Fernando Molica

O corruptor‑geral da República

Vorcaro virou uma espécie de Posto Ipiranga capaz de, com o combustível acumulado em seus tanques, resolver toda e qualquer parada. Em caso de necessidade, bastava recorrer ao banco que ficava aberto 24 horas.

O corruptor‑geral da República
Vorcaro comprou uma infinidade de pessoas, em vários níveis Crédito: Reprodução/Redes sociais

Nesta altura do campeonato, dá para reconhecer que Daniel Vorcaro merece o título de corruptor-geral da República, comandante-em-chefe de algumas das piores, abrangentes e condenáveis parcerias público-privadas da história republicana.

É provável que o volume total de grana que ele investiu na, digamos, boa vontade de agentes públicos seja capaz de, por exemplo, superar o que ao longo de décadas foi aplicado pelas grandes empreiteiras que prosperaram a partir da ditadura implantada em 1964 (a história é contada no livro "Estranhas catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988", de Pedro Henrique Pedreira Campos).

Mas é razoável supor que nunca antes uma só pessoa tenha sido capaz de atuar de maneira tão direta e decisiva nos mais diversos níveis do pântano da corrupção. Seus infinitos, longos e generosos braços foram capazes de acarinhar integrantes de todos os poderes da República.

Como na mensagem publicitária apropriada por Jair Bolsonaro para se referir ao então ministro Paulo Guedes, Vorcaro virou uma espécie de Posto Ipiranga capaz de, com o combustível vindo do setor público e acumulado em seus tanques, resolver toda e qualquer parada. No sufoco, bastava recorrer ao banco que ficava aberto 24 horas.

Ele patrocinou eventos com presença de grandes autoridades, financiou filme sobre ex-presidente, emprestou avião para campanha eleitoral, irrigou os cofres de escritórios de advogados parentes de ministros do Supremo Tribunal Federal, providenciou astronautas para levar poderosos ao céu dos prazeres, pôs muita gente para sambar em seu camarote, financiou compra de imóveis, distribuiu luxo, charutos e uísque.

Pela demanda feita pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que acumulou milhagem em jatinhos do então banqueiro, Vorcaro seria capaz ajudar um amigo do parlamentar na liberação de um "ativo minerário" — em tese, investimento em exploração mineral.

Em troca, ele conseguiu autorização para comprar um banco, empurrou papéis que não valiam nada para governos e fundos de aposentadoria, garantiu o direito de pedir conselhos a ministro do STF e fazer reunião fora da sede da corte com outro, e quase conseguiu fazer com que seu Master fosse incorporado pelo BRB.

Não dá para colocar em um mesmo balaio todos os que, de um jeito de outro, tiveram algum tipo de relacionamento suspeito com Vorcaro. Cada caso é específico e deve avaliado e julgado como tal — um charuto, afinal, pode ser apenas um charuto.

Mas a abrangência das relações do ex-banqueiro ajuda a entender a lógica de um poder que com frequência demonstra existir apenas para garantir a permanência e os lucros dos que dele fazem parte. É fundamental que, no mês que falta para a eleição, tudo o que já foi apurado seja colocado à luz do sol, não podemos votar sob a sombra de tamanhos escândalos.