Correio da Manhã
Política

Reconciliação com Michelle e presença de Bolsonaro: os trunfos do PL

Para especialista, reaproximação entre madrasta e enteado foi estratégia necessária e calculada, que ajuda momentaneamente a conter crise dos últimos dias

Reconciliação com Michelle e presença de Bolsonaro: os trunfos do PL
Jair Bolsonaro aparece em criação de IA na convenção nacional do PL Crédito: Reprodução/ PL YouTubw

A presença do patriarca, símbolo máximo do projeto político. A reconciliação entre madrasta e enteado. A convenção do PL que oficializou no sábado (25) a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (RJ) à Presidência da República foi marcada por forte conteúdo familiar. O pano de fundo de toda a representação ocorrida no Mercado Pago Hall, no estádio do Pacaembu, foi a transferência do legado, para manter o clã Bolsonaro no domínio do espólio do comando da direita no Brasil.

Na avaliação do publicitário e CEO da Arco Comunicação, agência especializada em estratégia e marketing político, Adriano Canutto, a reconciliação entre Michelle Bolsonaro e Flávio ensaiada desde quinta-feira e formalizada com o vídeo que Michelle gravou e que foi exibido na convenção foi "uma jogada defensiva, calculada e necessária do ponto de vista tático". Canutto avalia que, diante da força dos dois nomes e do sobrenome Bolsonaro, a estratégia "pode ajudar a conter a sangria imediata no núcleo bolsonarista".

Até onde, porém, conseguirá ultrapassar os problemas ocorridos nas últimas semanas na campanha de Flávio, só o tempo dirá. O PL não conseguiu agregar alianças partidárias à candidatura. Não conseguiu ainda definir quem será o companheiro ou companheira de chapa de Flávio como candidato ou candidata a vice-presidente. Reuniu importantes apoios de personalidades políticos, como o governador e o prefeito de São Paulo, Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes, mas isso não significa o apoio de seus partidos, Republicanos e MDB. "O eleitor conectado e informado dificilmente se deixa distrair por cenas de harmonia familiar quando há investigações judiciais ativas", avalia Canutto. A percepção final, para o especialista, é que o trunfo da campanha depende exclusivamente da transferência de capital político de Jair Bolsonaro.

Bolsonaro em IA

A estratégia do PL para levar o ex-presidente Jair Bolsonaro à convenção para que ele fizesse o ato de passagem de seu bastão político foi simular um filme com o uso de Inteligência Artificial. O rosto e a voz de Bolsonaro, simulados com o uso de computadores, apareceram no telão do Mercado Pago Hall. "Não sou eu", disse a imagem com o rosto e a voz de Bolsonaro. "Isso é uma simulação da minha imagem e da minha voz, feita com inteligência artificial. Como todos aqui sabem, eu estou preso e calado por uma decisão injusta e arbitrária, baseada em algo que eu nunca fiz. Mas eu garanto, nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança que despertamos. Nenhuma prisão vai calar milhões de brasileiros que acreditam no nosso país. Por isso, peço que vocês recebam de braços abertos a pessoa que escolhi para me substituir, sangue do meu sangue, meu filho Flávio. Vem com fé, o Brasil tem futuro e o futuro é Flávio Bolsonaro", disse a imagem artificial de Bolsonaro.

O uso da imagem e da voz de Bolsonaro com o uso de Inteligência Artificial gerou controvérsias. Os advogados da campanha acreditam ter sido feita uma utilização amparada pela legislação eleitoral, que permite o uso de Inteligência Artificial, desde que isso seja claramente informado, que foi o que aconteceu. O PT, porém, partido do principal adversário de Flávio Bolsonaro na disputa, informou que irá contestar o que houve na Justiça eleitoral. Entende que o uso de alguma forma violou as restrições de participação de Jair Bolsonaro em eventos políticos.

A partir daí, no entanto, construiu-se na convenção o enredo. Emocionado, Flávio Bolsonaro discursou. "Pai, você despertou esta nação com a sua verdade, com a sua coragem e, com a sua coragem, pai, eu vou te honrar. E você vai colocar essa faixa de presidente em mim em janeiro do ano que vem. No nome de Jesus", discursou Flávio Bolsonaro.

Michelle

Michelle fez em seguida o ato de reconciliação. "Hoje é um dia muito importante. Esse dia me faz lembrar 2022, quando lançamos a candidatura do meu marido. Foi um dia marcante para nós, especialmente para mim", disse Michelle. "O meu galego não pode estar com vocês, eu também não posso porque estou em casa cuidando dele, mas os nossos corações estão aí", continuou. Michelle lembrou que as mulheres representam 53% do eleitorado. "Vivemos uma guerra de ideias e de narrativas que também têm uma dimensão espiritual. Já vencemos algumas batalhas e também enfrentamos derrotas, mas não desistiremos, não recuaremos porque Deus está conosco. Essas eleições serão decididas por vocês. Vocês estão no dia a dia das cidades, das famílias, dos trabalhadores, dos jovens e dos eleitores que ainda estão indecisos ou sem esperança. Quando homens e mulheres se unem para fazer o que é certo, nenhuma dificuldade nos impede. Já vencemos algumas batalhas, perdemos outras, mas não desistiremos, porque Deus está conosco".

Ela, então dirigiu-se diretamente para seu enteado. "Flávio, que Deus abençoe e proteja a sua candidatura. Que ele, com sua sabedoria, dê coragem e força a você e à sua família para cumprir essa missão com coragem e a verdade que o nosso povo merece".

Eduardo e Carlos

O tom familiar prosseguia com outros nomes do clã Bolsonaro. O vereador em Balneário Camboriú e candidato a deputado federal por Santa Catarina Jair Renan Bolsonaro estava na convenção, mas não discursou. Por vídeo, falaram o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que está nos Estados Unidos, e Carlos Bolsonaro, candidato a senador por Santa Catarina.

Dos Estados Unidos, o irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, discursou elogiando a presença na convenção do presidente da Argentina, Javier Milei. "Não vamos baixar a cabeça para quem defende outros interesses, quem sabe os interesses de narcoterroristas", atacou. "A gente vai soltar o Jair Bolsonaro, vai soltar quem preso de maneira inocente. Vamos levar a onda azul que acontece na América Latina para o nosso país. Milei já está convidado para a posse".

Eduardo foi oficializado pelo PL como suplente na chapa do candidato ao Senado por São Paulo André do Prado, mesmo com sua inelegibilidade por oito anos decretada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). “O Eduardo está reunido com sua equipe jurídica e em breve faremos um pronunciamento sobre ele na suplência”, disse André do Prado.

O ex-deputado foi condenado à inelegibilidade por oito anos e teve seus direitos políticos suspensos na sentença a 4 anos e dois meses de prisão em regime semiaberto pelo crime de coação no curso do processo.

Outro irmão de Flávio, Carlos Bolsonaro, candidato a senador pelo PL em Santa Catarina, também não esteve presente. Gravou uma mensagem que foi exibida no telão. Ele começou falando do próprio trabalho que coordenou que gerou o crescimento de Jair Bolsonaro em 2018. "No início, éramos poucos nas redes sociais. Mas fomos crescendo porque representamos os anseios do povo brasileiro" Para falar de seu pai e atacar o que classificou como "o sistema".

"Um tal de Jair Messas Bolsonaro abriu os olhos da Nação para o que faz o sistema. Nosso pai é vítima diária desse sistema, e agora você também está sendo atacado por ele". Carlos citou, então os versos de Walter Franco na canção "Coração Tranquilo", protesto contra a ditadura militar e a tortura, referindo a Flávio. "Mantenha a cabeça erguida, a espinha ereta e o coração tranquilo. O país não aguenta mais quatro anos de PT. É a nossa última chance de mudar o país desse sistema tóxico da esquerda. O fardo é pesado, mas você não está sozinho. Há milhões de brasileiros de bem irmanados contigo, firmes nessa caminhada que será vitoriosa. Aquele que conheço desde o meu primeiro momento de vida". Flávio se emociona.

Milei

Presente à convenção, o presidente da Argentina manifestou seu apoio. "Desde que assumi a Presidência, venho insistindo em uma ideia particular. Nós argentinos somos profetas de um futuro distópico, vivemos as consequências de ter tomado o caminho do socialismo até o final. Vimos como nossa nação deixou de ser uma potência mundial. Esses imbecis nos deixaram na pobreza. E porque afundamos não queremos que outros países também afundem. Por isso, parte de nossa missão como governo é ajudar as demais nações para que mudem a tempo e possam evitar tragédias sociais e econômicas, como a da Argentina".

Milei, chamou o presidente Lula de “ladrão” e “presidiário” e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de “lixo careca”. As declarações foram feitas durante o encontro que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

O argentino acusou Lula de “espalhar o comunismo” na América Latina e defendeu a candidatura de Flávio Bolsonaro apontando uma suposta crise econômica pela política fiscal do governo brasileiro. “O Brasil ainda não experimentou as consequências mais desastrosas desse modelo, mas poderá experimentar se não mudar de rumo. Confiamos em você, Flávio, para parar com essa palhaçada socialista”, disse Milei.

Valdemar Costa Neto abriu a convenção. "Conheci ao longo da vida política nomes como Ulysses Guimarães e Alvaro Valle", disse Valdemar, referindo-se ao ex-presidente da Câmara e principal líder político de oposição à ditadura militar e ao fundador do PL. "Jair Bolsonaro foi o maior líder que conheci na minha vida", completou. "Flávio Bolsonaro foi escolhido por seu pai para dar continuidade ao seu projeto. Que Deus ilumine essa caminhada".