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História de família passa por Vassouras e mantém acesa a Fogueira de Xangô

Tradição iniciada há 150 anos por homem negro e nascido escravizado tem parente vivo encontrado no Vale do Café

História de família passa por
Vassouras e mantém acesa a
Fogueira de Xangô
Pioneiro de tradição, Manoel Caetano, como escravo, não podia manifestar crenças da população negra. Mas nunca deixou de acender a fogueira no dia 29 de junho Crédito: Ratão Diniz/Quilombo Mineiro Pau

Mais um ano em que moradores do Quilombo Urbano Mineiro Pau, localizado em Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro, se reuniram em torno de uma fogueira na segunda-feira (29). A tradição começou há mais de 150 anos com Manoel Caetano Madeira, homem negro, nascido escravizado em 1841, no município de Paraíba do Sul, na divisa com o estado de Minas Gerais, cujos padroeiros eram São Pedro e São Paulo.

No sincretismo religioso, o dia de São Pedro é tido como Orixá Xangô. Mas Manoel, como escravo, não podia manifestar crenças da população negra. Viveu até os 41 anos sob o regime da escravidão, mas nunca deixou de acender a fogueira no dia 29 de junho.

"Quando ele começa a dar uma visão maior a essa fogueira, ele a chama de fogueira de São Pedro e São Paulo. Só que, intrinsecamente, ele está acendendo uma fogueira para Xangô e fazendo os seus fundamentos", disse à Agência Brasil o bisneto de Manoel, Fausto Manoel Madeira Neto, que hoje é quem mantém a tradição

A fogueira permitia fortalecer vínculos comunitários, transmitir conhecimentos ancestrais e proteger identidades coletivas. Ao seu redor circulavam histórias, ensinamentos, afetos e formas de resistência que ajudaram gerações a manter vivas suas referências culturais.

Por essa razão, a Fogueira de Xangô não representa apenas uma tradição familiar, mas constitui um patrimônio vivo, uma estratégia de preservação da memória, afirmação da ancestralidade e continuidade cultural que manteve viva a chama da resistência negra.

Manoel trabalhou em fazendas de café e teve 36 filhos com quatro mulheres. E todos moravam com ele. O último tio-avô vivo foi encontrado em Vassouras, cidade do centro-sul do estado.

Ressignificação

Quando Manoel morreu, aos 105 anos, em 1946, seu filho Fausto Manoel Madeira mudou-se para o bairro de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, onde passou a dar continuidade à tradição, fazendo a fogueira, ano após ano. Fausto Manoel Madeira entrou na umbanda e reencontrou o pai de santo ao qual Manoel o dera como presente, em Vassouras. Esse ato é semelhante ao batismo e significa consagrar uma criança à proteção de um Orixá ou guia espiritual.

Essa fogueira ganha então uma ressignificação. Quando o filho de Manoel Caetano morre, em 1988, a fogueira continua sendo acesa no quintal da casa até que Fausto Madeira Neto entrou na umbanda e deu prosseguimento à tradição. "E passei a acender essa fogueira até hoje".

Atualmente, a fogueira é promovida pelo Terreiro de Umbanda São Pedro e São Paulo - Kabiúna do Sertão e a Obra Social Filhos da Razão e Justiça (OSFRJ), coordenados por Fausto Neto.

"Na verdade, essa fogueira é o fundamento do nosso terreiro". Ele herdou do avô a entidade, o nome, a macumba. "Foi a maior e mais bela herança que ele me deixou: a responsabilidade de dar continuidade ao trabalho dele."

Festa

Desde o tempo do avô, sempre houve uma festa muito grande em torno da fogueira. Depois que ele morreu, os descendentes trouxeram a fogueira para o terreiro, quando Fausto Manoel Madeira Neto assumiu todo o processo de responsabilidade.

- É uma festa muito grande. As pessoas amam. O pessoal fica aguardando. É uma festa muito esperada, um acontecimento. As crianças no quilombo ficam loucas; já estão montando bandeirinhas e reverenciam Xangô e os santos São Pedro e São PaulO - disse. Segundo Fausto Neto, trata-se de uma questão de pertencimento.

Por Alana Gandra (Agência Brasil)