A frase "Eu fico com a pureza da resposta das crianças", da música 'O que É, o que É?', transmite a ideia de que as crianças são puras, sem preconceitos e não devem temer por serem quem são. Isso é o que deveria ser, porém, a realidade para alguns meninos e meninas é diferente por conta da raça. Um caso recentemente relatado na cidade de Petrópolis reacendeu um debate sobre o impacto do racismo nas crianças e jovens negros.
O fato aconteceu durante uma apresentação artística, quando houve um relato de racismo contra uma criança negra durante o Festival Sesc de Inverno 2025. Segundo relatos de artistas e ativistas sociais, o ato aconteceu durante a apresentação do artista circense argentino Palhaço Chacovachi, que, ao convidar uma criança negra para participar de um momento do espetáculo, ficou passando as mãos no cabelo do menino, proferindo a seguinte pergunta: "Você está pensando que estou fazendo um carinho, né? Mas não é carinho, não. Estou limpando a minha mão. E vou limpar a outra".
Então, veio à tona, nas esferas sociais, o quão impactantes são esses atravessamentos para crianças e jovens negros, pois o racismo consiste no preconceito e na discriminação com base em percepções sociais fundamentadas em diferenças biológicas entre pessoas e povos.
Na sociedade brasileira, as pessoas negras convivem com essa realidade todos os dias, e as crianças e os jovens estão entre os grupos afetados por essa situação. Eles crescem em uma estrutura que pode invalidá-los e torná-los invisíveis, tentando apagar seus traços e características, impactando diretamente na forma como se enxergam e agem dentro do corpo social.
"O racismo tira a possibilidade das crianças e jovens negros de sonhar. É algo que infelizmente caminha com pessoas negras desde o seu nascimento e no desenvolvimento infantojuvenil. A construção da autoestima de crianças negras anda em conjunto com a possibilidade de conhecer as suas raízes. Desde usar o cabelo Black até se reconhecer negro através do aprendizado e não através de casos cada vez mais comuns de jovens sofrendo ofensas racistas nas ruas e nas escolas", explica a psicóloga petropolitana, Keila Braga.
Em Petrópolis, a população negra é frequentemente vítima dessa violência. O caso do palhaço é um entre os muitos. Por exemplo, em 2023, a jovem de 21 anos, Joice de Souza, foi vítima de racismo em seu ambiente de trabalho. A jovem relata que foi atingida por cascas de banana e atacada com diversas ofensas racistas por uma mulher enquanto exercia sua função de cobradora. A agressora foi levada para a 105ª Delegacia de Polícia de Petrópolis, no Retiro, onde foi autuada em flagrante pelo crime. Durante a agressão, ela ouviu coisas como "sua preta do cabelo duro". Esse foi o segundo episódio de racismo que Joice sofreu. No primeiro, ela foi chamada de macaca.
A psicóloga Keila Braga ressalta o quão cruel o racismo é no crescimento. "O racismo impacta diretamente o psicológico de crianças e adolescentes. Eles começam a viver em um estado de alerta, com medo da exposição à violência. Ele tenta tirar o lado humano de jovens negros, colocá-los em estereótipos e diminuir a história de cada um deles. Com a saúde mental abalada, esses jovens estão mais propensos a desenvolver algum transtorno de sofrimento mental, como ansiedade, depressão, crises de pânico e traumas profundos, afetando diretamente o comportamento, a maneira de ver o mundo e como ele se insere nesse mundo. A pessoa preta que já começa a vida sofrendo com o racismo não consegue acreditar que tem talentos, habilidades e capacidade de conquistar um futuro digno. Podemos citar a evasão escolar, que é maior entre estudantes negros, segundo o Observatório de Educação e o IBGE", disse.
Nesse viés, a psicóloga reforça a importância do protagonismo e da representatividade nas esferas sociais. "Para amenizar os impactos na vida de jovens negros, precisamos primeiro sair da teoria e ir para a prática. Falar abertamente e verdadeiramente sobre racismo e chamar para a conversa os pais, as escolas e a sociedade. Mostrar as consequências e deixar com que esses jovens possam se recuperar de tantas violências ao longo de sua história. Acolher esses jovens através de atendimento psicológico, conversar sobre saúde mental e mostrar que é possível, sim, vencer cada um dos traumas produzidos pelo racismo, que, além de ser uma prática infelizmente enraizada entre as gerações, é crime inafiançável", declara Keila Braga.
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