Morador da Nova Holanda há mais de 40 anos, Gustavo Sales nunca imaginou que uma conta de água pudesse simbolizar uma mudança tão profunda. Conhecido pelos vizinhos como Mohamed, o comerciante viu a regularização do abastecimento mudar sua relação com um direito básico justamente enquanto a Maré recebe a maior obra de saneamento já realizada em uma comunidade do Rio de Janeiro. Com investimento de R$ 120 milhões, a intervenção da Águas do Rio reúne melhorias no fornecimento de água e no esgotamento sanitário para beneficiar cerca de 200 mil moradores das 16 comunidades, além de representar um passo importante para a recuperação da Baía de Guanabara.
"Agora eu existo. Hoje tenho um comprovante de residência no meu nome. Se faltar água ou qualquer coisa parecida, posso ligar e exigir meus direitos", afirma.
A declaração resume uma mudança que vai além da chegada da água às torneiras. Durante décadas, milhares de famílias conviveram com serviços informais e sem acesso pleno aos direitos garantidos aos consumidores. Com conclusão prevista para o fim do ano que vem, o projeto atua em duas frentes. Além da implantação de mais de 2 quilômetros de redes de abastecimento e da regularização de cerca de 60 mil imóveis, estão sendo construídos 4,5 quilômetros de tronco-coletor e 18 quilômetros de redes secundárias. A estrutura impedirá que cerca de 1,3 bilhão de litros de esgoto por mês continuem sendo lançados na Baía de Guanabara.
Tecnologia aumenta a eficiência e agiliza respostas
A modernização também passa pela tecnologia. O sistema de distribuição será setorizado, reduzindo interrupções do fornecimento durante manutenções. Toda a operação será monitorada automaticamente pelo Centro de Operações Integradas da Águas do Rio, na Praça Mauá, aumentando a eficiência e a rapidez na resposta às ocorrências.
Se Gustavo vê nessa mudança a conquista da cidadania, Rosimere Gomes a reconhece nas ruas onde vive desde que nasceu. Aos 65 anos, a cuidadora de idosos acompanhou por décadas o esgoto correr a céu aberto e as enchentes levarem dejetos para dentro das residências, cenário que favorecia a proliferação de doenças e comprometia a qualidade de vida de milhares de famílias.
"Essa obra era muito necessária. Já trabalhei para pessoas que tiveram leptospirose. Inclusive, um vizinho faleceu por conta dessa doença", conta.
A iniciativa já começou a pôr fim a problemas constantes como extravasamentos, mau cheiro, alagamentos e o retorno de esgoto para dentro das casas. Todo o efluente coletado será encaminhado para a Estação de Tratamento de Esgoto Alegria, no Caju, contribuindo para a melhoria da qualidade ambiental da região e da Baía de Guanabara.
Os benefícios também chegam por meio da geração de empregos. A concessionária do grupo Aegea vem priorizando a contratação de moradores da própria comunidade para atuar nas diferentes frentes de trabalho, aliando geração de renda, capacitação profissional e desenvolvimento local. Na família de Rosimere, esse avanço tem nome e sobrenome. "Meu genro e meu sobrinho estão trabalhando na obra. A vida só melhora, o pior já passou."
Para Renan Mendonça, diretor-executivo da Águas do Rio, a dimensão da intervenção vai muito além da infraestrutura instalada.
"Quando uma família passa a viver com mais saúde, um morador conquista acesso formal a um serviço essencial ou um jovem da comunidade encontra uma oportunidade de trabalho dentro do próprio território, o saneamento deixa de ser apenas infraestrutura e passa a representar desenvolvimento, cidadania e qualidade de vida. É esse legado que queremos construir na Maré", disse ele.
Menu