Em entrevista exclusiva ao jornalista Cláudio Magnavita, publisher do Correio da Manhã, Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e porta-voz da equipe econômica de Flávio Bolsonaro, critica a condução econômica do governo Lula, aponta aumento de gastos, impostos e endividamento e defende uma mudança de rumo na gestão do país. Ela também fala sobre o papel da Caixa, segurança pública e as propostas econômicas no caso da eleição de Flávio. Confira a primeira parte da entrevista a seguir:
CLÁUDIO MAGNAVITA- O Correio da Manhã, aqui em São Paulo, conversa com a Dani Marques. Daniella Marques, a gestora do que é o pensamento econômico da campanha do Flávio Bolsonaro e, quem sabe, vai ser o olhar dos próximos anos da economia brasileira. Dani, vamos começar, em relação a princípios... O fato de ser de uma família de classe média, de Barra Mansa, você comentava antes da entrevista que a sua avó tem uma pensão de três mil reais e que os netos ajudam, todo mundo ajuda. Isso ajuda a compreender o Brasil real, o Brasil que está desassistido nos últimos anos?
DANIELLA MARQUES - Ajuda muito e isso dá o propósito, na verdade, de me doar para cuidar das pessoas e retribuir aquilo que eu consegui conquistar. O que me deu essa visão do Brasil real foi quando, no governo do presidente Bolsonaro, eu fui presidente da Caixa. E aí viajei o Brasil inteiro, ouvindo histórias e ajudando com programas e vendo aquela potência, me transformou mais ainda. Eu fui com esse ímpeto de saber que a vida estava piorando muito para a minha família, eu falo que a origem não determina o destino. Eu consegui crescer, mas como é que a gente faz as outras pessoas crescerem também? E um governo, ele se torna o motor e o desenvolvedor das capacidades. Então, eu vejo muito, Magnavita, a assistência social como algo extremamente necessário, mas como um primeiro passo e não o último, né? Você acolhe aquela família, aquela mulher no seu estágio mais vulnerável, mas aquilo não pode ser um fim, tem que ser um início de uma jornada onde o próprio Estado dá outros passos. Então, eu tenho isso muito claro, assim, de onde a gente veio e como chegou e por que chegou. E ali, quando eu trabalhei com o ministro Paulo Guedes, foi um aprendizado muito grande desse Brasil profundo e como um governo pode ser o promotor desse crescimento, desse voo das pessoas, gerando oportunidades, capacitação, articulação de soluções entre governos estaduais e prefeituras. Foi um aprendizado muito grande para mim e uma transformação não só profissional, mas principalmente pessoal.
CM: Agora, Daniela, o fato de você ser uma executiva de sucesso, antes foi da iniciativa privada, o Paulo Guedes também, e de repente aparece, pelo destino, uma oportunidade histórica de transformar, ou até de retribuir para o país um pouco do que se ganhou. Isso poucas pessoas têm esse sentimento de história, porque todo mundo pensa na sua conta na Suíça, na sua conta bancária, na questão patrimonial, mas poucas pessoas se entregam como o Paulo Guedes se entregou. E perdeu dinheiro por causa disso, porque deixou de ir lá nos negócios dele. Nós dois, assim, deixamos tudo. Então, me fala um pouco desse sentimento de responsabilidade do gestor de poder aceitar o convite da história.
DM: É senso de missão mesmo, assim. O Paulo deixou uma contribuição que a história ainda vai reconhecer e premiar, o momento mais desafiador que todos nós vivemos, que foi o enfrentamento da pandemia. Nunca ninguém, nem nos estudos, em estudos de economia, você faz teste de estresse, teste de risco, ninguém nunca... nem... falava: qual é o pior cenário? Nem numa suposta previsão do pior cenário alguém dimensionou um choque econômico daquela magnitude, causado por uma crise de saúde. E podem falar o que quiser, o fato foi que o Brasil recuperou em V, né, e foi um dos países mais bem-sucedidos do ponto de vista econômico na gestão da crise, e isso é mérito justamente dessa sabedoria e dessa visão dele. E esse sentido da doação é que você pode ter, e a gente está nesse momento de novo, que é um momento de colapso absoluto. A hora que a segurança pública... você senta na zona de privilégio que a gente está e chegou, você senta num jantar no Rio de Janeiro, nós dois, eu morava no Rio de Janeiro antes de ir para Brasília, e a conversa da mesa é qual é o grau de blindagem do seu carro e se aguenta tiro de fuzil ou não. O que está acontecendo? Então a gente hoje vive uma crise moral, institucional, um colapso de segurança pública e uma crise econômica que, numa realidade de uma má gestão de um governo, que trouxe mais falência a empresas do que a própria Covid, que era uma crise econômica muito pior, produzida pela má gestão.
CM: Você tem uma linha do tempo que eu diria que metade do governo Bolsonaro foi consumido no enfrentamento de uma pandemia. Não só o enfrentamento com o lockdown, fechamento geral, olhar para o céu e não vir um avião passar, quer dizer, a gente esquece do que foi isso. Você tem depois a recuperação do Brasil, a preservação de emprego, preservação de negócios, lucros econômicos, usaram as ferramentas que foram criadas pelo Ministério da Economia, e você vê a entrega de um Brasil com as contas arrumadas, as estatais dando lucro, o país entrando no eixo e, de repente, em quatro anos, o cenário muda completamente. Vai ser complicado, no caso da vitória do Flávio, voltar à estaca zero do ponto que vocês deixaram para poder reconstruir o Brasil? Como é que você vê a diferença do que foi o governo que vocês entregaram, numa transição altamente civilizada, com os governos que possivelmente vocês possam receber?
DM: Eu vejo dois pecados, vamos dizer assim, as consequências dessa crise estão aí. Quando você está num país que tem a maior taxa de juro real do mundo, mais do que a Rússia, que está em guerra neste momento, a maior carga tributária da nossa história e criaram ou elevaram mais de 30 impostos para tentar fechar o buraco do país de contas nos vermelhos, esfolando os empreendedores. A hora que você tem mais de seis mil empresas entrando em recuperação ou falindo só nesses últimos seis meses, sendo que na pandemia não foram duas mil, e principalmente mais de 80% das famílias brasileiras endividadas não conseguindo pagar suas contas e se endividando para pagar conta básica, não para comprar um carro, né, ou a primeira casa, como era a classe média na época do meu pai, todo mundo está vendo que alguma coisa deu errado. Qual é o pecado original? Assim, pra mim tem duas causas principais. A primeira é a gastança. Então, quem não cuida das contas não cuida das pessoas. Quando você, de forma contínua, gasta mais do que arrecada e vai tentando esfolar o setor produtivo pra fechar essa conta e a conta não fecha, esse é o pecado original, que tem como consequência o aumento de preço lá na gôndola, e não é uma sensação que o supermercado está caro, nós sabemos que está, e o carrinho tá mais vazio. Por quê? Todo esse ciclo tóxico e nocivo de gastar descontroladamente, tentar aumentar imposto para pagar o buraco, tanto esse juro quanto esse imposto está refletido no preço dos serviços e dos alimentos. Esse é o primeiro pecado original. Qual é o outro pecado original? Quando você tem um câncer, um tumor, você vai num oncologista, né? Então você não vai num dentista, ou você não vai num banco. Então, esse governo, além de produzir uma gastança como foi a de um a dois, que levou o Brasil para uma recessão sem nenhuma crise externa, a gente viu um aparelhamento sem precedentes da máquina do Estado de novo. Sim, alguns números para te ilustrar. O presidente Bolsonaro, num decreto em março de 2019, para justamente a gente botar as contas no azul, cortou quase 20 mil cargos comissionados, cargos que existiam para você colocar os seus amigos e não serviam para nada, vide os resultados das pastas. E o PT agora, se você está endividado lá no seu Correio da Manhã, você contrataria mais 200 pessoas? Não, você fica tentando enxugar custos. Eles recontrataram 22.500 pessoas. Por que eles fazem isso? Porque está no estatuto do PT que quem é indicado por eles tem que pagar dízimo para o partido. Então isso é um ciclo vicioso. E aí, quando você aparelha a máquina do Estado de novo, por pessoas que não têm capacidade técnica para ocupar, você coloca no Ministério do Turismo alguém que não entende de turismo, Ministério da Saúde alguém que não entende de saúde, no Ministério da Economia alguém que não entende de economia, e assim vai, e na gestão das estatais, pessoas que não têm formação, o resultado é ruim. Então não é muito difícil entender, mesmo um brasileiro mais simples, ou o meu filho que tem 11 anos, que como as estatais, passando por uma pandemia, deram um resultado superior a 15 bilhões e agora só o Correio tem um buraco de 10? Má gestão, má resultado, para não fazer ilação sobre outras coisas. Então houve um retrocesso. Então, para mim, a combinação das duas coisas é que é a metástase do que a gente vê dessa bagunça que está o Brasil hoje.
CM - Mas como consertar isso? Porque vai ter que ter um choque de ordem. Isso significa o quê? Demissão, enxugamento da máquina, redução...
DM - Isso significa, primeiro de tudo, o Flávio… eu estou aqui como porta-voz de um time muito robusto que está vindo com ele nesse espírito público de servir e transformar o Brasil. Então eu, o Adolfo Sachsida, já anunciamos ainda na campanha mais de dez PhDs em economia que estão contribuindo. O Adolfo coordena 27 grupos que trazem sugestões e, trazendo, redigindo medidas, são mais muitas pessoas. Você tem o doutor Cláudio Lottenberg, foi presidente por dez anos do maior hospital de referência do Brasil. Você tem o Adriano Pires na Energia. Então, a hora que o Flávio se cerca de pessoas que têm autoridade nos temas, isso é autoridade, é uma autoridade movida a conhecimento.
CM - Esse respeito ao especialista e a carta branca dada ao especialista, eu diria que foi uma das marcas do presidente Jair Bolsonaro. Você convivia com ele, ele acordava às cinco horas da manhã, queria saber das coisas, mas ele tinha uma coisa chamada carta branca, autonomia. Ele respeitava a opinião, ele não procurava entender de economia, ele delegava. O Flávio tem esse mesmo DNA?
DM - Muito, houve muito. Mas o que funciona, Magnavita? É a combinação, é uma independência de pensamento, não de execução, porque os técnicos, eles trazem a visão e a formulação técnica, e você tem o ouvido no povo, aquilo que é o anseio do povo. Então o Flávio, assim como o presidente Bolsonaro, ele me ligava às cinco da manhã todo dia e eu tive o privilégio de conviver, despachar com ele. E eu fazia o despacho, eu comia dobradinha com ele, eu comia o pastel, ele era um líder muito generoso, mas ele era o quê? O que o vendedor de churrasquinho quer? Ele era uma antena. Ele era uma antena, captando o anseio do povo. Esse é o papel da liderança política. É isso que o Flávio, quando o Flávio fala pra mim, Dani, eu quero que a Caixa seja o Itaú ou o Bradesco da favela e da periferia, qual é a tradução técnica disso? Ora, se nós temos orientação financeira nos nossos investimentos, nos nossos negócios e as estruturas do setor financeiro servem a quem tem renda mais alta... E você tem um banco que é 100% estatal, com um time técnico capacitado, que chega em 99,5% dos municípios. Vamos preparar esse time para levar não só a política pública na porta giratória, que é o que a Caixa faz hoje, mas para explicar para o cara que ele pode formalizar o negócio dele e não perder o Bolsa Família, para explicar como ele troca uma dívida cara por uma dívida mais barata. Então ele vem com esse sentimento e esse olhar político, é essa combinação que dá resultado. Um governo só de técnicos não daria o resultado porque os técnicos não têm esse... Então o Flávio faz interface com a necessidade popular. E tem o terceiro pilar, que é com a realidade do Congresso Nacional, que vai ser soberano para aprovar, e ele tem 20 anos de vida pública, então ele conhece onde o calo aperta, e eu conheci o Flávio justamente no governo do presidente Bolsonaro.
CM - As pessoas falam em experiência administrativa do Flávio, mas ele fazia o interface do governo.
DM - Total. Ele ajudou muito a gente, muito, muito. Então, como os ministros ali do Palácio eram generais, também não tinham tanto essa visão da realidade política, ele me ajudava muito: “olha, esse senador é do estado tal, aqui que o calo aperta, esse é aqui, vamos por ali, esse está contra, este está a favor”. Então ele, para ele também, ele foi um líder informal ali e ele nos ajudou muito, e por isso eu me motivei agora a ajudá-lo e a servir de novo, porque aprendi muito sobre essa realidade.
CM - Você aceita o rótulo de Paulo Guedes de saia ou você acha que isso tem um certo preconceito?
DM - Quando eu disse numa entrevista que eu não queria ser o Paulo Guedes de saia, mais uma reverência a ele, porque eu acho ele uma força tão superior intelectualmente a mim, e eu tive o privilégio de conviver com ele 11 anos, foram três doutorados pra mim, mas ele é um economista, doutor em economia, com uma experiência, uma bagagem de vida diferente da minha. Então, assim, não somos coisas comparáveis. Então é mais uma reverência a ele do que uma questão se isso é machismo ou não. Eu não ligo muito pra essas coisas, não.
CM - Qual o momento de bastidores, fora a pandemia, evidente que ali é um problema atípico, que você sentiu que estava colhendo resultados, que você e Paulo tiveram, tipo, puxa, o Brasil está funcionando, estão reagindo às nossas ideias. Qual um momento que você pode pensar, assim, que você sentiu que, de forma concreta, aquela política aplicada no governo Bolsonaro estava dando certo?
DM - Com certeza a reforma da Previdência. Foi uma construção coletiva e um senso de responsabilidade do brasileiro de que aquilo era necessário, não por algo individual, mas porque o resultado ia impactar todos positivamente. Então, quando você bota um milhão de pessoas na Paulista gritando: “um trilhão, Paulo Guedes tem razão”, numa reforma que, em tese, foi colocada como um sacrifício, e o resultado se provou porque o país voltou a crescer. Então esse foi um momento.
CM - Mas ali houve um instrumento muito inteligente de comunicação, de levar mensagem ao público. Isso é fundamental, o governo se comunicar bem.
DM - Exato. E por isso eu tenho feito um esforço agora muito grande, nesse aprendizado, de tentar falar de economia de uma forma mais simples, porque essas promessas vazias eleitoreiras ninguém aguenta mais. O brasileiro perdeu a fé nisso. Agora, então ele está vendo que a vida está ruim, ele fica olhando essa confusão toda no jornal e fala: “como é que a minha vida vai melhorar?”. E eu tenho tentado falar, em vez de falar de superávit, ajuste fiscal, falar assim: o orçamento do governo é igualzinho ao da sua casa. E quem não cuida das contas não cuida das pessoas. É ali que está o estrago, e a gente tem feito uma campanha muito honesta intelectualmente nesse sentido, e eu tenho tentado trazer esses exemplos justamente para que as pessoas entendam que, a hora que o governo baixa o combustível numa canetada, essa canetada tem um custo do outro lado que faz subir duas vezes o preço de forma indireta no que eles fizeram.
CM - Agora, como o governo resolve liberar uma ferramenta que está atingindo o consumo, está atingindo o varejo, criando endividamento, criando o problema social, que é a questão das Bets? Você acha que a questão das apostas, da questão do endividamento, principalmente pela classe C, porque, como você fala, a pessoa está endividada, aí aparece lá um instrumento no celular que ela pode, de repente, ganhar, e às vezes ganha um pouquinho, mas... e que deixa de pagar aluguel… Como é que você vê essa questão das bets versus o consumo, versus endividamento e versus essa comoção social? Porque é importante lembrar que a regulamentação das bets é uma portaria do Ministério da Fazenda.
DM - E que está gerando uma bela arrecadação para eles tentarem fechar o buraco que eles mesmos criaram, né? Então, a bet é como quando você tá com febre ou quando aparece erupção na sua pele, aquilo é o sintomático de uma doença que você tem que investigar, né? A febre é um sintoma. A bet é um sintoma de quê? De um cidadão que está desesperado. Então ele joga na Bet esperando um milagre todo dia, porque não sabe como chega no final do mês. E aí, mais uma vez, o Lula faz um discurso direcionado para as pessoas mais vulneráveis, se aproveitando da baixa escolaridade e dessa vulnerabilidade, você fala: “Ora, se ele regulamentou a BET, se ele permitiu que houvesse propaganda de BET, né?. As pessoas são superestimuladas, todos os times de futebol, na mídia e tal, você está super estimulado a pegar aquele milagre. Aí arrecada 40, 60 bi daquilo pra encher o cofre e depois fala: A BET é nociva”. Não. É como distribuir cigarro com uma carinha de criança colorida. Então eu acho que as pessoas estão percebendo que estão sendo enganadas. A mesma coisa é o 6 por 1. Se você chegar e falar assim, se eu chegar pro meu filho hoje e falar: “você quer jogar bola ou ir para escola? Ele vai responder que quer jogar bola”. Então você, um governo impor um único tipo de jornada de trabalho no intuito de enganar uma mãe como eu, né, que fala assim: Olha, você vai ter mais um dia pra descansar e ficar com seus filhos, como se isso não tivesse custo nenhum e, principalmente, como se não houvessem outras jornadas, a gente também é a favor da 5 por 2, mas e as enfermeiras que trabalham em regime de plantão? Os hotéis, os comissários, lá no Rio, o setor de petróleo, e quem vai para a plataforma 14 dias e volta? Então, assim, é criminoso, assim, é um escárnio ele prometer algo e engessar toda a economia do país numa carga horária única, dizer que isso não tem efeitos econômicos e levar uma propaganda pra fechar, pra chegar pra uma mãe e falar assim: Você vai ter um dia de descanso. Ela pode perder o emprego dela e ver se ela está disposta?
CM - E deixar para anunciar isso ou votar no interregno de um possível segundo turno. Quer dizer, o uso eleitoral mais evidente disso é impossível, né?
DM - Enquanto isso, esconde qual é a alíquota da reforma tributária que eles fizeram para depois da eleição, porque os técnicos já informaram que um imposto de 28% de consumo, de valor agregado, a CBS e a IBS, vai ser o maior do mundo. Onde o presidente da Latam, você falou do setor de aviação e do turismo, já informou que a Latam paga hoje R$2 bi de impostos, vai passar a pagar R$6 bi, e quem vai pagar essa conta é o passageiro. Então vai ficar mais, a passagem que já está cara, né, vai ficar mais distante ainda para as pessoas de classe média, de classe baixa voarem, até para as pessoas mais ricas voarem.
CM - Eu queria voltar na questão da Caixa Econômica, porque você foi uma grande presidente da Caixa, está aí os números, você entregou a Caixa, se tornou um banco sólido e, sobretudo, com a visão social. A Caixa é a maior gestora de contratos públicos e não só gestora, como fiscalizadora. Mas e a Caixa como o banco do povo? A Caixa como o banco da favela, como você falou? Como é que você vê que é possível? Porque você é filha de um funcionário de carreira do Banco do Brasil, que é outra instituição. Caixa e Banco do Brasil se reúnem como instituições financeiras. Como é que você vê a importância que a Caixa tem e também aproveitando o Banco do Brasil dentro dessa equação, já que o seu pai foi funcionário do banco, foi gerente do banco e faz parte do DNA da família.
DM - Meu pai entrou como escriturário e terminou como gerente geral. A Caixa hoje é o banco operador de todas as políticas públicas do governo federal, PPC, o pagamento do INSS, Bolsa Família, FIES, tudo passa. Então todo brasileiro tem uma história com a Caixa, são mais de 160 milhões de clientes. Qual é a ressignificação do papel da Caixa que a gente faz no plano? Ao invés dela ser um banco obsoleto como está hoje, na era da tecnologia e do digital, a gente chama no plano econômico do Flávio de banco da prosperidade. O que é esse banco da prosperidade? É você ir lá e buscar o seu Bolsa Família, mas não só isso. Tanto no seu celular, com uma inteligência artificial, quanto capacitando o time da Caixa, que é fantástico, né? A Caixa hoje tem 90 mil empregados. Na época que eu fiz o Caixa pra Elas, que foi um programa de inclusão financeira, em 40 dias, na própria Universidade Caixa, a gente capacitou 8 mil pessoas para irem pra ponta, ouvir e ajudar o cidadão a resolver o problema dele. Então o cidadão comum, uma boleira dentro da favela, tem uma lojinha de bolo, ela não sabe como é que ela emite uma nota fiscal, como é que ela abre uma MEI, ela tem medo de abrir a MEI, né? E ela: Agora vou ter que pagar imposto, agora vão me pegar, vou perder meu Pix. Então tem um trabalho ali que a gente está ressignificando e que vai envolver capacitação do time da Caixa e tecnologia para gente, um, desenhar políticas públicas para que ela seja o banco da prosperidade. Então a gente quer o quê? A família que está endividada vai conseguir quitar sua dívida e começar a fazer uma poupançazinha. Como você faz isso? Reestruturando e recompondo a capacidade financeira. A melhor forma é os juros. A hora que a gente bota as contas no lugar e o juro cai, a prestação do cara já cai, junto, né?
CM - Essa questão dos juros, eu dei uma nota. E essa evasão de divisas que está tendo nas últimas semanas, quase 15 bilhões saindo, principalmente para investidores americanos, está afetando muito a saúde dos gigantes varejistas e que está tendo aí uma mudança e um movimento para aquisição na bacia das almas. Você acha que, de alguma forma, essa evasão de divisas pode estar sincronizada com esse apetite de compra desses ativos na bacia das almas?
DM - Acho que essa saída de divisas, quando eu falo que o Lula está levando o Brasil para o AJ, é porque, mesmo com o juro mais alto do mundo real, não está aparecendo ninguém para financiar. O pessoal está indo embora porque não acredita mais que vai ser pago. Então, eles perderam a credibilidade e a confiança. Então, o paciente está com febre de 45 graus agora. O paciente é o Brasil. Se não houver uma mudança, o juro vai para 18, o câmbio vai para 6. Por quê? Porque eles reafirmam que esse modelo está funcionando, está lá no plano deles, né? O Gabrielli, que é o coordenador do plano do Lula, disse que essa história de endividamento é meio que fake news. Então, você está todo mundo com a corda no pescoço, algumas empresas indo para o Paraguai, Casas Bahia, o Habib’s, a Chili Beans, o Pão de Açúcar, Braskem, Cosan. Isso são as grandes, são mais de 9 milhões de CNPJs inadimplentes, 8 milhões pequenos. E aí ele tem mentido, por isso eu estou me esforçando em informar e quero deixar isso aqui para quem lê e te assiste, eu sou sua fã também, é o seguinte: eles agora estão dizendo que: “não, 82% de dívida PIB, ou seja, tudo que o Brasil produz de riqueza já está consumido em dívidas, em 82. Se nada for feito, vai bater 100%”. E aí o Lula disse assim: “não, mas no Japão e nos Estados Unidos também é 100%”. Isso é como você comparar assim: nós dois temos uma dívida de 10 mil, mas a minha renda é 12 e a sua é 100 mil. Então, não são coisas comparáveis. O PIB dos Estados Unidos é mais de 10 vezes o do Brasil. E o juro real dos Estados Unidos é de um dígito, do Japão também. Então ele mais uma vez tenta enganar como se isso fosse uma política de mercado, e isso é a política mais social que vai existir.
CM - E a questão nacional na preservação das instituições e empresas brasileiras, com a chegada muito estratégica do capital chinês. Por exemplo, você vê agora a Odebrecht, que é dona dos submarinos nossos, comprado por uma empresa portuguesa, que quando você puxa o fiapo pertence já à capital chinês. Como é que você vê a chegada dos chineses como investidores e assumindo empresas tradicionais do Brasil? Isso preocupa uma questão de soberania nacional ou o capital não tem pátria?
DM - Na verdade, você promover o investimento privado é bom e saudável. Agora, quando existe uma má gestão, um descontrole, um aparelhamento das agências reguladoras, né? Todos os empresários sabem que tem um aparelhamento total, você está perdendo o controle e talvez entregando ativos que são de fato estratégicos para a mão de outros países. Então o Flávio está com um olhar muito apurado para isso. É um momento diferente do mundo. O Brasil tem ativos, é a matriz de segurança alimentar, energética. Agora tem um boom de investimento em inteligência artificial, em data center, que a gente deveria estar capturando e não está. Então aqui tem terras raras, minerais críticos, então a gente tem que botar essa vantagem competitiva e o governo atuar como um grande coordenador e fazer isso na forma correta e não de uma forma totalmente desorganizada, entendendo que a estatização disso tudo é que é a solução. Então tem um meio termo aí. E soberania é você andar na rua com segurança, né, Magna Vitória? Hoje a gente não tem soberania nem para andar na Faria Lima, ou no ônibus e não roubarem seu celular.
CM - Vou fazer uma confidência aqui: eu estava vindo pra entrevista aqui em São Paulo. Aqui em São Paulo, com o celular na mão, você tem que conversar com ele no meio do táxi, assim, porque se você estiver do lado do vidro, alguém vem e mete uma vela.
DM - Os táxis agora estão no aviso: não fale no celular pra não quebrar o vidro. Eles nem deixam.
CM - Agora, a economia versus segurança é fundamental, né? Ter emprego, pleno emprego, como é que você vê a relação cidadania, segurança e economia?
DM - A segurança é uma obrigação do Estado. E a economia é só o Estado não atrapalhar. Hoje o Estado atrapalha. Um cara que quer vender um pastel, ele tem tanta burocracia, né? Tem que fazer um projeto na prefeitura, depois tem que ir no bombeiro, depois tem na vigilância sanitária, aí tem que saber onde descartar o óleo, aí ele não tem uma maquininha da caixa pra ajudar, aí passou 45 dias, ele não vendeu nem o pastel, já tem a guia de imposto pra pagar e não conseguiu. Então hoje o Estado atrapalha esse desenvolvimento. Na segurança, os resultados... o crime está tomando conta do país e precisa haver um enfrentamento sério e uma aplicação rígida da lei em presídios, nos portos e aeroportos, construção de presídios e uma aplicação, acabar com a impunidade. Então essa declaração que o Flávio fez de guerra ao crime, tudo que está refletindo na política, por isso ele tá sendo tão ameaçado, hostilizado, todo dia tá arriscando a própria vida nesse projeto, é o início de mudança de direção e todos estão vendo que a intenção do discurso é boa, mas quando traz como resultado eu, que sou mulher, o maior número de assassinato de mulheres num semestre desde 2015... Os números falam por si, não adianta fazer guerra de narrativa. Eu sou uma pessoa técnica, não sou política, não estou na guerra, então tenho muito trazido, assim, os fatos, que isso é o quê? É um afrouxamento da política. A hora que um estuprador é solto 24 horas depois e pode voltar, e a mãe com as filhas não estão protegidas, aplica a lei só, não precisa de mais.
CM - Nós estamos chegando ao final da entrevista, eu queria falar de uma coisa que criou, assim, no imaginário popular empresarial, o ente chamado Faria Lima. Me fala qual é a sua visão desse ente Faria Lima. Existe um ente Faria Lima? O que que incorpora atrás desse pensamento de oligarquia, esse ente Faria Lima?
DM - O ente, existe, toda a economia própria tem um setor financeiro forte. Acho que o Brasil tem uma concentração bancária muito grande, por isso a gente fez, no nosso governo, um estímulo à competição, às fintechs, ao digital. A gente criou o Pix, lá numa agenda com o Banco Central. Justamente agora, no governo do Flávio, a gente vai, por exemplo, tirar o imposto de 15% que tem do capital estrangeiro, é único. Não existe esse imposto para dívida pública, para ações de empresas listadas e não listadas. Na hora que o capital estrangeiro vem para financiar o crédito das empresas pequenas, médias e grandes, tem um imposto que fecha a fronteira, abre para ter mais concorrência de capital. E aí tem um lado que é o lado pragmático, zero ideológico, que é o que vai acontecer com o Brasil nos próximos seis meses?. Então o mercado vive de fazer projeções. Então o resultado eleitoral, ele é só... eles tentam fazer a leitura e hoje tá claro, você viu essa semana. O Flávio passou na pesquisa agora, o Juro já começou a cair. Por quê? Eles sabem que no nosso plano a gente vai colocar as contas no azul. E por que que antes estava subindo? Porque no plano do Lula, eles acham que tem que continuar gastando. Então o mercado antecipa isso de forma pragmática e fria. Termômetro. Porque se der certo ou se der errado, vão continuar apostando outra vez e o capital vai embora para outro país, que é pra quase onde a gente tá indo. Então ele é um termômetro realista sobre, tentando antecipar um prognóstico do que vai acontecer com a economia pra frente.
(Continua na próxima edição do Correio da Manhã)
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