Paraty encerrou o mês de julho vivendo, mais uma vez, um de seus momentos mais emblemáticos. Durante cinco dias, a cidade histórica foi tomada pela literatura, pela arte e pelo encontro entre culturas com a 24ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), realizada entre os dias 22 e 26 de julho. Com 21 mesas da programação principal, além da Flipinha, da FlipZona e de centenas de atividades paralelas espalhadas pelo Centro Histórico, o município reafirmou sua condição de uma das principais capitais culturais do país.
Quem caminhou pelas seculares ruas de pedra percebeu que a literatura transbordou dos auditórios e ocupou cada canto de Paraty, que fez jus ao título de Patrimônio Mundial da Humanidade. Casarões coloniais abriram espaço para lançamentos de livros, debates, saraus e exposições. Nas praças, artistas se apresentavam ao ar livre. Livrarias temporárias, editoras independentes e coletivos culturais dividiam espaço com músicos, ilustradores e contadores de histórias.
Era impossível percorrer o Centro Histórico sem ser surpreendido por alguma manifestação artística. Entre uma mesa literária e outra, turistas e moradores se misturavam pelas estreitas ruas. A caminhada, quer castiga os pedestres por conta das pedras, acabou transformando-se em uma experiência. "Se não tiver fila e todo esse burbirinho, a festa literária perde a graça", cravou Luiz Antônio, ao comentar o aumento no número do público que foi à Flip. Segundo organizadores, o total de pessoas chegou a 40 mil este ano. Um recorde, quando comparado a outras edições do evento.
Cada pedacinho exalava arte
Uma árvore coberta por orquídeas chamou a atenção de centenas de visitantes e acabou se transformando em um dos cenários fotografados da festa. Ou seja: em meio às ruas históricas, a natureza também foi observada pelos turistas, que não deixavam escapar nada. Na Casa das Favelas, outro exemplo. O encanto dos visitantes era com miquinhos, popularmente conhecidos como saguis ou soins, que pulavam em galhos de uma árvore logo na entrada da casa, onde uma argentina vendia bolos e café.
A movimentação chegou ainda em ruas e bairros fora do Centro Histórico. Moradores improvisaram em seus quintais estacioamentos e aproveitaram para terem uma renda extra. Foi cobrado em torno de R$ 40,00 a R$ 100,00 dos motoristas, dependendo do tempo que o carro permanecia nos locais. "A gente atende os que precisam de parar o carro", disse Carlos André, um dos que oferecia espaço para estacionar no bairro Patitiba, próximo do Centro Histórico, onde a cultura efervescia.
Orides Fontela
A autora homenageada desta edição foi a poeta Orides Fontela, cuja obra inspirou a programação principal. A obra de Orides Fontela inclui os livros Transposição (1969), Helianto (1973), Rosácea (1986), além de Alba, vencedor do Prêmio Jabuti em 1983, e Teia, que lhe rendeu prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) em 1996.
Natural de São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, Fontela se formou em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), além de ter sido professora primária e bibliotecária. Seu poema "Elegia", publicado em 1965 no jornal sanjoanense O Município, chamou a atenção de Davi Arrigucci Jr., professor de teoria literária da USP, projetando-a no meio literário. Ao longo de sua carreira, a autora contou com o apoio de entusiastas como o crítico literário Antonio Candido e a filósofa Marilena Chaui.
"Dona de uma poesia concisa e despojada de ornamentos, e afeita aos poemas curtos, Orides Fontela recebeu atenção extraordinária da crítica literária, que via nela uma renovadora do Modernismo, e mesmo de poetas consagrados, como Drummond. É uma referência incontornável no cenário da poesia contemporânea brasileira", afirmou Rita Palmeira, curadora literária da 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty.
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