Na tarde desta quinta-feira (23), a poucos dias da convenção nacional do PL, marcada para este sábado (25), em São Paulo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deu o primeiro passo para tentar estancar uma das crises que mais desgastaram sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto.
Em um vídeo publicado nas redes sociais, o senador fez um pedido público de desculpas à sua madrasta Michelle Bolsonaro. Reconheceu a importância dela para o partido e pediu que ela se unisse à campanha. A resposta veio poucos minutos depois. Também em vídeo, Michelle aceitou o pedido de desculpas do enteado, falou em reconstrução da relação e defendeu que o grupo volte a caminhar unido.
Desventuras em série
A reconciliação acontece depois de semanas em que a pré-candidatura de Flávio passou a acumular desgastes em diferentes frentes. O mais recente envolve a associação do nome dele e da família Bolsonaro ao escândalo do Banco Master, ligado a Daniel Vorcaro, que permanece preso preventivamente em Brasília.
Antes disso, Flávio também foi alvo de críticas durante a crise provocada pelo tarifaço imposto pelos Estados Unidos (EUA) aos produtos brasileiros. A defesa pública feita pelo senador da aproximação com o governo norte-americano rendeu, inclusive, o apelido de "Tariflávio", usado por integrantes da base governista.
Como se não bastasse, a crise familiar ganhou dimensão pública no fim de junho. Em 24 de junho, Michelle Bolsonaro divulgou dois longos vídeos nos quais revelou mágoas, expôs bastidores inéditos da relação com o enteado e afirmou ter sido humilhada e destratada por ele após se posicionar contra o apoio do PL à pré-candidatura de Ciro Gomes ao Governo do Ceará.
Ao mesmo tempo, Flávio voltou a repetir uma estratégia que remete diretamente ao pai. Na última segunda-feira (21), durante um encontro com embaixadores, o senador fez críticas ao sistema eletrônico de votação, retomando um discurso semelhante ao adotado por Jair Bolsonaro antes de ser declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Enquanto enfrentava todos esses desgastes, Flávio também via crescer o isolamento político. Às vésperas da convenção nacional do PL, ainda não conseguiu fechar uma aliança ampla com partidos do Centrão nem definir quem será o candidato a vice. PP e União Brasil vêm sinalizando neutralidade em integrar formalmente a chapa.
Neste momento, a definição do vice tornou-se uma das principais preocupações da campanha. Nos últimos dias, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) chegou a ser cogitada, mas a possibilidade perdeu força. Segundo o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, a parlamentar pretende disputar a Presidência do Senado em 2027 e, por isso, não deverá integrar a chapa como vice.
Cenário diferente
Antes da sequência de crises, Flávio Bolsonaro vivia um cenário diferente. Em alguns levantamentos eleitorais, chegou a aparecer tecnicamente empatado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Desde então, porém, o acúmulo de desgastes fez o senador perder fôlego nas pesquisas e aumentou a possibilidade de parte do eleitorado migrar para outras candidaturas da direita, entre elas a do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD).
Foi nesse contexto que Flávio decidiu mudar de estratégia e procurar Michelle Bolsonaro.
No vídeo publicado nesta quinta-feira, o senador reconheceu o papel desempenhado pela ex-primeira-dama na construção do PL Mulher, e pediu desculpas pelos episódios que provocaram desconforto. Ele também faz um apelo para que ela caminhe ao seu lado durante a campanha.
"Quero mais uma vez me dirigir à Michelle. Todos nós reconhecemos o grande trabalho que ela fez no PL Mulher (...). Mais uma vez peço desculpas por alguns momentos que causaram desconforto. O momento exige união."
As declarações representam uma mudança de postura em relação ao discurso adotado poucas semanas antes. Ao comentar os vídeos divulgados por Michelle, Flávio afirmou que preferiu nem assisti-los para não se "contaminar". Na mesma entrevista, cedida ao Flow Podcast, disse que a situação só havia chegado àquele ponto porque ela é esposa de Jair Bolsonaro e afirmou que, se não fosse por isso, a situação já teria sido "estancada" antes.
"Pelo que eu estava vendo nas matérias qual era o teor, eu preferi nem assistir para não me contaminar. Não tem muita lógica, ainda mais ela sendo esposa do meu pai, que eu sempre respeitei. Se não fosse, certamente acho que não teria chegado a esse ponto, teria estancado antes."
O vídeo divulgado nesta quinta-feira, no entanto, representa uma bandeira branca. Pela trajetória construída dentro do partido e pela influência que conquistou nacionalmente que é reconhecida, inclusive, pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, Michelle passou a ser vista como uma peça importante para fortalecer a campanha de Flávio Bolsonaro.
Parlamentares do PL reconhecem que a participação de Michelle reforça a unidade do bolsonarismo. Na avaliação do estrategista político Adriano Canutto, sem o apoio público da ex-primeira-dama, a narrativa de Flávio como sucessor político de Jair Bolsonaro perde força. "Do ponto de vista do marketing político, a reaproximação com Michelle é um movimento tático necessário para a sobrevivência da candidatura. Michelle detém prestígio, carisma e voto, especialmente entre o eleitorado evangélico e conservador, que Flávio precisa para tentar conter a erosão do eleitorado", afirma.
Para Canutto, o gesto ajuda a recompor a imagem de unidade do grupo, mas não elimina os problemas que cercam a campanha. Na avaliação do estrategista, a reconciliação atende a uma necessidade política imediata, porém, isoladamente, não resolve as dificuldades estruturais enfrentadas pela pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, que continua pressionada por outros desgastes acumulados nas últimas semanas.
"A reaproximação entre Flávio e Michelle Bolsonaro é uma jogada defensiva, calculada e necessária do ponto de vista tático. Ela pode ajudar a conter a sangria imediata no núcleo bolsonarista e a viabilizar a oficialização da candidatura na convenção do PL", avalia.
Antes desse gesto público, o senador já havia tentado uma aproximação. Após Michelle decidir expor a crise familiar, Flávio buscou se reaproximar do núcleo feminino do partido por meio do PL Mulher, movimento que ela comandava até deixar a presidência. Uma reunião chegou a ser articulada, mas a ex-primeira-dama não compareceu.
Agora, porém, a resposta veio de forma pública. Poucos minutos depois da publicação de Flávio, Michelle divulgou um vídeo aceitando o pedido de desculpas e sinalizando que a reconciliação está em curso.
"Eu assisti ao seu vídeo e recebi as suas palavras com muita paz. Quero agradecer pela sua sinceridade. Todos nós cometemos erros. O seu gesto de vir a público pedir desculpas tem muito valor." Na sequência, ela conclui: "Eu aceito o seu pedido. Eu te desculpo. Vamos sentar, conversar, ajustar os detalhes e reunir um grande exército de pessoas de bem para resgatarmos o nosso Brasil."
Michelle ainda fez um agradecimento público à governadora em exercício do Distrito Federal, Celina Leão (PP), e à senadora Damares Alves (Repuplicanos), afirmando que ambas atuaram diretamente para que a reconciliação entre ela e Flávio Bolsonaro pudesse acontecer.
Dark Horse
Mas os desafios de Flávio Bolsonaro não terminam na tentativa de recompor a relação com Michelle. Enquanto busca reorganizar a campanha, o senador continua vendo surgirem novos desdobramentos relacionados ao caso Master, uma das frentes que mais pressionam sua pré-candidatura nas últimas semanas.
Também nesta quinta-feira (23), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de um novo inquérito para investigar repasses atribuídos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro destinados ao financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A decisão atende a um pedido da Polícia Federal (PF), com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR). Além da destinação de cerca de R$ 61 milhões para a produção do longa, a investigação também vai apurar a suspeita de que parte desses recursos tenha sido utilizada para custear despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Outro episódio também aumentou a pressão sobre o senador. O portal Metrópoles revelou que o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro chegou a emitir, em abril de 2025, duas notas fiscais de R$ 500 mil cada para uma empresa que recebeu R$ 57,9 milhões em repasses do Banco Master entre 2024 e 2025. As notas, no entanto, foram canceladas no mesmo dia. Flávio afirma que desistiu da prestação do serviço antes de qualquer pagamento, diz que nunca recebeu valores da empresa e nega qualquer irregularidade. A informação também foi confirmada pelo Correio da Manhã.
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