Rio de Janeiro

PF faz operação contra policiais que vendiam armas e vazavam informações para Peixão

Núcleo criminoso contava com agentes da ativa e ex-policiais e movimentou R$ 173,7 milhões

PF faz operação contra policiais que vendiam armas e vazavam informações para Peixão
Fuzil apreendido durante operação contra policiais e ex-policiais que vazavam informações e vendiam armas para o traficante Peixão, do Complexo de Israel Crédito: Divulgação / PF

A Polícia Federal, em conjunto com o Ministério Público do Rio (MPRJ), realiza a Operação Magen, na manhã desta quarta-feira, para desarticular uma quadrilha que contava com policiais da ativa e ex-PMs que vendia armas e vazava informações para o chefe do tráfico no chamado Complexo de Israel, Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, um dos criminosos mais procurados do Rio, e também alvo da ação. 

Cinco pessoas já foram presas, entre eles os três ex-PMs e um policial militar alvos dos mandados. O quinto, Marcel Rodrigues Fernandes, foi preso em um hotel na Barra da Tijuca e estava com um fuzil. Ele é ex-assessor parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).

Os agentes cumprem sete mandados de prisão preventiva e 18 mandados de busca e apreensão em diversos bairros da capital (Barra da Tijuca, Copacabana, Parada de Lucas e Vila da Penha), além dos municípios de Nova Iguaçu, Angra dos Reis, Mesquita, Nilópolis e Seropédica.

A Justiça também determinou o bloqueio, após pedido do MPRJ, de mais de R$ 250 milhões de grupo denunciado por lavagem de dinheiro, fornecimento de fuzis a Peixão e acesso a sistemas sigilosos de segurança. Entre os alvo do sequestro de judicial, estão pessoas físicas e empresas de fachada. 

A investigação, conduzida pelo Grupo de Investigações Sensíveis (GISE/PF/RJ) e pelo Grupo de Atuação Especializada de Defesa da Integridade e Repressão à Sonegação Fiscal (GAESF/MPRJ), identificaram que a quadrilha mantinha um núcleo estruturado para a obtenção, transporte e revenda clandestina de material bélico. O grupo comercializava fuzis de uso restrito, revólveres, pistolas, carregadores e munições.  Peixão.

As informações reveladas pela PF também apontam que o grupo recebia fuzis e equipamentos policiais como forma de comissão ou pagamento pelas transações. Os criminosos contavam com a atuação dos agentes da segurança pública — incluindo um policial civil e um policial militar da ativa, além de ex-policiais —, os quais utilizavam o acesso funcional a sistemas restritos da Administração Pública.

Vitor Hugo Marinho Garcia, o Batata, é ex-policial militar e apontado como líder da organização criminosa e um dos principais fornecedores de armas e informações privilegiadas a Peixão. Em uma das transações identificadas, em outubro de 2022, o ex-PM teria transportado e vendido ao chefe do TCP dez fuzis AR-15.

Os envolvidos consultavam nas bases da polícia e repassavam aos líderes da quadrilha dados sigilosos referentes a mandados de prisão em aberto, endereços, registros de veículos e alvos de ações policiais em andamento. As informações restritas eram exploradas tanto para alertar comparsas e evitar a repressão policial, quanto para conduzir investigações clandestinas voltadas à extorsão e à obtenção de lucros ilícitos.

Em outra negociação, segundo a denúncia do MP, José Carlos Ribeiro de Campos, o Ferrugem, ex-policial militar, é acusado de fornecer dois fuzis Colt M4 e quatro carregadores para revenda por integrantes do grupo. Já Johan Borja Portela, policial militar, teria colocado à venda um revólver calibre .38, nove pistolas Glock 9 mm e 22 carregadores.

Os recursos obtidos com as atividades criminosas eram lavados através de empresas, contas bancárias e bens registrados em nome de terceiros para dissimular a origem de recursos e ocultar patrimônio. As apurações revelaram o esquema movimentou R$ 173,7 milhões, entre contas pessoais e de pessoas jurídicas de fachada. A renda é totalmente incompatível com as rendas declaradas dos investigados, segundo a PF.

Patrimônio milionário incompatível

A apuração das análises bancárias e fiscais identificou movimentações e patrimônio considerados incompatíveis com os rendimentos declarados por integrantes do grupo. Segundo a denúncia, foram usadas empresas, contas bancárias e bens registrados em nome de terceiros para dissimular a origem de recursos e ocultar patrimônio.

As cinco empresas relacionadas no pedido de bloqueio movimentaram, juntas, aproximadamente R$ 173,7 milhões. Os valores correspondem à soma de créditos e débitos identificados pela investigação. São empresas dos ramos de alimentação, comércio de materiais e construção e reforma, usadas no esquema de lavagem de dinheiro.

Segundo a denúncia, Vitor Hugo Marinho Garcia movimentou cerca de R$ 31,9 milhões entre 2019 e 2023 e possuía patrimônio estimado em mais de R$ 5 milhões. Já Marcel Rodrigues Fernandes, que atuou como assessor parlamentar na Alerj até outubro de 2025, movimentou aproximadamente R$ 33,2 milhões no mesmo período, sem fonte de renda compatível. Ele não declarava à Receita Federal bens móveis ou imóveis em seu nome, mas possuía patrimônio estimado em quase R$ 3 milhões. Eduardo Thales Lopes Pires, também ex-policial militar, e que também já ocupo cargo comissionado na Alerj, movimentou aproximadamente R$ 33,4 milhões entre 2019 e 2023.

A investigação identificou uma conversa entre Vitor e Marcel, em que o primeiro explica que poderia utilizar sua empresa de crédito para movimentar dinheiro em espécie de terceiros e reinserir os valores na economia formal com aparência de licitude.

A ação penal encaminhada à Justiça atribui a Vitor e à sua companheira, Amanda de Souza Braga, a utilização da empresa VHMG Assessoria Construção & Reforma Ltda. para lavagem de capitais e ocultação patrimonial. Eduardo e sua companheira, Caroline Souza Vilela Barcelos, são acusados de utilizar a Forte Outlet Ltda., também denominada Forte Porcelanato BR Ltda., para movimentar e dissimular recursos.

Já Marcel e Danielle Rodrigues Gomes teriam utilizado, entre outras empresas, a Brutus Beer Ltda., em Angra dos Reis, para misturar recursos de origem lícita e ilícita. A Mega Frade Sucos e Lanches Ltda. e a Brutus Salgados Ltda., vinculadas a Marcel, também são descritas como instrumentos do esquema.

Amanda, Caroline e Danielle foram denunciadas por lavagem de dinheiro, mas não são alvos de mandados de prisão. As três são alvo de medidas cautelares diversas da prisão. Segundo o GAESF/MPRJ, as condutas atribuídas a elas estão relacionadas ao uso de pessoas jurídicas e contas bancárias para dissimulação patrimonial.

Vazamento de informações dos sistemas das forças de segurança

A investigação também identificou como eram usados os sistemas das forças de segurança para obter informações sigilosas para identificar e localizar pessoas e obter vantagens financeiras. O responsável pelos acessos, segundo a denúncia, era o policial civil Carlos Barnabé Santos Souza, o Alemão, que consultava o Portal de Segurança do Estado e repassava a Eduardo e Vitor dados sobre proprietários de veículos e endereços.

Em um episódio, Alemão teria informado a Eduardo a localização de um procurado da Justiça e a existência de um mandado de prisão, para que ele chegasse ao alvo antes da polícia. Para o GAESF/MPRJ, o objetivo seria obter dinheiro através de extorsão.

A investigação também aponta o acesso a dados de geolocalização de celulares e a registros de circulação de veículos, em benefício do grupo. Uma das consultas teria a finalidade de auxiliar um homem investigado por homicídio, mediante pagamento.

O MPRJ requereu ainda a retenção dos passaportes dos alvos de prisão preventiva e a comunicação à Polícia Federal para inclusão dos mandados no sistema da Interpol, diante do risco de evasão do país.

Os envolvidos foram denunciados e responderão, na medida de suas condutas, pelos crimes de organização criminosa armada, comércio ilegal de armas de fogo e munições, violação de sigilo funcional, usura e lavagem de capitais, sem prejuízo de eventuais outros delitos que possam ser revelados no curso das apurações.