Ao repetir questionamentos sobre o sistema eletrônico de votação diante de embaixadores estrangeiros, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reacendeu uma estratégia que marcou a atuação política de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) após julgamento relacionado à reunião com embaixadores realizada em 2022.
Na terça-feira (21), Flávio afirmou que muitas das urnas eletrônicas utilizadas no Brasil teriam "a mesma origem" da empresa venezuelana Smartmatic, citada em documentos de inteligência dos Estados Unidos (EUA) sobre suspeitas envolvendo o sistema eleitoral da Venezuela. A declaração ganhou repercussão porque, segundo o TSE, a empresa não desenvolve, não fabrica nem fornece as urnas eletrônicas brasileiras. Esse foi um dos principais argumentos usados pelo PT para acionar a Corte.
Para o cientista político Lucas Zandona, professor de Direito Constitucional e Ciência Política da Estácio, o episódio representa uma mudança de estratégia do senador. Segundo ele, Flávio deixa de lado o tom mais moderado adotado no início da pré-campanha e passa a recorrer ao mesmo discurso que marcou a trajetória política do pai.
"O mesmo discurso levou Bolsonaro à inelegibilidade. Esse risco de fato existe", afirma. Na avaliação do especialista, a mudança ocorre em meio às dificuldades enfrentadas pelo pré-candidato, como disputas internas no campo bolsonarista e um desempenho abaixo do esperado. "Quando ele radicaliza o discurso, está muito mais falando para sua base de apoio do que, de fato, angariando novos eleitores", diz.
Ação
A representação foi protocolada nesta quarta-feira (22) pela Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB, e distribuída ao ministro Nunes Marques. Além de Flávio, a ação também tem como alvos o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), a deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Na petição, a federação sustenta que os representados divulgaram informações falsas sobre o sistema eletrônico de votação. O documento cita a declaração de Flávio de que "muitas" urnas brasileiras teriam "a mesma origem" da empresa Smartmatic, mencionada em documentos da CIA sobre suspeitas envolvendo eleições na Venezuela. Segundo a ação, o próprio TSE já
esclareceu, em diferentes ocasiões, que a empresa não participa do desenvolvimento, da fabricação nem da programação das urnas utilizadas no Brasil.
Embora tenha afirmado no encontro que "não estava questionando o sistema de votação brasileiro", Flávio pediu que outros países enviassem mais observadores internacionais e especialistas em tecnologia para acompanhar as eleições deste ano.
Impacto
Para Lucas Zandona, a estratégia pode até reforçar a identificação com o eleitorado mais fiel ao bolsonarismo, mas dificulta a expansão da candidatura para outros segmentos do eleitorado.
O cientista político avalia ainda que o episódio pode acelerar a fragmentação da direita na disputa presidencial. Segundo ele, eleitores conservadores que rejeitam ataques às instituições tendem a buscar outras candidaturas no primeiro turno.
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