Política

Na largada do segundo turno, Flávio Bolsonaro reúne apoios e avança sobre o Centrão

Após receber Tarcísio e conquistar adesões de Caiado e Zema, candidato do PL amplia articulação. Especialistas apontam peso político das alianças, mas ponderam transferência de votos

Na largada do segundo turno, Flávio Bolsonaro reúne apoios e avança sobre o Centrão
A senadora Tereza Cristina anunciou o apoio da União Progressista a Flávio Crédito: Reprodução/vídeo

Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador reeleito pelo estado de São Paulo, passou pelo QG de Flávio Bolsonaro em Brasília pela manhã desta terça-feira (6). Horas depois, em Goiânia, Ronaldo Caiado, que era candidato à Presidência pelo PSD, subiu ao palanque do candidato do PL e formalizou apoio no segundo turno. Romeu Zema, candidato pelo Novo, já havia feito o mesmo. Em dois dias, a campanha de Flávio passou a colecionar adesões de antigos adversários e a avançar sobre partidos do Centrão que haviam mantido distância no primeiro turno.

O movimento ganhou corpo. Além de Caiado e Zema, a federação União-PP anunciou apoio à candidatura do PL. O Podemos caminha para uma decisão semelhante, enquanto o Republicanos ainda discute a adesão. Tarcísio, reeleito em São Paulo, assumiu papel na articulação para aproximar outras siglas.

Peso das adesões

A sequência produz uma fotografia que interessa à estratégia de Flávio: demonstrar, já no início do segundo turno, capacidade de reunir setores que estiveram separados na primeira etapa da eleição. Mas a imagem de unidade partidária não responde sozinha à principal questão das próximas semanas: quanto desse apoio chega efetivamente ao eleitor.

Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, as adesões têm peso porque combinam força política, estrutura partidária e um novo desenho do Congresso.

“O apoio do Caiado, do Zema e do Centrão, sem dúvida nenhuma, pode trazer um efeito positivo para a candidatura do Flávio Bolsonaro”, afirma.

Centrão menor

Prando chama atenção especialmente para o crescimento do PL nas eleições legislativas. Na avaliação dele, parte do avanço da legenda ocorreu sobre o espaço antes ocupado por partidos de centro, o que muda a correlação de forças para 2027 e ajuda a explicar o reposicionamento dessas siglas.

“O Centrão é relevante. O Centrão é um elemento que dá governabilidade a qualquer governo. Agora, o Centrão saiu menor nessa eleição porque o PL tomou cadeiras do Centrão no Congresso”, diz.

No primeiro turno, partidos de centro evitaram uma adesão nacional. Em vários estados, sobretudo no Norte e no Nordeste, alianças locais e a força eleitoral de Lula tornavam mais custoso um alinhamento prévio com Flávio. Encerrada a votação, essas legendas passaram a recalcular a posição.

Transferência não é automática

Para o especialista, uma decisão tomada pelas cúpulas não transfere votos automaticamente, mas pode colocar estruturas partidárias, lideranças regionais e candidatos eleitos em movimento.

“Uma orientação nacional das principais lideranças do Centrão pode colocar essa máquina descentralizada de partidos para trabalhar em prol de Flávio Bolsonaro. Significa que isso vai reverter em voto? Provavelmente algum”, pondera.

É justamente aí que aparece o limite das adesões. Caiado e Zema podem dividir palanque com Flávio, mas os eleitores que os escolheram no primeiro turno não necessariamente seguirão a mesma direção.

Quem não foi

O especialista em Direito Eleitoral Arthur Rolo avalia que a segunda etapa será atravessada menos pela soma mecânica dos apoios e mais pela capacidade de mobilizar quem ainda não está consolidado, principalmente os 33 milhões que não compareceram às urnas. “O apoio dos candidatos, dos deputados, dos partidos, das coligações é importante, mas isso não necessariamente muda o voto dos eleitores”, afirma.

Para Arthur Rolo, a abstenção passa a ser uma das principais frentes de disputa. Num cenário marcado pela rejeição aos dois candidatos, convencer parte de quem ficou em casa pode ter impacto relevante. “Na minha opinião, o candidato que convencer os eleitores que não votaram no primeiro turno a votar terá mais chance de conseguir um resultado melhor no segundo turno”, diz.

Lula chama governadores

Enquanto Flávio amplia o arco de alianças, Lula também passou os primeiros dias do segundo turno reunido com aliados e revendo a campanha após um resultado abaixo do esperado pelo entorno petista. Na segunda-feira (5), o presidente convocou governadores, senadores eleitos e candidatos que ainda disputam segundos turnos nos estados para um encontro em Brasília. Entre os chamados estavam Elmano de Freitas, Jerônimo Rodrigues, Rui Costa, Jaques Wagner, Rafael Fonteles, todos do PT, e outras lideranças que tiveram desempenho positivo nas disputas regionais. A avaliação é usar essas estruturas para reforçar a mobilização territorial e reduzir a abstenção.

As reuniões também expuseram problemas internos. Aliados apontaram falhas de comunicação, dificuldades de coordenação entre núcleos da campanha e cobraram mudanças mais profundas para a nova etapa. Lula reconheceu problemas na comunicação e passou a acompanhar mais diretamente as peças de propaganda. A equipe também discute maior centralização das decisões e participação mais ativa de aliados que tiveram campanhas bem-sucedidas, sobretudo no Nordeste.

Na estratégia eleitoral, uma das linhas é elevar a rejeição a Flávio, associando propostas econômicas defendidas pelo campo do adversário ao risco de redução de programas sociais e benefícios. A campanha quer ainda dar mais espaço à segurança pública, adotar estratégias específicas por região e buscar o eleitor que não compareceu ao primeiro turno. Lula também sinalizou que pretende participar dos debates para confrontar diretamente Flávio.

STF

Outro ponto revisto é a relação com o STF. Depois de uma campanha em que havia orientação para evitar entrar diretamente na crise da Corte, aliados passaram a avaliar que a associação política entre Lula e ministros do Supremo trouxe desgaste. O presidente elevou o tom das críticas ao tribunal nesta semana, num movimento que também integra a tentativa de reposicionar o discurso para o segundo turno.

O especialista Arthur Rolo chama atenção justamente para o peso da rejeição. “Quem rejeita menos o Lula vota no Lula, quem rejeita menos o Flávio Bolsonaro vota no Flávio Bolsonaro e quem rejeita os dois não vota, paga multa, justifica, enfim”, afirma.

O Cientista Político Rodrigo Prando não vê necessariamente uma reformulação profunda da candidatura de Flávio para acomodar Caiado e Zema. Segundo ele, a incorporação de propostas dos antigos concorrentes tende a ter mais valor simbólico e de comunicação.

“Flávio pode fazer um gesto de incorporar algumas questões ou temas de Caiado e de Zema, trazer isso para a campanha, trazer isso para a mídia. Seria um movimento simbólico e de comunicação política”, afirma.

A aproximação do Centrão, porém, não olha apenas para 25 de outubro. Caso Flávio vença, as alianças construídas durante o segundo turno poderão servir como ponto de partida para uma base no Congresso. É nesse ponto que, para o cientista, eleição e governabilidade começam a se encontrar. “Se Flávio de fato for eleito presidente, isso já é uma antecipação do que acontecerá em 2027”, diz, ressaltando que a análise depende do resultado das urnas.