Com a aproximação das Eleições de 2026, os debates sobre política estão se intensificando cada vez mais na esfera pública. Um dos tópicos que tem ganhado força é a atuação dos jovens - em faixa etária dos 15 aos 29 anos - no cenário político brasileiro; tanto no processo eleitoral, tanto como no envolvimento em partidos e movimentos sociais. Estudos recentes sobre o tema demonstram que o grupo tem perdido expressividade nas últimas eleições: segundo dados recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o eleitorado de 2026 é majoritariamente representado pela faixa etária dos 35 aos 49 anos, sendo o grupo de 40 aos 44 o mais largo no cadastro eleitoral. Em contrapartida, a faixa etária dos 21 aos 34 anos diminuiu cerca de 3% em relação às últimas eleições presidenciais, em 2022. No grupo dos 16 aos 18 anos, a diferença é ainda maior: são cerca de 3,5 milhões de eleitores registrados em 2026, equivalente a 2,25% do eleitorado total, contra 4,1 milhões registrados em 2022. A queda nos últimos quatro anos foi de 14,5%.
Estudos também demonstram que a participação dos jovens na militância política ativa está em declínio: segundo um levantamento do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília, feito a partir de dados do TSE, a filiação de jovens de 16 a 34 anos em partidos políticos brasileiros caiu 54% desde 2010, com uma perda de quase 1,5 milhão de filiados.
Observação social
A percepção do afastamento dos jovens da política também é debatida entre especialistas em ciências sociais. Para Roney de Seixas Andrade, que atua como professor de Sociologia há mais de 20 anos, a diminuição do interesse político dos jovens nos últimos anos é perceptível; especialmente, considerando que essa faixa etária é "historicamente revolucionária e progressista". Para o professor, essa realidade é resultado de uma tendência de "individualização" da sociedade, que está deixando de direcionar a atenção para problemas coletivos e não consegue encontrar uma "pauta comum" para se mobilizar. Esse isolamento, para Roney, seria uma consequência de fatores como a cultura digital atual, as lógicas de mercado e a pressão crescente por desempenho individual. "[Isso] dificulta a relação com a política, porque o adolescente não consegue perceber as coisas que ocorrem na sociedade", acrescenta.
O professor observa, ainda, que a polarização que existe entre o eleitorado brasileiro também contribui para a desarticulação política dos jovens: com a influência das opiniões dominantes em seus núcleos familiares e de convívio geral, muitos jovens acabariam adotando posicionamentos políticos que se pautam somente em questões partidárias, sem envolver pesquisas sobre outras políticas e sem buscar conhecimento sobre pautas que sejam de importância para o desenvolvimento da sociedade.
Já Stella Aragão, doutoranda em Sociologia que hoje tem 36 anos e participa de movimentos sociais e políticos da cena jovem desde os 13, sempre teve contato com uma juventude engajada e interessada em intervir ativamente na sociedade. Ela observa que a organização política se torna atrativa, principalmente, aos jovens que não se sentem representados pelo governo e não enxergam perspectivas claras de mudança no sistema atual.
- Certamente, hoje, existe uma ligação entre o que os jovens sentem da sua realidade e perspectiva de futuro com sua relação aos espaços de organização política. Muitos enxergam nas organizações uma possibilidade de atuação que não seja individual, ou seja, que estejam diretamente vinculadas a um projeto político mais amplo - complementa.
Perpectiva da juventude
O jovem Leonardo Scatolino, de 27 anos, é filiado ao partido Unidade Popular (UP) há cerca de um ano. Dentro da organização, ele contabilizou cerca de sete pessoas que também atuam no partido; entretanto, por precisarem conciliar a militância política com trabalho e estudos, acabam sendo menos ativos. Apesar de perceber um interesse de jovens da região em participação política, a parcela ainda é pequena em comparação a faixas etárias mais velhas. "É relativamente comum ver pessoas que se politizam a partir dos 30 anos, um pouco mais 'tarde' na vida", complementa.
Para Leonardo, um vínculo baixo da juventude com as questões políticas é capaz de afetar completamente o cenário social brasileiro; considerando, especialmente, um potencial de alienação e escolhas que desconsideram as demandas sociais brasileiras e dos próprios jovens.
- No nosso país, acontece muito de partidos políticos lançarem candidatos que são figuras públicas muito conhecidas, justamente para buscar um coeficiente eleitoral grande de votos. Esses partidos não têm uma ideologia explícita, então qualquer pessoa pode se candidatar sem nem saber o que terá que defender caso seja eleita. Quem vota nesse tipo de candidato também não está interessado em saber as políticas públicas que ele defende, nem os ideais do partido em que ela está afiliada. Eles veem uma figura carismática e declaram o voto - aponta.
A falta de atenção às pautas defendidas pelos políticos eleitos, na opinião de Leonardo, pode causar consequências negativas diretas ao desenvolvimento social e econômico da juventude. Ele cita como exemplos recentes as discussões de pautas como a escala 6x1, o novo Ensino Médio e a reforma da Previdência. "[A juventude] sente na pele questões cotidianas de trabalho informal, desemprego, precarização da mão de obra e salários baixos. A nossa geração não tem mais perspectiva de buscar uma casa própria, por exemplo. Também já virou um 'senso comum' de que ninguém da nossa geração vai aposentar. É uma coisa triste de se concluir", complementa.
Leonardo observa que uma alternativa para direcionar a atenção dos jovens às necessidades políticas atuais é levar esses debates aos ambientes de convívio social do grupo; em especial, aos ambientes culturais, cuja existência muitas vezes se relaciona diretamente ao cenário político e às necessidades de grupos marginalizados socialmente. "Não precisa que haja, necessariamente, a presença de um partido político em algum evento para que ele seja politizado. A própria arte é capaz de trazer isso, com os temas que explora, os assuntos que toca. É importante politizar as pessoas sobre as coisas que acontecem no mundo e afetam a todos. De fato, não são coisas que queremos observar o tempo todo, porque são assuntos tristes, mas precisam ser falados. A mobilização de jovens já se mostrou capaz de 'frear' esses problemas em várias ocasiões", finaliza.
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