Pequena África

BNDES e Prefeitura do Rio anunciam obras do Distrito Cultural Pequena África

Projeto reúne requalificação urbana e três novos equipamentos na Região Portuária

BNDES e Prefeitura do Rio anunciam obras do Distrito Cultural Pequena África
Anúncio reuniu a liderança municipal, autoridades do BNDES, e dos ministérios da Cultura e da Igualdade Racial Crédito: Marco Antonio Lima / Prefeitura do Rio

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Prefeitura do Rio de Janeiro anunciaram, nesta quarta-feira (21), avanços na consolidação do Distrito Cultural Pequena África. O projeto compreende a requalificação urbana da Praça dos Estivadores e a implementação de três novos equipamentos na Região Portuária: o Conservatório da Música Preta Brasileira, a Biblioteca Machado de Assis e A Fábrica.

A iniciativa integra o programa Valongo Patrimônio Vivo e contará com um aporte de R$ 23 milhões, articulados entre investimentos públicos e captações privadas.

Durante o anúncio oficial no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), na Gamboa, o prefeito Eduardo Cavaliere ressaltou a importância da intervenção para a memória e a infraestrutura da cidade. "O Distrito Cultural Pequena África é memória, mas é, acima de tudo, futuro. Essa região é muito mais do que uma prioridade de governo: é absolutamente necessária para construir o futuro do Rio de Janeiro e do Brasil", declarou o chefe do Executivo municipal.

Em seu discurso, a diretora socioambiental do BNDES, Tereza Campello, destacou que o projeto vai além da recuperação física e envolve também a preservação da memória e do patrimônio imaterial da região.

A diretora socioambiental do BNDES, Tereza Campello, ressaltou que o planejamento partiu do diálogo e do acolhimento das lideranças do território. "A construção do Distrito Cultural Pequena África exige escuta, participação e construção coletiva. Escolhemos um caminho mais complexo, que valoriza o território e as pessoas que mantêm viva sua memória, cultura e história. Esse processo leva mais tempo, mas é fundamental para que o projeto seja sustentável e represente a resistência e a riqueza cultural da Pequena África.", afirmou.

A solenidade contou com as presenças da ministra da Cultura, Margareth Menezes, e da ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, que reforçaram o impacto da agenda para a reparação histórica, reconhecimento da memória negra e o fortalecimento do turismo e da economia criativa no município.


Município investe R$ 2 milhões

A requalificação da Praça dos Estivadores receberá R$ 2 milhões do município. O local passará por intervenções de paisagismo, instalação de mobiliário urbano, ampliação de áreas sombreadas, iluminação em LED e sinalização informativa com totens históricos e mapas da região. O projeto busca integrar a praça aos pontos culturais vizinhos, como a Casa Tia Ciata, os Jardins Suspensos do Valongo, a Casa João de Alabá e a sede do Afoxé Filhos de Gandhi.


Equipamentos culturais

Os novos equipamentos previstos para a Pequena África receberão acordos de cooperação técnica para execução. A Biblioteca Machado de Assis contará com R$ 8 milhões para a restauração de um imóvel da Fundação Biblioteca Nacional, abrigando acervo especializado em literatura afro-brasileira, auditório, salas de exposição e terraço cultural.

O Conservatório da Música Preta Brasileira, idealizado em parceria com o Instituto Cultne no Largo da Prainha, também receberá R$ 8 milhões para estruturar estúdios de gravação, salas de ensaio, formação musical, fortalecendo a transmissão dos saberes ligados à música e às manifestações culturais da região, garantindo a permanência viva dos ritmos negros como patrimônio e linguagem contemporânea.

Já a Fábrica, em cooperação com a Fundação Darcy Vargas, terá investimento de R$ 5 milhões voltado ao empreendedorismo afrocentrado, capacitação técnica e apoio à economia solidária negra. Também funcionará como uma estrutura de apoio ao desenvolvimento de negócios ligados à identidade cultural do território.


Projeto combina resgate histórico e urbanismo

Projeto combina resgate histórico e urbanismo
Visão aérea do Cais do Valongo, que recebeu obras de valorização Crédito: Prefeitura do Rio

O Distrito Cultural Pequena África se consolida como uma das iniciativas de requalificação urbana e resgate histórico mais abrangentes do país. Estruturado a partir do conceito de museu de território, o plano organiza o espaço público do Centro do Rio como uma rede viva de memória e produção cultural.

A formulação do projeto foi pautada por um processo contínuo de escuta social e oficinas promovidas com o apoio do Comitê Gestor do Sítio Arqueológico Cais do Valongo, IPHAN e BNDES.

Entre as diretrizes estabelecidas, ficou determinada a cota mínima de 30% de profissionais negros nas equipes contratadas, além da obrigatoriedade de curso de letramento racial para os técnicos envolvidos no planejamento.

As intervenções urbanísticas e culturais estão fundamentadas em quatro pilares principais: guarda, formação, difusão e produção. Além dos novos centros de conhecimento, o plano abrange a qualificação de logradouros emblemáticos da Região Portuária, como a Rua Camerino, a Praça da Harmonia, a Ladeira do Livramento e a Promenade do Valongo.

O projeto prevê ainda melhorias de arborização, estímulo à mobilidade ativa, estudos para habitação de interesse social e apoio ao restauro de sedes históricas, como a do Afoxé Filhos de Gandhi e do Instituto Pretos Novos, além de fortalecimento das associações comunitárias locais.

A relevância do Distrito Cultural ganha dimensão pela história do próprio território. Reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial, o Cais do Valongo foi o principal ponto de desembarque de africanos escravizados nas Américas entre 1774 e 1831. A região dos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo transformou-se em berço da resistência negra, do samba e de manifestações religiosas e culturais impulsionadas por figuras marcantes como Tia Ciata, Hilário Jovino e João Alabá.

A requalificação urbana conecta passado e presente, assegurando a preservação do patrimônio e o desenvolvimento sustentável da comunidade.