Fernando Molica

Derrota de Flávio; vitória de Michelle

Uma derrota de Flávio Bolsonaro asfaltará o caminho da ex-presidente do PL Mulher. Caso seja eleita senadora, Michelle será a principal representante da família no Congresso

Derrota de Flávio; vitória de Michelle
Foto de campanha de Flávio e Michelle Bolsonaro Crédito: Vittor Sales? Divulgação/ PL

Candidata ao Senado pelo Distrito Federal, Michelle Bolsonaro posou para fotos de campanha ao lado do enteado Flávio, disse que a crise entre os dois está superada — mas sabe que a eventual derrota do candidato do PL à Presidência ajudará em muito sua carreira.

O cenário é simples: caso vença a disputa pelo Planalto, Flávio Bolsonaro assumirá, de maneira incontestável, a herança do pai. Com isso, adiará as pretensões da madrasta de chegar ao Planalto; o hoje senador tentaria a reeleição em 2030. Mesmo eleita, Michelle teria que se contentar com um ministério de baixo orçamento ou com a liderança do Governo ou do PL.

Uma derrota de Flávio, porém, asfaltaria o caminho da ex-presidente do PL Mulher. Caso seja eleita — o que tende a ocorrer —, Michelle será a principal representante da família no Congresso; isto, mesmo que Carlos, outro enteado, consiga a difícil tarefa de ser eleito para o Senado por Santa Catarina.

Como mostrou ao longo de seus mandatos na Câmara Municipal do Rio, ele, muito bom no jogo pesado das redes sociais, tem sérias dificuldades na articulação política, seria surpreendente que viesse a conquistar protagonismo como senador. Nada indica também que Jair Renan Bolsonaro, vereador em Balneário Camboriú (SC), venha a se revelar um grande político caso seja eleito deputado.

Com Eduardo auto-exilado e Flávio sem mandato, Michelle, senadora, ficaria livre para encabeçar a representação do clã e disputar o protagonismo da direita, até com olhos na sucessão presidencial que será disputada daqui a quatro anos.

Além da curiosidade que cercaria sua chegada ao Congresso, ela teria a chance de encabeçar uma das grandes bandeiras bolsonaristas, o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Boa oradora, articulada, subiria com tranquilidade no palco-tribuna do Senado.

Isso não quer dizer que ela teria caminho fácil no campo direitista. Uma segunda derrota consecutiva do bolsonarismo na disputa presidencial enfraqueceria o legado de Jair, já abalado pela tentativa golpista, pela prisão e pela teimosia de rejeitar, em 2026, de alguém que não fosse sangue do seu sangue.

Ao deixar o governador Tarcísio de Freitas na pista, Bolsonaro manteve o controle em suas mãos, mas será responsabilizado em caso de fracasso do primogênito. Caberia à sua mulher se mostrar capaz de reunir os cacos com uma argamassa que incluiria capacidade de negociação, carisma, acenos radicais aos evangélicos e um grau de messianismo comparável ao do marido.

Ao posar ao lado de Flávio, ao falar em virada de página, de colocação de pedra sobre as divergências, Michelle procurou esfriar uma crise com potencial de prejudicar sua própria candidatura ao Senado, não quer a imagem de madrasta de conto de fadas. Ela sabe jogar o jogo e conhece o cenário que lhe é mais favorável. Diante do espelho, não teme a resposta quando pergunta se existe, na família, alguém mais esperto do que ela.