Política

Há 40 anos, o Concreto rachou em Brasília

Plebe Rude faz audição comentada do seu disco de estreia neste sábado

Há 40 anos, o Concreto rachou em Brasília
Edição de luxo celebra álbum icônico da história do rock brasileiro Crédito: Divulgação

A banda Plebe Rude realiza, neste sábado (24), uma audição comentada de seu primeiro álbum, “O concreto já rachou”, na Oto Livraria, na 302 Norte, bloco E, loja 39, subsolo, em Brasília. O encontro celebra os 40 anos do lançamento do disco e apresenta ao público a edição deluxe da obra, que reúne o LP em capa dupla e um compacto com gravações demonstrativas feitas antes da produção do álbum. A entrada é gratuita, condicionada à lotação do espaço.

A programação ocorre das 14h às 18h e contará com a presença dos fundadores da banda, André X, baixista, e Philippe Seabra, vocalista e guitarrista. Com mediação do jornalista Pedro Brandt, os músicos vão comentar as sete faixas do trabalho e relatar aspectos dos processos de composição e gravação. A audição do LP está prevista para as 16h. As sessões de autógrafos serão realizadas das 14h30 às 15h30 e das 17h às 18h. O disco também estará à venda no local.

Lançado em 1986, “O concreto já rachou” integra a história do rock brasileiro dos anos 1980 e reúne canções que tratam de desigualdade social, repressão e contradições políticas. Entre as faixas mais conhecidas estão “Até quando esperar”, “Proteção” e “Brasília”. As letras abordam questões sociais e a relação entre os cidadãos, as instituições e o poder público, temas que marcaram a produção da banda desde o início da carreira.

A nova edição inclui uma capa no formato gatefold, com abertura em duas partes, e um compacto com demos gravadas pelo grupo antes do LP. O material permite acompanhar uma etapa anterior à versão que chegou ao mercado e contextualiza a preparação do álbum. A audição comentada propõe revisitar as músicas a partir das lembranças dos integrantes que participaram de sua criação.

Da cena brasiliense ao rock nacional

Formada em Brasília em 1981, a Plebe Rude surgiu em meio à movimentação musical que consolidou a capital federal como um dos centros do rock brasileiro. A banda foi criada por Philippe Seabra, André X, Jander Bilaphra e Gutje Woorthmann, jovens que encontraram no punk rock uma referência sonora e uma forma de expressão para questionar a realidade política e social do país.

A formação do grupo está ligada à cena independente que se desenvolveu em Brasília no fim dos anos 1970 e no início da década seguinte. Ensaios em garagens, encontros entre músicos e apresentações em espaços locais ajudaram a estabelecer uma rede de bandas que passou a produzir repertório próprio. Nesse ambiente também surgiram grupos como Aborto Elétrico, que esteve na origem de projetos como Legião Urbana e Capital Inicial.

A distância dos principais centros da indústria fonográfica não impediu que os músicos brasilienses desenvolvessem uma produção com características próprias. A presença de jovens de diferentes origens familiares e o convívio em áreas residenciais da capital favoreceram a circulação de referências musicais internacionais, especialmente do punk britânico. A Plebe Rude incorporou essa influência a letras em português que abordavam problemas brasileiros.

A trajetória da banda acompanhou a transição política do país nos anos 1980, período marcado pelo processo de redemocratização e pela mobilização em torno de direitos civis e participação política. Nesse contexto, as composições do grupo deram espaço a críticas à desigualdade, à violência institucional e às relações de poder. A capital federal, sede dos órgãos centrais do governo, também se tornou referência recorrente no repertório.

O primeiro trabalho da Plebe Rude chegou ao público em 1986, com produção de Herbert Vianna, integrante dos Paralamas do Sucesso. O disco ajudou a ampliar o alcance nacional da banda e estabeleceu parte do repertório que continuaria associado ao grupo nas décadas seguintes. “Até quando esperar” aborda a desigualdade e a concentração de recursos, enquanto “Proteção” trata da relação entre os indivíduos e as estruturas de autoridade. A faixa “Brasília” apresenta uma leitura crítica da cidade e de sua dimensão política.

O álbum se insere em uma geração de artistas que ampliou a presença do rock na música popular brasileira e levou questões políticas ao repertório de bandas com circulação nacional. Ao lado de outros nomes ligados à capital, a Plebe Rude contribuiu para consolidar a imagem de Brasília como espaço de produção musical e de articulação de uma juventude interessada em discutir o país por meio da cultura.

Após o lançamento, o grupo continuou a gravar e a se apresentar, com mudanças de formação e períodos de interrupção ao longo da carreira. Em 1987, lançou “Nunca fomos tão brasileiros”, que manteve a crítica política entre os temas centrais. A banda atravessou dificuldades nos anos seguintes, mas retomou atividades e voltou a se apresentar para diferentes gerações de público. Sua discografia passou a reunir trabalhos de estúdio e registros ao vivo, mantendo a produção autoral como parte de sua identidade.

A permanência de “O concreto já rachou” no repertório do rock nacional está associada tanto às canções quanto ao contexto em que foram produzidas. Quatro décadas depois do lançamento, a edição deluxe e a audição comentada oferecem uma oportunidade de revisitar o processo de criação do álbum e sua relação com a história musical de Brasília.