Projeto Florescer

Projeto Florescer devolve autoestima a mulheres após mastectomia

Iniciativa gratuita em Nova Friburgo realiza micropigmentação em aréolas e mamilos, e cobre cicatrizes cirúrgicas com tatuagens

Projeto Florescer devolve autoestima a mulheres após mastectomia
Rodrigo Catuaba é especialista em tatuagem realista e oferece micropigmentação gratuita de mamilos e aréolas Crédito: Reprodução

O câncer de mama afeta profundamente a saúde física e o bem-estar emocional das pacientes, deixando cicatrizes visíveis e marcas profundas na autoestima de quem passa pela mastectomia. Há 13 anos, o projeto Florescer atua na reconstrução desse cuidado em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, oferecendo tatuagens realistas de aréola e mamilo totalmente gratuitas para mulheres que enfrentaram a doença.

Fundada em 2013 pelo tatuador carioca Rodrigo Catuaba, a iniciativa transformou-se em uma rede permanente de acolhimento e reconstrução pessoal para pacientes de todo o país.

A ideia do projeto surgiu quando o profissional atendeu Simone, sua primeira cliente mastectomizada, que pediu por uma tatuagem que reconstruísse a aréola. Como um especialista em realismo colorido, Rodrigo adaptou sua técnica para reproduzir visualmente o mamilo perdido na cirurgia de remoção do tumor.

Após o primeiro procedimento bem-sucedido, Catuaba procurou a Associação das Mulheres Mastectomizadas (AMMA) de Nova Friburgo e colocou o serviço à disposição da comunidade sem qualquer custo. Com o passar do tempo, a repercussão nas redes sociais, as indicações e o reconhecimento da comunidade médica consolidaram a iniciativa.

O método substitui novos procedimentos cirúrgicos complexos por um processo ágil que dura cerca de uma hora no estúdio.


Tatuagens também cobrem cicatrizes

Como a demanda principal do Projeto Florescer, a reprodução da aréola exige um estudo minucioso sobre tons de pele, texturas e proporções anatômicas. Paralelamente, o projeto conta com a atuação da tatuadora Claudia Bastos, responsável pela cobertura artística de cicatrizes deixadas pelas intervenções cirúrgicas nas mamas, costas e abdômen. Para suavizar as marcas do tratamento de forma delicada, são utilizados desenhos suaves com elementos da natureza, como ramos e borboletas.


Histórias de superação

Além do impacto estético, a convivência diária com as histórias das pacientes transformou a percepção de vida do fundador, que ouve relatos marcantes de abandono conjugal, isolamento social e dificuldades financeiras enfrentadas durante a batalha contra a doença.

"Quando você tem contato com uma mulher dessas, você aprende a nunca mais reclamar de nada. O câncer afeta o psicológico, a mulher fica mutilada e perde a autoestima. Elas relatam que não conseguem mais se despir ou ir à praia por causa do julgamento. Ouvir essas histórias e poder devolver um pouco de dignidade é um aprendizado constante", ressalta o tatuador Rodrigo Catuaba.

Ao longo de 13 anos de Projeto Florescer, Rodrigo Catuaba ressalta histórias de superação de mulheres já atendidas pelo projeto. Em conversa com o Correio da Manhã, ele citou uma mulher que foi abandonada pelo marido após o diagnóstico de câncer de mama, ficando sem plano de saúde e tendo que trabalhar enquanto enfrentava o auge da doença e contar com doações de amigos e parentes para sobreviver.

"E quando você conversa com a pessoa, dá para perceber o peso. É como se fosse culpa dela em ter ficado doente e o marido, que deveria apoiá-la, tivesse ido embora. É muito triste saber que realidades como essas existem", ressaltou o tatuador.

Ao mesmo tempo, também existem histórias inspiradoras de amor e cumplicidade, como o exemplo de um marido acompanhando a esposa no processo de tatuagem do mamilo. "Alguns dizem: 'Por mim, nem precisava fazer a tatuagem, mas se ela quer, então eu apoio'", afirma Rodrigo Catuaba.


Atendimento gratuito é um compromisso rigoroso

Atendimento gratuito é um compromisso rigoroso
Tatuagens em cicatrizes também são gratuitas para mulheres mastectomizadas Crédito: Reprodução / @projetoflorescer.ca

Além da reconstrução estética, a rotina do projeto Florescer revela os bastidores de um apoio fundamental para mulheres de diversas origens, oferencendo algo além do serviço: a escuta e o acolhimento diante da vulnerabilidade física e emocinal de mulher que passam pela batalha contra o câncer de mama.

Por isso, para o fundador do projeto, dar visibilidade a essa realidade e estender a mão sem cobrar nada é o verdadeiro propósito da iniciativa. A gratuidade é um compromisso mantido rigorosamente desde a criação da ação em 2013.

Catuaba reforça que recusa propostas para comercializar cursos ou ensinar as técnicas para clínicas de estética com fins lucrativos. "Eu seleciono muito bem que eu ensino, porque a ideia é justamente essa. O projeto tem 13 anos, eu nunca cobrei de ninguém. Então, quem quem tem interesse de fazer e quer aprender, eu só ensino se eu ver que vai manter a gratuidade", esclarece Rodrigo.

O material de trabalho, como agulhas e pigmentos específicos, conta com o suporte de patrocinadores do ramo de suplementos e artigos de tatuagem.

Em 13 anos de atendimento, o Projeto Florescer já ultrapassou mais de mil atendimentos. São cerca de duas mulheres atendidas por semana, ou seja, em um mês, contabilizam-se, mais ou menos, oito atendimentos de tatuagens mamárias.

Como participar

Para participar, o procedimento exige apenas uma autorização por escrito do médico responsável pelo acompanhamento da paciente. Esse laudo garante que a pele da área cirúrgica está devidamente cicatrizada e apta para receber a pigmentação com total segurança, prevenindo complicações em tecidos mais sensíveis.

O agendamento é centralizado em um canal exclusivo de WhatsApp para organizar a demanda semanal de atendimentos, sendo (22) 99611-1922. Além disso, o trabalho do Projeto é divulgado nas redes sociais, sendo @projetoflorescer.ca, no Instagram.