Fernando Molica

2030 sem Lula e sem Bolsonaro

É muito improvável que a direita que tenta encontrar espaço e cara se disponha a, mais uma vez, deixar-se levar pelos arroubos de Jair Bolsonaro.

2030 sem Lula e sem Bolsonaro
Derrotado, Flávio Bolsonaro tende a ser descartado por uma direita menos radical Crédito: Reprodução TV Globo

A segunda derrota consecutiva de um Bolsonaro abre caminho para um pleito singular em 2023, sem a presença de Lula e de qualquer representante do clã que desde 2018 comanda a direita brasileira.

Um embate que, em tese, ajudará a diminuir o ódio que cada lado dedica ao oposto. É só compararmos os ringues em que foram transformados os debates da campanha presidencial com a cortesia dos embates entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad na disputa pelo governo paulista.

Vitorioso em mais uma corrida pelo Planalto — a quarta — e veterano de sete das dez eleições realizadas desde a redemocratização, o petista, que hoje faz 81 anos, iniciou sua derradeira missão em cargos públicos.

Desta vez, não haverá alternativa, a esquerda e a centro-esquerda terão que encontrar outros nomes para ocupar o lugar do mais importante político brasileiro do século XXI, quiçá de toda a história republicana (Getúlio Vargas ficou mais tempo no poder, também fez reformas fundamentais, mas a ditadura do Estado Novo tem efeito negativo sobre sua biografia.)

A situação no outro campo é bem diferente. Para não brigar com o bolsonarismo, a direita não extremista aceitou se subordinar ao ex-presidente, topou a imposição de Flávio, abriu mão de uma provável vitória de Tarcísio de Freitas, que, ajudado pelas derrapadas da campanha de Lula no primeiro turno, poderia ter liquidado a fatura logo de cara.

É muito improvável que, agora, a direita que tenta encontrar espaço e cara se disponha a, mais uma vez, deixar-se levar pelos arroubos de um Jair Bolsonaro preso e sem perspectivas de soltura.

Com Eduardo condenado e foragido e com Flávio sem mandato e ameaçado por investigações da Polícia Federal, a prole do ex-presidente passará a ser representada no Congresso por Carlos e Jair Renan.

Há também Michelle, eleita senadora com tranquilidade, carismática, bonita, boa oradora e que não se constrange em distribuir doses de maldades tão comuns na vida político-partidiária. Mas em suas veias não corre sangue dos Bolsonaro; e isso conta muito numa família tão ciosa da defesa dos seus próprios valores e interesses. Por mais que goste de sua mulher, Jair sempre procurou manter seus voos sob controle.

Péssima para o bolsonarismo, a derrota de Flávio abriu novas perspectivas para a direita. O lado que tenta construir uma alternativa entre o extreminismo e o Centrão tem quatro anos para mostrar que do que é capaz. O grupo mais digamos, pragmático, não tem do que reclamar: subiria a rampa com o bolsonarista, a subirá com Lula.

Presidente/dono do PL, Valdemar Costa Neto deve estar tão feliz quanto os petistas. Graças aos adeptos do ex-presidente e ao ódio ao PT, seu partido elegeu uma bancada enorme, futura destinatária de fundos eleitoral e partidário. A derrota de Flávio também permite que ele fique menos sensível às exigências do ex-capitão e mantenha o sinal aberto para o Planalto.