas e, mesmo, insanas.

Candidato derrotado à Presidência da República por 4.430.191 votos, o senador age como um Napoleão de hospício que, de chapéu bicórnio comprado em loja de artigos carnavalescos e montado em um cabo de vassoura, acha-se na sela de Marengo, célebre cavalo do imperador francês. Na versão inicial da carta, declarou-se "verdadeiro presidente eleito do Brasil", expressão depois substituída por "líder do Brasil".

Investigado em dois inquéritos por suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e organização criminosa, Flávio acrescentou mais uma acusação contra si, a de praticar atentado à soberania nacional, crime previsto pelo artigo 359-I do Código Penal.

O derrotado tenta reeditar, agora como farsa, a tragédia deflagrada por seu pai ao tentar um golpe de Estado para permanecer de maneira ilegítima no poder. Assim como todas as outras eleições brasileiras realizadas depois da ditadura — inclusive a de 2018, vencida por Jair Bolsonaro —, a de 2026 foi transparente, livre e democrática.

A lisura do pleito foi reconhecida pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, que chegou ao Supremo Tribunal Federal pelas mãos de Jair Bolsonaro.

Ao mentir, Flávio trai a pátria, estimula conflitos entre brasileiros, prega o caos, atiça situações capazes de gerar desatinos como a intentona de 8 de janeiro de 2023 e mortes.

Age motivado por frustração, inconformismo com os fatos e necessidade de provocar o ódio, sentimento que rege o bolsonarismo, movimento incapaz de conviver com a paz, que precisa do confronto, da briga, do desespero, da criação de uma luta de um suposto bem contra um denominado mal.

A carta, de tão alucinada — em sua primeira versão, trazia um brasão aposentado da República com o nome do Brasil escrito como "z" —, sequer mereceria ser levada em consideração se não fosse assinada por um senador e ex-candidato à Presidência. De seu conteúdo, salva-se apenas o trecho que prega a necessidade de acabar com "essa sandice".

Flávio insiste em atribuir sua derrota à decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que, diante da apatia de Nunes Marques, prorrogou por duas horas o horário de votação — medida solicitada pelo PT e pelo próprio PL. Não custa repetir: apenas 34.393 pessoas votaram depois das 17h, número que sequer arranha a diferença entre os candidatos.

O derrotado também cita abuso de poder da chapa vencedora. Lula, às vésperas da eleição, adotou medidas capazes de gerar simpatia por sua candidatura; fez como Jair em 2022. Flávio teria todo o direito de tentar fazer valer seu argumento, bastaria recorrer à Justiça Eleitoral.

Com sua carta, o ex-candidato do PL se torna responsável pelo eventual agravamento das tensões no país. Seus aliados, inclusive os que posam de moderados, serão cúmplices de qualquer tragédia que venha a ocorrer em confrontos entre brasileiros e que sejam motivados por divergências políticas.