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após as investigações

Denúncias de falhas graves de conduta provocaram mudanças no asilo

 após as investigações

Por Lanna Silveira

Em 2023, o Lar dos Velhinhos, em Volta Redonda-RJ, foi alvo de atenção em toda cidade após investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). A apuração contou com depoimentos e mandados de busca, constatando possíveis atos de negligência, improbidade administrativa e maus-tratos aos idosos. Na época, o processo resultou no afastamento do então presidente João Sales, substituído por Otávio Gama.

Desde junho de 2025, o Lar está sob a gerência de Gabriel Dotta. O atual presidente chegou ao asilo com experiências anteriores com entidades sociais de Barra Mansa, tendo auxiliado a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) e o Asilo da Vila Vicentina, além de ser formado em Administração de Empresas. Em entrevista ao Correio Sul Fluminense, Gabriel e sua equipe falaram sobre como a administração e o funcionamento do Lar dos Velhinhos se modificaram em comparação às gestões anteriores. Ele aposta na transformação da imagem negativa que as denúncias criaram sobre o asilo em toda a região.

O início da gestão

Gabriel começou a auxiliar a instituição ainda na presidência de Otávio Gama. Desde o início, ele reconheceu as dificuldades que viriam com a função de assumir o asilo. Para ele, todas as informações que vieram à tona fizeram com que o Lar perdesse a credibilidade da sociedade e da própria Prefeitura de Volta Redonda, que sempre prestou apoio à instituição.

O dirigente avalia que um dos maiores problemas era "a falta de capacidade em fazer a gestão do asilo" nos anos anteriores. Essas falhas seriam responsáveis por dificultar o funcionamento de qualidade do asilo: a maior delas seria um grande montante em dívidas, que estaria embargando investimentos em melhorias.

— No início de 2025, comecei a reconhecer algumas coisas que não eram muito corretas com relação ao [asilo]. Eu acho que faltou muito conhecimento. O Gama, claro, teve problemas em relação a captar dinheiro. Mas o maior problema foi a ingerência. O Gama já pegou uma dívida enorme de gestões passadas; em torno de R$ 800 mil, tanto de tributário quanto ações trabalhistas — detalhou o presidente.

Gabriel afirma que sua equipe procura reverter os impactos negativos do passado e não repetir certas condutas: salários não estariam atrasados desde o início de sua gestão e pontos graves de atendimento e cuidado que existiam anteriormente se tornaram foco de observação. Uma das medidas tomadas por ele foi substituir uma série de membros da equipe cujo comportamento corroborasse com a desorganização e improbidade das antigas gestões. Também foram promovidas capacitações dentro da equipe, além da reformulação de processos internos.

Após as investigações, o presidente afirma que busca manter diálogo com o MPRJ sobre as dificuldades de gestão do asilo. Segundo ele, o Ministério chegou a promover mais uma fiscalização do espaço em março deste ano e não foram constatadas falhas de funcionamento ou administração. O Correio Sul Fluminense entrou em contato com a equipe do MPRJ para confirmar a fiscalização e perguntar sobre o parecer do ministério; foi informado pela assessoria que informações a respeito desse processo não podem ser informadas, já que ele tramita sob sigilo.

As denúncias do MPRJ

Uma das constatações feitas pela investigação do MPRJ era de que o Lar dos Velhinhos não possuía médicos em seu quadro de funcionários: apenas uma suposta médica voluntária, que nunca teria prestado atendimento presencial aos idosos, sendo conhecida como "Dra. On-line".

Também foram encontradas receitas em branco assinadas pela médica na casa da responsável técnica pela instituição, que confirmam declarações de testemunhas que alegam que os medicamentos eram prescritos, de fato, pela responsável técnica do asilo, e não pela doutora. Recentemente o asilo voltou a ser alvo de queixas; dessa vez, por uma moradora de Volta Redonda, que preferiu manter anonimato. Segundo ela, o asilo possuía apenas três cuidadores contratados para cuidar dos idosos. A moradora questionou ainda a distribuição desses cuidadores entre os hóspedes.

O que diz a administração

Em resposta a essas alegações, o presidente esclareceu que a contratação de médicos não é imposta por lei aos asilos - conforme previsto na Lei n° 8049, da Alerj. Entretanto, ele garante que o Lar dos Velhinhos reconhece o diferencial da presença médica no espaço.

Segundo ele, atualmente o Lar conta com o auxílio de dois médicos que prestam o serviço voluntariamente; um deles comparece ao local todas as quartas, enquanto o outro presta auxílio em situações de necessidade maior.

Quanto ao número de contratados para a equipe médica do asilo, ele informou que são nove técnicos de enfermagem e 23 cuidadores, com dois técnicos e cuidadores atuando por plantão. O asilo, atualmente, possui 72 idosos: dentro de determinação de instituições como o Conselho Federal de Enfermagem, não é obrigatório que haja um cuidador e técnico por idoso hospedado, havendo uma quantidade mínima determinada a partir de graus de dependência. Gabriel afirma que o ideal seria aumentar o quadro de funcionários, mas que o investimento, neste momento, se tornaria inviável para a administração.

As dependências do asilo

Outro questionamento com relação ao asilo são as instalações. Uma inspeção, em 2023, constatou diversos pontos de perigo nas dependências do asilo, como janelas e portas com vidraças quebradas; cadeiras de roda e de banho amontoadas em quartos; e caixas contendo resíduos tóxicos e materiais cortantes armazenados de forma indevida.

A atual equipe do Lar assegura que atualmente a segurança é vistoriada por empresas especializadas, como o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO).

A equipe do Correio Sul Fluminense também pôde fazer uma visita nas dependências do asilo, incluindo quartos; enfermarias; estoques de alimentos, de produtos de limpeza e higiene pessoal e de remédios; salas de atividade; entre outros cômodos. Nenhum sinal de falta de segurança ou desordem foi identificado nessa visita.

Outro ponto citado em denúncias anteriores é de que existia uma negligência na reposição de insumos, como alimentos e medicações, além de falta de organização com as necessidades médicas dos idosos. Conforme explicado pela equipe, os insumos são repostos mensalmente e adquiridos a cada 15 dias. Existem outros funcionários responsáveis por fazer o controle do estoque e alertar para a necessidade de reposição.

A redação do Correio também teve acesso ao espaço de controle da rotina médica dos idosos: foram mostrados todos os remédios em estoque, devidamente catalogados em relação aos idosos que os utilizam, além dos relatórios das rotinas de medicação e consultas médicas de cada hóspede. Gabriel reforça que toda essa organização, de fato, não era feita em gestões anteriores.

— Quando a Priscila (enfermeira responsável) entrou na equipe [ainda na gestão anterior], a gente ficava até uma hora da manhã para poder fazer esse catálogo das medicações rápido. Era uma bagunça de controle: não tinha informação de quem entregou o remédio, nem de qual idoso era. Hoje temos uma técnica de farmácia colocada no quadro só para controlar a parte de medicação — explica.

O asilo também passou a investir em novas atividades para aumentar qualidade de vida dos idosos, que, segundo a equipe, não eram promovidas anteriormente: atividades culturais fora do asilo, promoção de uma horta com plantio comandado pelos idosos, instalação de Wi-Fi em toda a área, e outras. O presidente reconhece necessidades que ainda precisam ser cumpridas no asilo, como a substituição do asfalto das áreas abertas - considerado pouco ideal para a segurança dos idosos -, e a inclusão de elevadores, para que idosos de maior grau de dependência possam acessar a área superior.

Ele afirma, por fim, acreditar que o andamento da recuperação financeira do asilo permitirá a execução de novas melhorias.