Marco Buzzi

STJ decide nesta quinta punição de Marco Buzzi por denúncias de assédio sexual

Julgamento pode definir se ministro será aposentado compulsoriamente ou demitido, em um caso considerado inédito na história do Superior Tribunal de Justiça

STJ decide nesta quinta punição de Marco Buzzi por denúncias de assédio sexual
Marco Buzzi está afastado das funções desde 10 de fevereiro, quando foi instaurado o processo disciplinar Crédito: Raphael Alves/STJ

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) julga nesta quinta-feira (6) o processo administrativo disciplinar que pode definir o futuro do ministro Marco Buzzi, acusado de assédio sexual, importunação sexual e injúria contra duas mulheres. A decisão é considerada histórica, pois será a primeira vez que o tribunal discutirá se um de seus integrantes deve ser aposentado compulsoriamente ou demitido em razão de infrações disciplinares.

O caso será analisado pelo plenário da Corte após manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR), que defendeu a aplicação da pena de aposentadoria compulsória. O julgamento também poderá estabelecer um precedente sobre qual punição deve ser aplicada a magistrados após mudanças promovidas pela Reforma da Previdência de 2019.

Marco Buzzi está afastado das funções desde 10 de fevereiro, quando foi instaurado o processo disciplinar. O ministro responde a duas acusações distintas. A primeira foi apresentada por uma jovem de 18 anos que afirmou ter sofrido importunação durante um período em que esteve na residência do magistrado, em Santa Catarina. A segunda denúncia partiu de uma ex-servidora do gabinete, que relatou episódios de toques sem consentimento, comentários de cunho sexual e comportamento considerado ofensivo no ambiente de trabalho.

PGR defende punição

Em parecer encaminhado ao STJ, a Procuradoria-Geral da República sustenta que as provas reunidas durante a investigação demonstram a ocorrência das infrações funcionais atribuídas ao ministro.

Segundo o órgão, a apuração apontou que Buzzi realizou contato físico sem consentimento com uma das denunciantes e, entre 2023 e 2025, teria adotado comportamento inadequado em relação à segunda vítima, incluindo toques no corpo, comentários sobre sua aparência física, exibição de conteúdo com teor sexual e manifestações consideradas intimidatórias.

Para a PGR, os elementos produzidos durante a instrução do processo justificam a aplicação de sanção disciplinar.

Defesa nega acusações

A defesa de Marco Buzzi rejeita todas as acusações e afirma que o ministro é vítima de uma articulação para prejudicar sua imagem.

Os advogados questionam a credibilidade dos depoimentos das denunciantes, classificam parte das provas como baseadas em rumores e alegam inexistência de elementos capazes de comprovar as acusações. Como parte da estratégia de defesa, também foi apresentado um laudo médico sobre disfunção erétil do magistrado.

Julgamento pode definir precedente

A principal discussão jurídica do caso vai além da responsabilidade disciplinar do ministro. Os integrantes do STJ deverão decidir qual penalidade pode ser aplicada caso as acusações sejam consideradas procedentes.

Tradicionalmente, a punição máxima imposta a magistrados era a aposentadoria compulsória com remuneração proporcional ao tempo de serviço. Entretanto, neste ano, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), em decisão relatada pelo ministro Flávio Dino, entendeu que a Reforma da Previdência extinguiu essa modalidade como sanção disciplinar.

A PGR, por outro lado, sustenta que essa decisão não possui efeito vinculante para os demais tribunais e defende que o STJ mantenha a possibilidade de aplicar a aposentadoria compulsória.

Caso a Corte acompanhe o entendimento do STF, poderá discutir a aplicação da demissão, hipótese que nunca foi adotada em relação a um ministro do Superior Tribunal de Justiça.

Histórico no STJ

Desde a criação do STJ, em 1989, apenas outros dois ministros tiveram suas condutas analisadas em processos disciplinares.

Em 2004, o ministro Vicente Leal pediu aposentadoria após ser afastado durante investigação sobre suposta venda de habeas corpus.

Já em 2010, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou a aposentadoria compulsória do ministro Paulo Medina, acusado de favorecer empresas ligadas ao setor de máquinas caça-níqueis por meio de decisões judiciais.

O julgamento desta quinta-feira poderá redefinir o entendimento sobre a responsabilização disciplinar de magistrados e servir como referência para casos futuros envolvendo integrantes dos tribunais superiores.