Um adolescente de São Paulo, de apenas 16 anos, criou uma plataforma para ajudar o público jovem nas eleições deste ano. O site votae.org traz informações sobre o sistema político brasileiro e os cargos em disputa, com o objetivo de ajudar a nova geração de eleitores antes de ir às urnas.
Maurício Melzer, criador da plataforma, percebeu dificuldade para entender o cenário político e escolher os candidatos ao tirar o título de eleitor. "Eu não sabia o que um senador fazia, não sabia a importância do Congresso, de um deputado. Comecei a pesquisar, acabei montando o site e descobri que muitos dos meus amigos também não sabiam. Então eu falei: opa, tem um problema aqui", disse à TV Brasil.
A plataforma votae.org informa sobre cargos e candidatos, com dados retirados do site oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os jovens de 16 a 24 anos representam 12% do eleitorado brasileiro. São 19 milhões e 200 mil eleitores.
— A gente traduz essa linguagem aí, que talvez pareça um pouco grande, desconfortável para o jovem que está começando agora o envolvimento político, votando pela primeira vez. Então, temos essa maneira de conversar com o jovem, para ele entender melhor como funciona o sistema brasileiro — explicou Maurício.
Nestas eleições, são quase 21 mil candidatos em todo o país. Somente no estado de São Paulo, que é o maior colégio eleitoral do país, são cerca de 2.600 candidatos. Na urna, o eleitor deverá votar para presidente da República, governador, dois senadores, deputado federal e estadual.
No site do TSE, estão todos os candidatos por estado e cargo disputado, e há informações sobre financiamento das campanhas. Para Vitor Amaral, secretário de comunicação do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), é importante que o eleitorado mais jovem participe neste contexto de eleições. Ele destacou o engajamento desse público no ambiente digital.
— Quando eles se envolvem, trazem aí soluções, acredito que é uma possibilidade realmente de aproximar esse público, que é um público importante também no eleitorado. Um público que vai também ajudar a decidir as eleições — disse Vitor.
Perda da expressividade
O encolhimento da atuação dos jovens na política - tanto no processo eleitoral, como no envolvimento em partidos e movimentos sociais - já é uma preocupação antiga; o tópico tem ganhado força com a aproximação das Eleições de 2026. Estudos recentes sobre o tema demonstram que o grupo tem perdido expressividade nas últimas eleições: segundo dados recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o eleitorado de 2026 é majoritariamente representado pela faixa etária dos 35 aos 49 anos, sendo o grupo de 40 aos 44 o mais largo no cadastro eleitoral. Em contrapartida, a faixa etária dos 21 aos 34 anos diminuiu cerca de 3% em relação às últimas eleições presidenciais, em 2022. No grupo dos 16 aos 18 anos, a diferença é ainda maior: são cerca de 3,5 milhões de eleitores registrados em 2026, equivalente a 2,25% do eleitorado total, contra 4,1 milhões registrados em 2022. A queda nos últimos quatro anos foi de 14,5%.
Estudos também demonstram que a participação dos jovens na militância política ativa está em declínio: segundo um levantamento do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília, feito a partir de dados do TSE, a filiação de jovens de 16 a 34 anos em partidos políticos brasileiros caiu 54% desde 2010, com uma perda de quase 1,5 milhão de filiados.
A percepção do afastamento dos jovens da política também é debatida entre especialistas em ciências sociais. Em entrevista ao Correio Sul Fluminense, o sociólogo Roney de Seixas Andrade analisa que a diminuição do interesse político dos jovens nos últimos anos é perceptível; especialmente, considerando que essa faixa etária é "historicamente revolucionária e progressista". Para o professor, a realidade é resultado de uma tendência de "individualização" da sociedade, que está deixando de direcionar a atenção para problemas coletivos e não consegue encontrar uma "pauta comum" para se mobilizar. Esse isolamento, para Roney, seria uma consequência de fatores como a cultura digital atual, as lógicas de mercado e a pressão crescente por desempenho individual. "[Isso] dificulta a relação com a política, porque o adolescente não consegue perceber as coisas que ocorrem na sociedade".
O professor observa, ainda, que a polarização que existe entre o eleitorado brasileiro também contribui para a desarticulação política dos jovens: com a influência das opiniões dominantes em seus núcleos familiares e de convívio geral, muitos jovens acabariam adotando posicionamentos políticos que se pautam somente em questões partidárias, sem envolver pesquisas sobre outras políticas e sem buscar conhecimento sobre pautas que sejam de importância para o desenvolvimento da sociedade.
Já Stella Aragão, doutoranda em Sociologia que hoje tem 36 anos e participa de movimentos sociais e políticos desde os 13, sempre teve contato com uma juventude engajada e interessada em intervir ativamente na sociedade. Ela observa que a organização política se torna atrativa, principalmente, aos jovens que não se sentem representados pelo governo e não enxergam perspectivas claras de mudança no sistema atual.
- Certamente, hoje, existe uma ligação entre o que os jovens sentem da sua realidade e perspectiva de futuro com sua relação aos espaços de organização política. Muitos enxergam nas organizações uma possibilidade de atuação que não seja individual, ou seja, que estejam diretamente vinculadas a um projeto político mais amplo - complementa.
*Com informações da Agência Brasil e da TV Brasil
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