Ao escalarem mais e mais jogadores nascidos fora de suas fronteiras, seleções sem tradição no futebol ameaçam dar uma cambalhota no processo que concentrou poder e dinheiro nos clubes europeus. Estes, desde 2013, revezam-se na conquista do antigo Mundial; hoje Copa Intercontinental.
Na atual Copa do Mundo, 258 jogadores — 20,67% do total — abriram os olhinhos pela primeira vez muito longe dos países que agora representam.
Seleções sempre foram menos vulneráveis à elitização facilmente percebida nos clubes; talentos gerados em países como Brasil, Argentina e Uruguai representam uma trava ao poder do dinheiro. Mas, mesmo assim, a grana conta, e muito.
A vitória de Messi e companhia em 2022 quebrou um período de quatro copas sucessivas conquistadas por europeus, domínio que jamais tinha ocorrido e que reflete a crescente concentração de renda no mundo. Mesmo os três países sul-americanos que conquistaram o mais importante título do futebol estão longe de puxarem a fila da pobreza terceiro-mundista.
Em relação aos clubes, a batalha parece perdida, pelo menos, pelas próximas duas décadas. Por mais dinheiro que tenham, clubes da elite de nosso país ainda têm orçamentos tímidos perto de gigantes ingleses, espanhóis, italianos e alemães.
A interminável exportação de craques ainda muito jovens torna praticamente impossível que equipes brasileiras consigam montar times equivalentes ao Botafogo de Garrincha, Didi, Nilton Santos e Zagallo; ao Santos de Pelé, Pepe e Coutinho; ao Flamengo de Zico e Júnior; ao Palmeiras de Ademir da Guia e Dudu. Hoje, esses jogadores daria bye, bye Brasil antes dos 20 anos.
O fenômeno global se repete na Libertadores: o último título conquistado por um time não brasileiro foi em 2018; de lá pra cá, todos os sete campeões foram daqui. A questão é esportiva, mas, principalmente econômica — o pântano quase permanente em que se meteu a Argentina comprova isso.
O crescimento da indústria do futebol e a valorização das competições abriram uma acirrada disputa entre marcas dispostas a patrocinar tudo o que envolve o mais popular e rico esporte do mundo. A ampliação do número de países em copas aumentou também as oportunidades de negócios — associar sua imagem a seleções que não fazem parte da elite também virou algo interessante para muitas empresas.
E aí vale parafrasear o velho ditado: quem não tem clube, caça com seleção. Colocadas à margem da elite, federações como as de Curaçao, República Democrática do Congo, Marrocos, Bósnia e Herzegovina, Argélia, Haiti, Tunísia, Catar, Senegal e Turquia trataram de importar, pelo menos, dez atletas para formar suas equipes: entre as 48 da Copa, só oito (entre elas, o Brasil) não têm "estrangeiros" entre os seus atletas.
O processo carrega uma ironia histórica. Em muitos casos, esses países escalaram jogadores nascidos em território de seus antigos colonizadores, como os Países Baixos e a França. Há quem possa considerar a manobra uma espécie de gol com a mão. Mas, convenhamos, a concentração de riqueza em tão poucos países, determinante para desequilibrar o jogo, é muito mais injusta.
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