Política

Acessibilidade ainda impõe desafios a eleitores com deficiência durante votação

Número de seções adaptadas cresceu de 156,2 mil nas últimas eleições para 220,5 mil neste ano

Acessibilidade ainda impõe desafios a eleitores com deficiência durante votação
Relatos no Rio mostram dificuldades com escadas, ausência de elevadores e mudanças nas seções eleitorais Crédito: Rovena Rosa

Alexandre Prudente, cadeirante, saiu cedo de casa no domingo (4) para votar na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no Maracanã, na Zona Norte do Rio. A ida ao local, porém, foi marcada por dificuldades. Ao chegar ao oitavo andar, depois de subir dois lances de rampas e utilizar um elevador, descobriu que sua seção havia sido transferida.

Acompanhado de familiares, Alexandre havia escolhido novamente o local onde acreditava que votaria. Na eleição passada, a seção funcionou na Igreja Metodista de Vila Isabel e depois foi transferida para a Uerj. Sem consultar o local de votação pela internet, ele foi até a universidade e só lá descobriu a mudança.

"Minha seção funcionava na Igreja Metodista [de Vila Isabel] e, na última eleição, me transferiram para a Uerj. Agora, tive que subir essa rampa toda para ir votar. Chegando lá, descobri que me mandaram de volta para a Metodista", disse Alexandre.

Depois de retornar ao térreo, o eleitor entrou no carro do filho e seguiu até a Igreja Metodista, a cerca de 1,5 quilômetro da Uerj. No novo endereço, encontrou filas e, mesmo tendo prioridade, esperou cerca de uma hora até conseguir votar.

"Nunca levei tanto tempo para votar. Da outra vez, foi muito mais rápido", lamentou o eleitor. "Mas, no fim, consegui deixar meu voto".

Neste ano, quase 2 milhões de eleitores com deficiência estão aptos a votar, segundo dados da Justiça Eleitoral. O número passou de 1,3 milhão em 2022 para 1,9 milhão em 2026, o maior já registrado.

Com o crescimento do eleitorado, aumentou também a quantidade de seções adaptadas. Ao todo, foram cadastradas 220,5 mil seções com condições de acessibilidade, contra 156,2 mil nas últimas eleições.

Entre os eleitores registrados com deficiência, 617 mil apresentam dificuldades de locomoção. Outros 319 mil têm deficiência visual, 182 mil possuem deficiência auditiva e 64 mil registraram dificuldade para o exercício do voto. A categoria "Outros" reúne 994.472 registros.

Dificuldades também em locais adaptados

A existência de recursos de acessibilidade não impediu que outros eleitores encontrassem obstáculos. Isaura dos Santos, de 77 anos, utiliza bengala e tem dificuldade de locomoção. Para chegar à seção no Colégio Estadual Senor Abravanel, na Zona Sul do Rio, precisou subir escadas.

"Não tem elevador para a gente subir. E no escuro, com a lâmpada apagada. Como pode uma situação dessa?", criticou. "Sempre venho votar, mas melhoria, que é bom, a gente não vê. É daí para pior".

No mesmo local, a atriz Isabela Quadros acompanhou a mãe, Maria Lídia Gomes de Matos, de 85 anos. A psicóloga tem limitações na fala e nos movimentos desde um acidente vascular cerebral e foi votar com a filha.

Segundo Isabela, a escola não possui estrutura adequada para receber a mãe, mas o atendimento facilitou a participação. Ela destacou o auxílio prestado pela mesária.

"A escola não tem estrutura para receber uma pessoa na condição dela, mas, com boa vontade, com a ajuda das pessoas [ela conseguiu votar]. A mesária foi incrível. Sem palavras", elogiou.

Na saída do local, Maria Lídia se emocionou e resumiu o resultado da manhã: "deu tudo certo."

Vistorias nos locais de votação

A Justiça Eleitoral reconhece que as condições de acessibilidade podem sofrer alterações. Grande parte dos imóveis usados nas eleições pertence às redes públicas de ensino ou a instituições parceiras, e a estrutura pode mudar ao longo dos anos.

Por isso, os tribunais regionais eleitorais (TREs) e as zonas eleitorais realizam vistorias periódicas para atualizar os dados e verificar as condições oferecidas aos eleitores.

Pessoas com deficiência têm direito a atendimento prioritário e podem entrar na cabine acompanhadas, mesmo sem solicitação prévia. O acompanhante precisa ter 18 anos e não pode estar a serviço da Justiça Eleitoral, de partidos ou de coligações.

As urnas contam com recursos para eleitores cegos ou com baixa visão, como teclado em braile e instruções por áudio. Para utilizar o recurso de áudio, é necessário usar os fones disponibilizados pela Justiça Eleitoral.