A pouco mais de um mês da eleição, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, colocou em risco uma investigação sobre fatos graves atribuídos, principalmente, a Alexandre de Moraes. A eventual declaração de nulidade do relatório encomendado à Polícia Federal e, no limite, das investigações, não eliminará, porém, suas consequências políticas e eleitorais.
Ao determinar, no dia 24, que a PF, em 72 horas, detalhasse fatos que inevitavelmente registrariam suspeitas sobre Moraes, Mendonça sabia da possibilidade de descarte futuro das evidências coletadas: o suposto envolvimento de Moraes no caso é de conhecimento público desde dezembro. Detalhes estavam disponíveis no gabinete do próprio relator do caso Master no STF.
Para que não houvesse qualquer dúvida da PF em citar todos os nomes que encontrasse, Mendonça, no mandado, ressaltou a necessidade de identificação dos citados na investigação, mesmo eventuais detentores de foro por prerrogativa de função.
Ao justificar sua medida, o ministro também destacou a necessidade de identificação dos integrantes "da suposta rede de influência e monitoramento" que seria gerenciada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Os agentes federais que assinam a Informação requisitada por Mendonça frisam, no texto, ter sido feita "análise de possíveis interações entre DANIEL BUENO VORCARO e contato salvo em seu aparelho celular como 'Alexandre de Moraes BRASILIA'". Prosseguem: "Para tanto, foram realizadas pesquisas no material por termos associados ao interlocutor".
O parágrafo seguinte cita que "no estrito cumprimento da decisão exarada" por Mendonça, "foram trazidas também interações entre DANIEL VORCARO e outros interlocutores, mas que faziam referência a episódios 'envolvendo' a figura de 'Alexandre de Moraes BRASILIA'". Cinco dias depois de receber a Informação, o ministro retirou o sigilo do caso.
Citado no documento como beneficiário de favores de Vorcaro, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, não se constrangeu ao respondê-lo e a requisitar a declaração de nulidade do relatório.
Por mais que tenha agido como advogado de si mesmo, Gonet sabe que seu pedido não é absurdo ou inédito: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não foi absolvido no caso das suspeitas de rachadinhas, as provas obtidas pelo Ministério Público foram anuladas porque, segundo a Justiça, houve violação de prerrogativa de foro. O mesmo motivo fez com que o ministro Gilmar Mendes desconsiderasse e mandasse destruir evidências contra o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).
De maneira aparentemente contraditória, o gesto de Mendonça é capaz de favorecer Moraes e Gonet que, graças ao relator, ganharam a possibilidade até de escapar de punições judiciais. A disputa eleitoral, porém, dispensa sentenças, ainda mais em um caso que envolve Moraes, principal foco de campanhas de candidatos ao Senado que têm como bandeira a facilitação de impeachment de ministros do STF.
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