Fernando Molica

Vai na fé: Flávio elege Mendonça

A sessão da última terça do STF reforçou a ideia de guerra santa, com o franzino Mendonça atuando como um David diante do gigante Golias/Moraes assessorado por Gilmar Mendes e Flávio Dino.

Vai na fé: Flávio elege Mendonça
O ministro André Mendonça com Flávio Bolsonaro Crédito: Reprodução/Redes sociais

A lógica religiosa justifica a insistência da campanha presidencial do PL de tentar substituir simbolicamente os dois principais candidatos ao Planalto, operação que procura trocar Flávio Bolsonaro por André Mendonça e Lula por Alexandre de Moraes. Se, como diz o candidato do PL, votar em Lula é votar em Moraes; votar em Flávio seria votar em Mendonça.

O uso da imagem do ministro do Supremo Tribunal Federal indicado por Jair Bolsonaro por ser "terrivelmente evangélico" carimba na disputa a lógica do bem contra o mal característica do bolsonarismo.

Mendonça se qualificou para o papel ao exigir da Polícia Federal, a pouco mais de um mês da eleição, apanhado sobre uma única investigação relacionada ao Mater — aquela que, como sabia, chegaria a Moraes. De posse do resultado, tratou de espalhar a boa nova e cobrar uma providência da presidência do STF.

Para reforçar o caráter religioso de seu ato, gravou, poucos dias depois da divulgação do material, vídeo dirigido aos "irmãos e de irmãs" de fé — ele é pastor presbiteriano. Seu depoimento reforçou a ideia de perseguição muito presente entre os seguidores de Martinho Lutero, que por séculos foram vítimas do Vaticano.

A sessão da última terça do STF serve de pretexto para uma guerra santa, com o franzino Mendonça atuando como um David diante do gigante Golias/Moraes assessorado por Gilmar Mendes e Flávio Dino. Os ataques ao ministro-pastor foram repercutidos e amplificados por redes evangélicas, solidárias ao irmão.

Um levantamento da agência de checagem Aos Fatos mostrou que perfis que promovem políticos de direita como Flávio Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) começaram a agir de forma articulada para impulsionar páginas que exaltam Mendonça.

O trabalho verificou na rede social Meta 24 perfis focados no ministro que passaram a ser promovidos por publicações de extrema-direita, prática definida como astroturfing, que simula apoio espontâneo. Segundo o Aos fatos, entre 1º e 9 de setembro, 156 publicações analisadas "equipararam a atuação do ministro a uma jornada do herói evangélica" e somaram 228 milhões de visualizações.

O viés religioso afasta o eleitor do cálice amargo da política, de rachadinhas, da compra de imóveis com dinheiro vivo, de condecoração a assassino, do pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro. No lugar dos pecados políticos entra em perspectiva a lógica da salvação, dos perdão dos pecados intermediado por um pastor que enfrenta o dragão da maldade que prendeu o mártir Jair Messias.

De protagonista improvisado, levado ao palco pela condenação do pai, Flávio vira, na prática, um coadjuvante da própria campanha, alguém que aceitou a missão em nome de uma causa maior — como diz a Bíblia, ninguém vai ao Pai senão pelo Filho. Mendonça está ali, do seu lado direito, para afiançar seus gestos.